Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens

Cientistas debatem um novo modo de entender a flora


Em 1973, um livro afirmou que as plantas são seres sencientes que têm emoções, preferem música
clássica a rock’n’roll e podem reagir a pensamentos não expressos verbalmente de seres humanos a
centenas de quilômetros de distância. Entrou para a lista de best-sellers do New York Times,
categoria de não ficção. A Vida Secreta das Plantas, de Peter Tompkins e Christopher Bird,
apresentou uma fascinante miscelânea de ciência botânica autêntica, experimentos fajutos e culto
místico da natureza que arrebatou a imaginação do público numa época em que o ideário new
age começava a ser assimilado pela cultura dominante. As passagens mais memoráveis descreviam
os experimentos de Cleve Backster, um ex-agente da CIA especialista em detectores de mentiras.
Em 1966, porque lhe deu na veneta, Backster ligou um galvanômetro – um medidor de correntes
elétricas – à folha de uma dracena plantada num vaso do seu escritório. Ficou pasmo ao constatar
que, quando ele imaginava a dracena pegando fogo, a agulha do polígrafo se mexia, registrando um
surto de atividade elétrica indicador de que a planta sentia estresse. “A planta poderia ter lido a
mente dele?”, indagam os autores. “Backster teve vontade de sair pelas ruas gritando: ‘As plantas
pensam!’”
Backster e seus colaboradores resolveram conectar polígrafos a dezenas de plantas: alfaces, cebolas,
laranjas e bananas, entre outras. Ele relatou que as plantas reagiam aos pensamentos (bons ou
maus) de humanos que estavam próximos e, no caso de pessoas com quem elas tinham mais
familiaridade, a grandes distâncias também. Em um experimento concebido para testar a memória
dos vegetais, Backster descobriu que uma planta que testemunhara o assassinato de outra
(pisoteada) era capaz de identificar o assassino dentre seis suspeitos enfileirados, registrando um
aumento da atividade elétrica quando punham o culpado diante dela. As plantas de Backster
também demonstravam forte aversão à violência interespécies. Algumas ficavam tensas quando se
quebrava um ovo diante delas ou quando camarões vivos eram jogados em água fervente, um
experimento que Backster descreveu em 1968 no International Journal of Parapsychology.
Nos anos seguintes, vários botânicos sérios tentaram em vão reproduzir o “efeito Backster”. Boa
parte da ciência em A Vida Secreta das Plantas caiu em descrédito. Mas o livro deixou sua marca
na cultura. Americanos começaram a conversar com plantas e a tocar Mozart para elas, e sem
dúvida muitos ainda o fazem. Isso pode parecer inofensivo; provavelmente sempre haverá uma veia
sentimentalista a influenciar nosso modo de ver as plantas. (Dizem que Luther Burbank e George
Washington Carver falavam com as plantas com as quais fizeram seu brilhante trabalho, e as
ouviam também.) Mas na opinião de muitos botânicos, A Vida Secreta das Plantas causou danos
duradouros a sua área de estudo. Segundo o biólogo Daniel Chamovitz, autor do livro recémpublicado
What a Plant Knows [O que Sabe uma Planta], Tompkins e Bird foram responsáveis por
emperrar “importantes pesquisas sobre o comportamento das plantas, pois os cientistas passaram a
desconfiar de qualquer estudo que sugerisse paralelos entre sentidos dos animais e sentidos dos
vegetais”. Outros argumentam que A Vida Secreta das Plantas introduziu a “autocensura” entre
pesquisadores interessados em investigar as “possíveis homologias entre neurobiologia e
fitobiologia”, ou seja, a possibilidade de as plantas serem muito mais inteligentes e parecidas
conosco do que supõe a maioria das pessoas – dotadas de capacidades de cognição, comunicação,

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 3/19
processamento de informações, computação, aprendizado e memória.
A citação sobre a autocensura está em um polêmico artigo de 2006 publicado na revista Trends in
Plant Science, no qual os autores propuseram um novo campo de estudo e escolheram chamá-lo,
talvez um tanto afoitamente, de “neurobiologia vegetal”. Os seis autores – entre eles o americano
Eric D. Brenner, especialista em biologia molecular de plantas, o italiano Stefano Mancuso,
fisiologista vegetal, o eslovaco František Baluška, biólogo celular, e a americana Elizabeth van
Volkenburgh, bióloga botânica – afirmaram que os comportamentos complexos observados em
plantas não podiam ser completamente explicados pelos mecanismos genéticos e bioquímicos
então conhecidos. Os vegetais são capazes de sentir e reagir a tantas variáveis do ambiente – luz,
água, gravidade, temperatura, estrutura do solo, nutrientes, toxinas, micróbios, herbívoros, sinais
químicos de outras plantas – que talvez exista algum sistema de processamento de informação
análogo ao cérebro para integrar os dados e coordenar a resposta comportamental de uma planta.
Os autores salientaram que foram identificados em plantas sistemas elétricos e químicos
sinalizadores, homólogos aos encontrados em sistemas nervosos de animais. Ressaltaram ainda
que neurotransmissores como serotonina, dopamina e glutamato também foram encontrados,
embora ainda não se tenha esclarecido o papel deles.
Viria daí a necessidade da neurobiologia vegetal, um novo campo “que visa entender como as
plantas percebem suas circunstâncias e reagem de modo integrado a informações do ambiente”.
Segundo o artigo, as plantas demonstram inteligência, definida como “uma capacidade intrínseca
de processar informações de estímulos abióticos e bióticos que permite decisões ideais sobre
atividades futuras em um dado meio”. Pouco antes da publicação do artigo, a Sociedade de
Neurobiologia Vegetal realizou seu primeiro encontro, em 2005, em Florença. Uma nova revista
científica, Plant Signaling & Behavior, foi lançada no ano seguinte.
Hoje, quando o assunto é botânica, dependendo do interlocutor, o campo da neurobiologia vegetal
ou representa um novo paradigma radical em nosso entendimento da vida ou um escorregão de
volta às turvas águas científicas revolvidas pela última vez em A Vida Secreta das Plantas. Para
seus proponentes, não devemos mais considerar as plantas como objetos passivos – a mobília
muda e imóvel do nosso mundo –, mas começar a tratá-las como protagonistas de seus próprios
dramas, altamente especializadas em seus expedientes de disputa na natureza. Esses autores
querem refutar o atual enfoque redutivo da biologia contemporânea sobre as células e os genes e
voltar nossa atenção novamente para o organismo e seu comportamento no ambiente. Somente a
arrogância humana e o fato de a vida das plantas acontecer em uma espécie de dimensão de tempo
muito mais lenta nos impedem de valorizar-lhes a inteligência e o consequente sucesso. As plantas
dominam cada ambiente terrestre e compõem 99% da biomassa do planeta. Em comparação, os
seres humanos e todos os outros animais são, nas palavras de um estudioso da neurobiologia
vegetal, “apenas traços”.
Muitos botânicos rechaçaram o nascente campo de estudo. Os primeiros foram 33 botânicos
renomados (o italiano Amedeo Alpi e outros), que em resposta ao manifesto de Brenner publicaram
uma carta azeda e depreciativa na revista Trends in Plant Science. “Para começar, queremos deixar
bem claro que não há indícios de estruturas como neurônios, sinapses ou cérebro em plantas”,
escreveram os autores. O manifesto não afirmara nada disso; falara apenas em estruturas
“homólogas”, mas o uso do termo “neurobiologia” na ausência de neurônios de verdade
aparentemente era mais do que muitos cientistas podiam tolerar.

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 4/19
“Sim, as plantas enviam sinais elétricos de curto e de longo prazos e usam certas substâncias
análogas a neuro-transmissores como sinais químicos. No entanto, os mecanismos são muito
diferentes dos encontrados em verdadeiros sistemas nervosos”, explicou-me um dos signatários da
carta de Alpi, Lincoln Taiz, professor emérito de fisiologia vegetal na Universidade da Califórnia,
em Santa Cruz. Para Taiz, os textos dos proponentes da neurobiologia vegetal pecam por
“interpretação forçada de dados, teleologia, antropomorfização, filosofice e especulações
mirabolantes”. Ele aposta que um dia os comportamentos das plantas que ainda não
compreendemos serão explicados pelas ações de vias químicas ou elétricas, sem recurso ao
“animismo”.Clifford Slayman, professor de fisiologia celular e molecular em Yale que também
assinou a carta de Alpi (e que ajudou a desacreditar Tompkins e Bird), foi ainda mais contundente.
“‘Inteligência das plantas’ é uma divagação idiota, não um novo paradigma”, escreveu em um email
recente. Slayman referiu-se à carta de Alpi como “o último confronto sério entre a comunidade
científica e um bando de malucos em torno dessas questões”. Cientistas raramente usam esse tipo
de linguagem quando falam de seus colegas a jornalistas, mas esse é um assunto que tira do sério,
pois enevoa a nítida linha que separa o reino animal do reino vegetal. A controvérsia não é tanto
sobre as notáveis descobertas da recente botânica, mas principalmente sobre como interpretá-las e
nomeá-las: comportamentos observados em plantas muito parecidos com aprendizado, memória,
tomada de decisão e inteligência merecem ser chamados por esses termos ou tais palavras devem
ser reservadas a seres dotados de cérebro?
Nenhum dos cientistas com quem falei no grupo interdisciplinar que estuda a inteligência das
plantas afirma que elas possuem capacidades telecinéticas ou sentem emoções. Tampouco alguém
acredita que localizaremos nas plantas um órgão com feitio de noz que processa dados sensitivos e
guia o comportamento vegetal. Mais provavelmente, na opinião dos cientistas, a inteligência das
plantas assemelha-se à que vemos em colônias de insetos, uma inteligência que se supõe ser uma
propriedade que emerge de numerosos indivíduos desprovidos de mente organizados em uma rede.
Boa parte das pesquisas sobre inteligência das plantas inspira-se na nova ciência das redes,
computação distribuída e comportamento de enxame, que demonstrou alguns dos modos como
comportamentos notavelmente análogos ao de cérebros podem surgir na ausência de um cérebro
verdadeiro.
“Para uma planta, possuir um cérebro não é uma vantagem”, salienta Stefano Mancuso, talvez o
mais fervoroso porta-voz do ponto de vista das plantas. Calabrês quarentão, franzino e barbudo, ele
tem mais jeito de professor de humanidades do que de cientista. Quando falei com ele, no
Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença, ele me contou
que sua convicção de que os humanos subestimam extraordinariamente as plantas originou-se de
uma história de ficção científica que ele teria lido na adolescência. Uma raça de extraterrestres que
vivia em uma dimensão de tempo radicalmente acelerada chega à Terra e, incapaz de detectar
movimentos nos humanos, chega à conclusão lógica de que somos “matéria inerte” com a qual eles
podem fazer o que bem entenderem. E os alienígenas passam a nos explorar impiedosamente.
(Mancuso escreveu depois para esclarecer que a história que ele contou era, na verdade, uma
recordação truncada de um antigo episódio de Jornada nas Estrelas chamado “O piscar de um
olho”.)
Na opinião de Mancuso, nossa “fetichização” dos neurônios, assim como nossa tendência a igualar
comportamento a mobilidade, impede-nos de avaliar o que as plantas são capazes de fazer. Por

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 5/19
exemplo, como elas não podem correr e frequentemente são comidas, é bom que não possuam
órgãos insubstituíveis. “Uma planta tem um desenho modular, por isso pode perder 90% do corpo
sem morrer”, ele diz. “Não existe nada parecido no mundo animal. Isso cria resiliência.”
De fato, muitas das capacidades mais admiráveis das plantas podem ter origem em sua
circunstância existencial única de estarem enraizadas no solo e, portanto, serem incapazes de
mover-se quando precisam de alguma coisa ou quando as condições tornam-se desfavoráveis. O
“estilo de vida séssil”, como o denominam os botânicos, requer uma ampla e sutil apreensão do
ambiente imediato, já que a planta tem de obter tudo aquilo de que precisa e defender-se sem sair
do lugar. Faz-se necessário um aparato sensitivo altamente desenvolvido para localizar alimento e
identificar ameaças. Evoluíram nas plantas entre quinze e vinte sentidos, entre eles cinco análogos
aos que possuímos: olfato e paladar (elas percebem e reagem a substâncias presentes no ar ou em
seu corpo); visão (elas reagem de modo diferente a vários comprimentos de onda luminosa e
também à sombra); tato (uma trepadeira ou raiz “sabe” quando encontra um objeto sólido) e, como
se descobriu, percepção de som. Em um experimento recente, Heidi Appel, ecologista química da
Universidade do Missouri, constatou que, quando ela executava uma gravação de uma lagarta
mastigando uma folha para uma planta que não fora tocada, o som impelia o maquinário genético
da planta a produzir substâncias defensivas. Outro experimento, feito no laboratório de Mancuso e
ainda não publicado, concluiu que raízes de plantas procuram chegar a um cano enterrado onde
existe água correndo mesmo se o exterior do cano estiver seco, o que leva a crer que, de algum
modo, as plantas “ouvem” o som da água em movimento.
As capacidades sensitivas de raízes vegetais fascinaram Charles Darwin, que na maturidade viu
recrudescer sua paixão pelas plantas. Ele e seu filho Francis fizeram numerosos experimentos
criativos com plantas. Muitos envolviam a raiz, ou radícula, de plantas jovens. Os Darwin
demonstraram que o vegetal era capaz de perceber luz, umidade, gravidade, pressão e várias outras
qualidades do ambiente e então determinar a trajetória ótima para o crescimento da raiz. A última
sentença do livro O Poder do Movimento nas Plantas, que Darwin publicou em 1880, assumiu uma
autoridade de sagrada escritura para alguns neurobiólogos das plantas: “Não é exagero dizer que a
extremidade da radícula, […] dotada como é da capacidade de dirigir os movimentos das partes
adjacentes, atua como o cérebro de um dos animais inferiores, situando-se o cérebro na
extremidade anterior do corpo, a receber impressões dos órgãos dos sentidos e dirigir os diversos
movimentos.” Darwin pede que pensemos na planta como um tipo de animal de cabeça para baixo,
com seus principais órgãos dos sentidos e o “cérebro” embaixo, no subsolo, e os órgãos sexuais no
alto.
Cientistas descobriram depois que as extremidades das raízes vegetais, além de sentirem a
gravidade, umidade, luz, pressão e dureza, também são capazes de perceber volume, nitrogênio,
fósforo, sal, várias toxinas, micróbios e sinais químicos de plantas vizinhas. Raízes prestes a
encontrar um obstáculo impenetrável ou uma substância tóxica desviam seu caminho antes de
entrar em contato com eles. Raízes podem discernir se raízes próximas são de sua própria planta ou
de outra e, neste segundo caso, se a planta é parente ou estranha. Normalmente, plantas competem
com estranhas por espaço para as raízes, mas quando pesquisadores puseram no mesmo vaso
quatro plantas da espécie Cakile edentula encontradas nos Grandes Lagos norte-americanos, elas
restringiram seus comportamentos competitivos usuais e partilharam recursos.
De algum modo, uma planta colhe e integra todas essas informações sobre seu ambiente e então

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 6/19
“decide” (alguns cientistas usam esse termo entre aspas para indicar uma metáfora; outros as
dispensam) precisamente em que direção irá espalhar suas raízes ou folhas. Quando a definição de
“comportamento” expande-se para incluir características como uma mudança na trajetória de uma
raiz, uma realocação de recursos ou a emissão de uma substância potente, as plantas começam a
parecer muito mais acentuadamente agentes ativos que reagem a pistas ambientais de maneiras
mais sutis ou adaptativas do que a palavra “instinto” sugeriria. “As plantas percebem a presença de
rivais e crescem para longe delas”, explicou Rick Karban, ecologista botânico da Universidade da
Califórnia, em Davis, quando lhe pedi um exemplo de tomada de decisão por plantas. “Elas são
mais desconfiadas da vegetação real do que de objetos inanimados, e reagem a possíveis rivais
antes que estas lhes façam sombra.” Esses comportamentos são complexos, mas, como a maioria
dos comportamentos das plantas, para um animal eles são invisíveis ou extremamente lentos.
O estilo de vida séssil também ajuda a explicar o extraordinário dom das plantas para a bioquímica,
imensamente superior ao dos animais e, provavelmente, dos químicos humanos. (Muitas drogas,
da aspirina aos opiáceos, derivam de compostos engendrados por plantas.) Incapazes de sair
correndo, as plantas servem-se de um complexo vocabulário molecular para sinalizar sofrimento,
dissuadir ou envenenar inimigos e recrutar animais para prestar-lhes vários serviços. Um estudo
recente publicado na revista Science mostra que a cafeína produzida por muitas plantas pode
funcionar não só como uma substância defensiva, como se pensava antes, mas, em alguns casos,
como uma droga psicoativa contida em seu néctar. A cafeína incentiva as abelhas a lembrar-se de
uma planta específica e voltar para ela, e isso as transforma em polinizadoras mais fiéis e eficazes.
Uma das áreas de pesquisa mais produtivas em botânica nos anos recentes é a da sinalização das
plantas. Sabe-se desde o começo dos anos 80 que, quando as folhas de uma planta são infectadas
ou mastigadas por insetos, emitem substâncias voláteis que sinalizam a outras folhas para que
armem uma defesa. Às vezes esse sinal de alerta contém informações sobre a identidade do inseto,
obtidas com base no gosto de sua saliva. Dependendo da planta e do atacante, a defesa pode
consistir em alterar o gosto ou a textura da folha ou em produzir toxinas ou outros compostos que
tornam a matéria da planta menos digerível para os herbívoros. Quando antílopes comem acácias,
asfolhas dessa árvore produzem taninos que as tornam intragáveis e difíceis de digerir. Há relatos
de que, quando há escassez de alimentos e os animais passam a esgotar as acácias, as árvores
produzem quantidades de toxina suficientes para matá-los.
Talvez o mais engenhoso exemplo de sinalização das plantas tenha a participação de duas espécies
de inseto, a primeira no papel de praga, e a segunda, de exterminadora. Várias espécies, entre elas o
milho e o feijão-de-lima, emitem um pedido de socorro químico quando são atacadas por lagartas.
Vespas parasíticas que se encontram a certa distância localizam a origem do odor, dirigem-se à
planta atacada e lentamente destroem as lagartas. Os cientistas chamam esses insetos de “guardacostas
das plantas”.
As plantas empregam um vocabulário químico que não somos capazes de perceber ou compreender
diretamente. As primeiras descobertas importantes sobre a comunicação vegetal foram feitas em
laboratório nos anos 80, isolando vegetais e suas emissões químicas em câmaras de Plexiglas, mas
Rick Karban, o ecologista da Universidade da Califórnia, em Davis, e outros incumbiram-se da
tarefa mais intrincada de estudar como as plantas trocam sinais químicos na natureza. Estive
recentemente no terreno que Karban reserva para esses estudos na Estação de Pesquisas de Campo
de Sagehen Creek, da Universidade da Califórnia, a alguns quilômetros de Truckee. Em uma

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 7/19
encosta ensolarada no alto das Sierras, ele me mostrou os 99 pés de artemísia – arbustos baixos
verde-acinzentados de crescimento lento, marcados com bandeirinhas de plástico – que ele e seus
colegas vêm acompanhando atentamente há mais de uma década.
Karban, um esguio ex-nova-iorquino de 59 anos e cabeleira branca encaracolada que mal cabe no
chapelão, mostrou que quando folhas de artemísia são cortadas na primavera – simulando um
ataque de insetos que desencadeia a liberação de substâncias voláteis –, tanto a planta cortada
como suas vizinhas intactas sofrem significativamente menos danos por insetos no decorrer da
estação. Karban supõe que a planta alerta todas as suas folhas para a presença de uma praga, mas
suas vizinhas também captam o sinal e se preparam contra o ataque. “Achamos que, no fundo, as
artemísias bisbilhotam a vida umas das outras”, ele disse. Karban constatou que, quanto maior o
parentesco entre as plantas, maior é a probabilidade de elas reagirem ao sinal químico, e isso
sugere que talvez disponham de alguma forma de reconhecimento de parentesco. Ajudar os
parentes é um bom modo de aumentar a probabilidade de sobrevivência para seus próprios genes.
O trabalho de campo e a coleta de dados necessários para fazer descobertas desse tipo são
extremamente minuciosos. No fundo de uma pradaria varrida pela luz do verão, dois colaboradores
japoneses, Kaori Shiojiri e Satomi Ishizaki, trabalhavam à sombra de um pequeno pinheiro,
acocorados diante de pés de artemísia que Karban etiquetou e cortou. Usando contadores
eletrônicos, eles contavam cada folha tridentada de cada ramo, depois contavam e anotavam cada
dano nas folhas, uma coluna para mordida de inseto, outra para doença. No alto da pradaria, outro
colaborador, o ecologista químico inglês James Blande, amarrava sacos plásticos ao redor de caules
de artemísia e os inflava com ar filtrado. Depois de aguardar por vinte minutos enquanto as folhas
emitiam suas substâncias voláteis, ele bombeava o ar por meio de um cilindro metálico contendo
um material absorvente que coletava as emissões químicas. No laboratório, um cromatógrafo a gásespectrômetro
de massa gerava uma lista dos compostos coletados: mais de uma centena. Blande
sugeriu que eu pusesse o nariz num daqueles sacos; o ar era intensamente aromático, lembrando
mais uma loção pós-barba do que um perfume. Fitando a pradaria de artemísias, não consegui
imaginar a conversa química invisível, incluindo pedidos de socorro, que acontecia por lá –
tampouco que aquelas plantas imóveis estivessem ocupadas em algum tipo de “comportamento”.
No futuro, as pesquisas sobre a comunicação das plantas talvez venham a beneficiar a agricultura.
Substâncias causadoras de sofrimento em plantas poderiam ser usadas para desencadear suas
defesas, reduzindo a necessidade de pesticidas. Jack Schultz, ecologista químico da Universidade
do Missouri responsável por parte do trabalho pioneiro sobre a sinalização das plantas no começo
dos anos 80, está ajudando a projetar um “nariz” mecânico que, ligado a um trator e transportado
por uma plantação, poderia ajudar os agricultores a identificar plantas sob ataque de insetos, o que
lhes permitiria borrifar pesticidas somente quando e onde fossem necessários.
Karban contou-me que, nos anos 80, os estudiosos da comunicação vegetal foram alvo do mesmo
tipo de insulto dirigido aos cientistas que hoje investigam a inteligência das plantas (um termo que
ele aceita com cautela). “A coisa era imensamente polêmica”, ele diz, referindo-se aos primeiros
tempos das pesquisas sobre acomunicação das plantas, um campo de trabalho que hoje é
plenamente aceito. “Demorou anos para que eu conseguisse a publicação de alguns desses artigos.
As pessoas gritavam de verdade umas com as outras nos encontros científicos.” E acrescenta: “Os
botânicos costumam ser incrivelmente conservadores. Todos pensamos que desejamos ouvir ideias
novas, mas não; no fundo, não.”

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 8/19
Conheci Karban em um encontro científico em Vancouver em julho de 2013, quando ele apresentou
um artigo intitulado “Plant Communication and Kin Recognition in Sagebrush” [Comunicação das
plantas e reconhecimento de parentesco em artemísias]. O evento teria sido o sexto encontro da
Sociedade de Neurobiologia Vegetal, porém quatro anos antes, sob pressão de certos setores do
establishment científico, o nome da entidade fora trocado para um menos provocativo, Sociedade
de Comportamento e Sinalização das Plantas. Uma das fundadoras da associação, a botânica
Elizabeth van Volkenburgh, da Universidade de Washington, disse-me que o nome fora mudado
depois de um acirrado debate interno; em sua opinião, provavelmente foi melhor descartar o termo
“neurobiologia”. “Um membro da National Science Foundation (NSF), a agência federal norteamericana
de fomento à ciência, me declarou que sua organização jamais concederia verba para
qualquer coisa que levasse o nome ‘neurobiologia vegetal’. ‘Neuro’ é para os animais, ele disse.”
(Um porta-voz da NSF afirmou que, embora a associação não se qualifique para receber
financiamento pelo programa de neurobiologia da fundação, “a NSF não pratica nenhum tipo de
boicote contra a associação”.) Dois dos cofundadores da entidade, Stefano Mancuso e František
Baluška, argumentaram tenazmente contra a mudança de nome, e continuam a usar o termo
“neurobiologia vegetal” em seus próprios textos e nos nomes de seus laboratórios.
O encontro consistiu em três dias de apresentações em PowerPoint para cerca de 100 cientistas,
numa sala de conferência grande e moderna na Universidade da Columbia Britânica, no Canadá. A
maioria dos ensaios trazia material altamente técnico sobre sinalização de plantas – o tipo de
ciência incremental que acontece confortavelmente dentro dos limites de um paradigma científico
estabelecido, o que a sinalização das plantas hoje é. Mas alguns dos oradores apresentaram
trabalhos acentuadamente condizentes com o novo paradigma da inteligência das plantas, e
suscitaram reações arrebatadas.
A apresentação mais polêmica foi “Animal-Like Learning in Mimosa pudica” [Aprendizado
semelhante ao animal em Mimosa pudica], um paper não publicado de Monica Gagliano, de 37
anos, ecologista animal da Universidade da Austrália Ocidental que trabalhava no laboratório de
Mancuso em Florença. Alta, de longos cabelos castanhos partidos ao meio, ela baseou seu
experimento em um conjunto de protocolos comumente usados para testar o aprendizado em
animais. Concentrou-se em um tipo elementar de aprendizado conhecido como “habituação”, no
qual um sujeito de experimento é ensinado a desconsiderar um estímulo irrelevante. “A habituação
permite que um organismo se concentre nas informações importantes e descarte as inutilidades”,
ela explicou à plateia de botânicos. Quanto tempo um animal leva para reconhecer que um estímulo
é uma “inutilidade”, e depois por quanto tempo se lembrará do que aprendeu? A questão
experimental da pesquisa era estimulante: seria possível fazer a mesma coisa com uma planta?
A Mimosa pudica, também chamada de “sensitiva”, é daquelas raras espécies de planta com um
comportamento tão rápido e visível que os animais podem observá-lo; outro exemplo é a dioneia.
Quando tocamos nas folhas da mimosa, parecidas com folhas de samambaia, elas se retraem
depressa, presumivelmente para assustar insetos. A mimosa também retrai as folhas quando a
derrubamos ou esbarramos nela. Monica Gagliano plantou 56 mimosas em vasos e montou um
dispositivo que as fazia sofrer uma queda de 15 centímetros a cada cinco segundos. Cada “sessão de
treinamento” consistia em sessenta quedas. A cientista relatou que algumas das mimosas
começaram a reabrir suas folhas depois de apenas quatro, cinco ou seis quedas, como se houvessem
concluído que aquele estímulo podia ser ignorado sem perigo. “No final, elas estavam totalmente
abertas”, ela disse aos ouvintes. “Não se importavam mais.”

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 9/19
Seria apenas fadiga? Aparentemente não: quando as plantas eram sacudidas, tornavam a fechar-se.
“Epa, isso é novo”, disse Monica, imaginando esses acontecimentos do ponto de vista das plantas.
“Épreciso estar atento para as coisas novas que surgem. Em seguida, voltávamos às quedas, e elas
não reagiam.” Monica relatou que depois de uma semana deixou as plantas em repouso e constatou
que elas continuaram a desconsiderar o estímulo da queda, um indício de que se “lembravam” do
que tinham aprendido. Passados 28 dias, a lição ainda não fora esquecida. A cientista lembrou aos
colegas que, em experimentos semelhantes com abelhas, os insetos esqueciam o que tinham
aprendido depois de apenas 48 horas. Ela concluiu afirmando que “cérebros e neurônios são uma
solução refinada, mas não um requisito necessário para o aprendizado” e que existe “em todos os
sistemas vivos algum mecanismo unificador capaz de processar informações e aprender”.
Seguiu-se uma discussão acalorada. Alguém objetou que deixar cair uma planta não era um
estímulo desencadeador relevante, já que isso não ocorre na natureza. Monica retrucou que o
choque elétrico, um estímulo igualmente artificial, é frequentemente usado em experimentos sobre
aprendizado animal. Outro cientista aventou que talvez as plantas da pesquisa não estivessem
habituadas, apenas exaustas. Ela redarguiu que 28 dias seriam tempo suficiente para reconstruírem
suas reservas de energia.
Na saída da sala de conferência, topei com Fred Sack, eminente botânico da Universidade da
Columbia Britânica. Perguntei-lhe o que achara da apresentação de Monica Gagliano. “Besteira”,
ele respondeu. Explicou que a palavra “aprendizado” implica um cérebro e deve ser reservada a
animais: “Os animais podem exibir aprendizado, mas as plantas ganham adaptações pela
evolução.” Ele estava fazendo uma distinção entre as mudanças comportamentais que ocorrem
durante o tempo de vida de um organismo e as que surgem ao longo das gerações. No almoço,
sentei-me em companhia de um cientista russo, que também menosprezou o trabalho da
pesquisadora. “Não é aprendizado”, disse ele. “Portanto, não há nada a discutir.”
Na parte da tarde, Monica pareceu ao mesmo tempo melindrada e desafiadora diante de algumas
das reações a sua apresentação. Adaptação é um processo lento demais para explicar o
comportamento que ela havia observado, disse-me. “Como as mimosas podem ser adaptadas a algo
que nunca vivenciaram no mundo real?” Ela salientou que algumas de suas plantas aprendiam mais
depressa do que outras, um indício de que “não se trata de resposta inata ou programada”. Muitos
dos cientistas na plateia estavam apenas começando a acostumar-se às ideias sobre
“comportamento” e “memória” em plantas (termos que até Fred Sack declarou-se disposto a
aceitar); usar palavras como “aprendizado” e “inteligência” em plantas parecia-lhes, nas palavras de
Sack, “impróprio” e “esquisito”. Quando descrevi o experimento para Lincoln Taiz, ele sugeriu que
os termos “habituação” ou “dessensibilização” seriam mais apropriados do que “aprendizado”.
Monica contou que seu estudo sobre a mimosa fora rejeitado por dez revistas: “Nenhum dos
pareceristas encontrou problemas nos dados.” Em vez disso, fizeram careta para a linguagem que
ela empregou na descrição desses dados. Mas a cientista não queria empregar outros termos. “Se
não usarmos a mesma linguagem para descrever o mesmo comportamento” – observado em
plantas e animais – “não poderemos compará-lo”, explicou.
Rick Karban consolou Monica depois de sua apresentação. “Também passei por isso, levei
bordoada de todo lado”, disse a ela. “Mas você está fazendo um bom trabalho. O sistema é que não
está pronto.” Quando perguntei a Karban o que ele achava do paper dela, ele respondeu: “Não sei
se ela tem tudo bem amarrado, mas é uma ideia legal que merece ser divulgada e posta em
discussão. Espero que ela não se desencoraje.”

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 10/19
Muitos cientistas constrangem-se em falar sobre o papel da metáfora e da imaginação em seu
trabalho, mas o progresso científico depende de ambas. “Metáforas ajudam a estimular a
imaginação investigativa dos bons cientistas”, escreveu o botânico britânico Anthony Trewavas em
uma enérgica réplica à carta de Alpi que criticava a neurobiologia vegetal. “Neurobiologia vegetal” é
obviamente uma metáfora; plantas não possuem o tipo de células excitáveis e comunicativas que
chamamos de neurônios. Ainda assim, a introdução do termo suscitou uma série de questões e
inspirou um conjunto de experimentos que prometem aprofundar nossa compreensão não só das
plantas mas também, potencialmente, dos cérebros. Se existem outros modos de processar
informações, outros tipos de células e de redes celulares capazes de ensejar de algum modo um
comportamento inteligente, estaremos então mais inclinados a indagar, como fez Mancuso: “O que
os neurônios têm de tão especial?”
Stefano Mancuso é o poeta-filósofo do movimento, decidido a obter para as plantas o
reconhecimento que elas merecem e talvez, no processo, baixar um pouquinho o topete dos
humanos. Seu Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal, um nome um tanto ambicioso,
consiste em um modesto conjunto de laboratórios e salas em um prédio baixo moderno a alguns
quilômetros de Florença. Ali, um punhado de colaboradores e pós-graduandos trabalham nos
experimentos que Mancuso concebe para testar a inteligência das plantas. Ele me mostrou o
laboratório e exibiu pés de milho cultivados sob lâmpadas que estavam sendo ensinados a
desconsiderar sombras; um álamo novo ligado a um galvanômetro para medir sua reação à
poluição do ar; uma câmara onde uma máquina conhecida como PTR-TOF – um tipo avançado de
espectrômetro de massa – registra continuamente todas as substâncias voláteis emitidas por uma
sucessão de plantas, de choupos e pés de tabaco a pimenteiras e oliveiras. “Estamos fazendo um
dicionário de todo o vocabulário químico de cada espécie”, ele explicou. Mancuso calcula que uma
planta tenha em seu vocabulário químico 3 mil substâncias – em comparação com “o aluno médio,
que tem apenas 700 palavras”, ele diz sorrindo.
Mancuso é ardorosamente dedicado às plantas. Um cientista tem de amar seus objetos de estudo
para fazer-lhes justiça, ele diz. E também é afável e despretensioso, mesmo quando declara algo
chocante. Em um canto de sua sala há uma tristonha figueira-chorona (Ficus benjamina), e nas
paredes veem-se fotos de Mancuso de macacão de astronauta flutuando na cabine de uma aeronave
de gravidade zero; ele colaborou com a Agência Espacial Europeia, que financiou suas pesquisas
sobre comportamento das plantas em micro e hipergravidade. (Um de seus experimentos foi feito
a bordo do último voo do ônibus espacial Endeavor, em maio de 2011.) Uma década atrás, Mancuso
persuadiu a fundação de um banco florentino a avalizar boa parte de suas pesquisas e ajudar no
lançamento da Sociedade de Neurobiologia Vegetal; seu laboratório também recebe subsídios da
União Europeia.
No começo da nossa conversa, pedi a Mancuso que definisse “inteligência”. Depois de passar tanto
tempo com os neurobiólogos de plantas, eu sentia que meu entendimento sobre essa palavra
andava fraquejando. Acontece que não estou sozinho: filósofos e psicólogos discutem sobre a
definição de inteligência há pelo menos um século, e qualquer consenso que possa ter existido no
passado vem se dissipando rapidamente. A maioria das definições de inteligência insere-se em uma
dentre duas categorias. A primeira é expressa de um modo que supõe um cérebro para haver
inteligência, referindo-se a qualidades mentais intrínsecas, como razão, discernimento e
pensamento abstrato. A segunda categoria, menos ligada ao cérebro e menos metafísica, salienta o
comportamento, definindo inteligência como a capacidade de reagir da maneira mais adequada aos

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 11/19
desafios apresentados pelo ambiente e pelas circunstâncias. Os estudiosos da neurobiologia vegetal
jogam neste segundo campo, o que não é de surpreender.
“Minha definição é bem simples”, diz Mancuso. “Inteligência é a capacidade de resolver
problemas.” Em vez de um cérebro, “o que procuro é um tipo de inteligência distribuída, como o
que vemos em uma revoada de pássaros”. Na revoada, cada pássaro precisa apenas seguir algumas
regras simples, como manter uma distância prescrita de seu vizinho, e no entanto o efeito coletivo
de numerosas aves executando um algoritmo simples é um comportamento complexo e
surpreendentemente bem coordenado. A hipótese de Mancuso é que algo semelhante acontece com
as plantas, cujos milhares de extremidades de raízes teriam um papel análogo ao dos pássaros
individuais: coligir e avaliar dados do ambiente e responder de modos localizados, mas
coordenados, que beneficiam o organismo como um todo.
“Talvez os neurônios sejam superestimados”, diz Mancuso. “Na realidade, elesnão passam de
células excitáveis.” As plantas possuem suas próprias células excitáveis, muitas delas em uma
região contígua à extremidade da raiz. Nessas áreas, Mancuso e seu colaborador frequente,
František Baluška, detectaram níveis incomumente elevados de atividade elétrica e consumo de
oxigênio. Em uma série de artigos, eles trabalharam com a hipótese de que essa chamada “zona de
transição” pode ser o local do “cérebro na raiz” aventado por Darwin. A ideia permanece polêmica e
sem comprovação. “Não compreendemos o que acontece ali”, diz Lincoln Taiz, “mas não há indícios
de que seja um centro de comando.”
Como as plantas fazem o que fazem sem um cérebro – uma “mestria impensante”, nas palavras de
Anthony Trewavas – é uma questão que remete a outra: como o nosso cérebro faz o que faz.
Quando perguntei a Mancuso sobre a função e a localização da memória nas plantas, ele conjeturou
sobre o possível papel de canais de cálcio e outros mecanismos, mas depois ressalvou que ainda
paira o mistério em torno de onde e como nossas memórias são armazenadas: “Poderia ser o
mesmo tipo de mecanismo; quem sabe descobri-lo nas plantas nos ajude a descobri-lo nos
humanos.”
A hipótese de que o comportamento inteligente nas plantas seria uma propriedade emergente em
células que trocam sinais numa rede pode parecer forçada, mas o modo como a inteligência emerge
de uma rede de neurônios talvez não seja muito diferente. A maioria dos neurocientistas
concordaria que, embora o cérebro considerado em seu todo funcione como uma central de
comando para a maioria dos animais, dentro do cérebro não parece existir nenhum posto de
comando; o que encontramos é uma rede sem líder. A impressão que temos quando pensamos
sobre o que poderia governar uma planta – de que não há ninguém ali, nenhum mágico atrás das
cortinas acionando as alavancas – pode aplicar-se também a nosso cérebro.
No romance A Informação, de Martin Amis, publicado em 1995, encontramos um personagem que
almeja escrever “A história da humilhação crescente”, um tratado que narra o destronamento
gradual da humanidade de sua posição como centro do universo, começando por Copérnico. “A
cada século, ficamos menores”, escreve Amis. Em seguida veio Darwin, que nos rebaixou com a
notícia de que somos produto das mesmas leis naturais que criaram os animais. No século passado,
as antes nítidas linhas que separavam os humanos dos animais – nossos monopólios da linguagem,
raciocínio, fabricação de ferramentas, cultura e até autoconsciência – foram borradas, uma após
outra, à medida que a ciência reconhecia essas faculdades em outros animais.

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 12/19
Mancuso e seus colegas estão escrevendo o próximo capítulo da “História da humilhação
crescente”. Seu projeto acarretará a derrubada dos muros entre os reinos vegetal e animal, e avança
não só de experimento em experimento, mas também de palavra em palavra. A começar pelo arisco
termo “inteligência”. Particularmente quando inexiste uma definição dominante (e quando se
provou que medidas de inteligência, como o Q.I., sofrem de viés cultural), é possível definir
inteligência de um modo que ou reforça a fronteira entre animais e plantas (por exemplo, um modo
que implique o pensamento abstrato) ou a solapa. Os neurobiólogos das plantas escolheram definir
inteligência democraticamente, como uma capacidade para resolver problemas ou, mais
precisamente, para reagir de modo adaptativo às circunstâncias, inclusive aquelas não previstas no
genoma.
“Concordo que os humanos são especiais”, diz Mancuso. “Somos a primeira espécie capaz de
debater sobre o significado de inteligência. Mas é a quantidade, e não a qualidade” de inteligência,
que nos distingue. Existimos em um continuum em que se encontram a acácia, o rabanete e as
bactérias. “A inteligência é uma propriedade da vida”, declara. Pergunto por que, na opinião dele,
as pessoas têm menos dificuldade para admitir a existência de inteligência em computadores do
que em plantas. (Fred Sack disse-me que tolera o termo “inteligência artificial”, mas não
“inteligência vegetal”, porque, no primeiro caso, a inteligência é modificada pela palavra “artificial”.
Ele não explica sua posição, apenas diz: “Estou com a maioria que acha isso meio esquisito.”)
Mancuso supõe que estamos dispostos a aceitar a inteligência artificial porque os computadores são
criações nossas, portanto refletem de volta para nós sua inteligência. Além disso, ao contrário das
plantas, eles são nossos dependentes: “Se desaparecêssemos amanhã, as plantas ficariam bem, mas
se as plantas desaparecessem…” Nossa dependência das plantas engendra o desprezo por elas,
acredita Mancuso. Em sua visão meio virada pelo avesso, as plantas “nos lembram da nossa
fraqueza”.
“Memória” pode ser um termo ainda mais espinhoso para aplicarmos indistintamente aos reinos da
natureza, talvez por conhecermos muito pouco sobre seu funcionamento. Tendemos a conceber as
memórias como algo imaterial, mas em cérebros animais algumas formas de memória envolvem a
formação de novas conexões em uma rede de neurônios. No entanto, existem modos de armazenar
informações biologicamente que não requerem neurônios. Células imunes “lembram” sua
experiência com agentes causadores de doenças, e recorrem a essa memória em encontros
subsequentes. Em plantas, sabe-se há tempos que experiências como o estresse podem alterar o
invólucro molecular ao redor dos cromossomos; isso, por sua vez, determina quais genes serão
silenciados e quais se expressarão. Esse chamado efeito “epigenético” pode persistir e às vezes ser
transmitido aos descendentes. Mais recentemente, cientistas descobriram que acontecimentos
como trauma ou fome produzem mudanças epigenéticas em cérebros animais (favorecendo a
codificação para altos níveis de cortisol, por exemplo), mudanças essas que são de longa duração e
também podem ser transmitidas a descendentes – uma forma de memória bem semelhante à
observada em plantas.
Enquanto conversava com Mancuso, não me saíam da cabeça palavras como “vontade”, “escolha” e
“intenção”, que ele parecia atribuir sem cerimônia às plantas, quase como se elas agissem
conscientemente. A certa altura, ele me falou sobre uma trepadeira parasita, a Cuscuta europaea,
que se enrosca no caule de outra planta e suga dela o alimento. A cuscuta “escolhe” entre várias
hospedeiras possíveis, avaliando, pelo odor, qual delas possui o maior potencial nutritivo. Depois

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 13/19
de selecionar o alvo, a trepadeira faz uma espécie de cálculo de custo–benefício antes de decidir
exatamente quantas gavinhas deve investir – quanto mais nutrientes houver na vítima, mais
gavinhas a trepadeira faz. Perguntei a Mancuso se sua atribuição de intenção às plantas era literal
ou metafórica.
“Vou mostrar-lhe uma coisa”, ele falou. “E aí você me diz se as plantas têm ou não intenções.” Girou
o monitor do computador e abriu um vídeo.
A fotografia em time-lapse talvez seja a melhor ferramenta para transpormos o abismo entre a
escala temporal das plantas e a nossa. Esse exemplo era o de uma leguminosa jovem, fotografada
no laboratório ao longo de dois dias, um quadro a cada dez minutos. Uma estaca de metal em um
carrinho está a quase 1 metro de distância. A planta “está procurando” algo para se enroscar. Toda
primavera, vejo esse mesmo processo em tempo real no meu jardim. Sempre supus que as
trepadeiras simplesmente cresciam para qualquer lado até que por fim topavam com alguma coisa
apropriada para se enroscar e subir. Mas o vídeo de Mancuso parecia mostrar que aquela
trepadeira “sabia” exatamente onde estava a estaca de metal muito antes de ter contato com ela.
Mancuso conjetura que a planta talvez empregue alguma forma de ecolocalização. Há indícios de
que as plantas produzam estalidos baixos quando suas células se alongam; é possível que sejam
capazes de sentir o reflexo dessas ondas sonoras que ricocheteiam na estaca metálica.
A trepadeira não desperdiça tempo nem energia “procurando” – ou seja, crescendo – em qualquer
outra parte; segue sempre na direção da estaca. Esforça-se (não há outro termo para isso) para
chegar lá: espicha-se, alonga-se, atira-se repetidamente como uma vara de pescar, estendendo-se
alguns centímetros mais a cada lançamento nas tentativas de enroscar sua extremidade curva na
estaca. Assim que acontece o contato, a planta parece relaxar; suas folhas crispadas começam a
adejar suavemente. Tudo isso pode não passar de uma ilusão da fotografia em time-lapse. Mas
quando assistimos a esse vídeo sentimo-nos, momentaneamente, como um dos extraterrestres da
história de ficção científica que influenciou Mancuso na adolescência; esse filme é uma janela para
uma dimensão temporal na qual esses seres antes inertes espantosamente ganham vida, parecem
ser indivíduos conscientes dotados de intenções.
Em outubro, baixei o vídeo da leguminosa em meu laptop e segui para Santa Cruz, para mostrá-lo a
Lincoln Taiz. Ele começou questionando seu valor como dado científico: “Talvez ele tenha dez
outros vídeos nos quais a trepadeira não fez isso. Não se pode pegar uma variação interessante e
generalizar com base nela.” Em outras palavras, esse comportamento da trepadeira seria o relato de
um fato isolado, e não um fenômeno. Taiz ressaltou também que já no primeiro quadro a trepadeira
estava inclinada na direção da estaca. Mancuso enviou-me então outro vídeo com dois espécimes da
leguminosa perfeitamente a prumo que mostravam comportamento muito semelhante. Desta vez,
Taiz ficou interessado. “Se ele encontra esse efeito consistentemente, seria fascinante”, disse – mas
não é, necessariamente, uma prova de que a planta tem intenção. “Se o fenômeno for real, seria
classificado como tropismo”, na mesma linha do mecanismo que faz as plantas inclinarem-se para a
luz. Neste caso, o estímulo permanece desconhecido, mas os tropismos “não requerem que
postulemos uma intencionalidade ou uma conceitualização ‘como a de um cérebro’”, Taiz explica.
“O ônus da prova para esta última interpretação claramente caberia a Stefano.”
Talvez a mais problemática e inquietante de todas as palavras quando falamos em plantas seja
“consciência”. Se definirmos consciência como uma percepção íntima de si mesmo vivenciando a

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 14/19
realidade – “o sentimento de si”, nas palavras do neurocientista António Damásio –, poderíamos
(provavelmente) concluir com segurança que as plantas não a possuem. Mas, se definirmos o termo
simplesmente como o estado de estar desperto e alerta para seu ambiente – “online”, como dizem
os neurocientistas –, então as plantas podem qualificar-se como seres conscientes, pelo menos
segundo Mancuso e Baluška. “A leguminosa sabe exatamente o que há no ambiente a sua volta”,
disse Mancuso. “Ignoramos como. Mas essa é uma das características da consciência: conhecer sua
posição no mundo. Uma pedra não conhece.”
Para corroborar sua hipótese de que as plantas são cônscias de seu ambiente, Mancuso e Baluška
ressaltam que é possível tornar as plantas inconscientes com os mesmos anestésicos usados em
animais para esse fim: drogas podem induzir em plantas um estado de não reação semelhante ao
sono. (Uma dioneia tirando um cochilo não notará um inseto que transponha seu limiar.) E mais:
quando plantas são danificadas ou sofrem estresse, produzem uma substância – etileno – que
produz efeitos semelhantes aos de um anestésico em animais. Quando Baluška falou-me em
Vancouver sobre esse fato espantoso, perguntei-lhe, timidamente, se ele estava aventando que as
plantas podiam sentir dor. Baluška, um careca sisudo de rosto redondo, arqueou uma sobrancelha e
me lançou um olhar que interpretei como significando que minha pergunta era impertinente ou
absurda. Mas, pelo visto, não era.
“Se as plantas tiverem consciência, então, sim, elas devem sentir dor”, ele respondeu. “Quem não
sente dor desconsidera o perigo e não sobrevive. A dor é adaptativa.” Devo ter demonstrado algum
espanto. “É uma ideia assustadora”, ele reconheceu, encolhendo os ombros. “Vivemos em um
mundo no qual temos de comer outros organismos.”
Despreparado para considerar as implicações éticas da inteligência das plantas, senti enrijecer
minha resistência a toda essa ideia. Descartes, para quem só o ser humano possuía autoconsciência,
não podia admitir a ideia de que outros animais eram capazes de sentir dor. Por isso, menosprezava
os gritos e urros dos bichos como meros reflexos, tão desprovidos de significado quanto os ruídos
fisiológicos. Poderia ser remotamente possível estarmos agora cometendo o mesmo erro com as
plantas? O perfume do jasmim ou do manjericão, ou o aroma de grama recém-aparada, que
achamos delicioso, seria (como gosta de dizer o ecologista Jack Schultz) o equivalente químico de
um grito? Ou será que, meramente por fazer uma pergunta como essa, escorregamos de volta às
turvas águas de A Vida Secreta das Plantas?
Lincoln Taiz torce o nariz para a ideia de dor nas plantas, e questiona: o que, na ausência de um
cérebro, produziria a sensação? Conclui sucintamente: No brain, no pain (sem cérebro, sem dor).
Mancuso é mais comedido. Nunca poderemos determinar com certeza se as plantas sentem dor ou
se sua percepção de um dano é suficientemente semelhante à de um animal para ser chamada pelo
mesmo nome. (Ele e Baluška têm o cuidado de escrever “percepção da dor específica das plantas”.)
“Não sabemos; por isso temos de nos calar.”
Para Mancuso, como as plantas são seres com sensibilidade e inteligência, somos obrigados a tratálas
com certo respeito. Isso significa proteger seus hábitats da destruição e evitar práticas como a
manipulação genética, a monocultura e o cultivo em forma de bonsai. Mas não nos impede de
comê-las. “As plantas evoluíram para ser comidas; é parte de sua estratégia evolutiva”, ele diz. E,
para respaldar sua afirmação, ele cita a estrutura modular e a ausência de órgãos insubstituíveis
nos vegetais.
A questão central que separa os proponentes da neurobiologia vegetal e seus críticos parece ser a

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 15/19
seguinte: faculdades como inteligência, percepção da dor, aprendizado e memória requerem a
existência de um cérebro, como argumentam os críticos, ou podem ser desvinculadasde suas
amarras neurobiológicas? Essa é uma questão filosófica além de científica, pois a resposta depende
de como definimos os termos. Os defensores da inteligência das plantas argumentam que as
definições tradicionais são antropocêntricas – uma réplica engenhosa às acusações de
antropomorfismo que frequentemente lhes fazem. Sua tentativa de ampliar essas definições é
facilitada porque os significados de tantos desses termos não são engessados. Ao mesmo tempo,
como originalmente essas palavras foram criadas para descrever atributos animais, não nos deveria
surpreender que não se encaixem bem às plantas. Parece provável que, se os pesquisadores da
neurobiologia vegetal estivessem dispostos a acrescentar o qualificativo “específico das plantas” aos
termos inteligência, aprendizado, memória e consciência (como Mancuso e Baluška admitem fazer
quando se referem à dor), então pelo menos parte dessa “controvérsia científica” poderia evaporar.
Na verdade, encontrei mais consenso do que esperava. Até Clifford Slayman, o biólogo de Yale que
assinou a carta de 2007 menosprezando a neurobiologia vegetal, admite que, mesmo não achando
que as plantas possuam inteligência, ele julga que elas, tanto quanto as abelhas e formigas, são
capazes de “comportamento inteligente”. Em uma troca de e-mails, Slayman fez questão de frisar
essa distinção: “Não sabemos o que constitui a inteligência; sabemos apenas o que podemos
observar e avaliar como comportamento inteligente.” Ele definiu “comportamento inteligente”
como “a capacidade de adaptar-se à mudança de circunstâncias”, e salientou que ela “deve sempre
ser medida em relação a um ambiente específico”. Os humanos podem ser ou não intrinsecamente
mais inteligentes do que os gatos, ele escreveu, mas quando um gato depara com um camundongo,
seu comportamento tende a ser demonstravelmente mais inteligente.
Slayman reconheceu ainda que “é perfeitamente possível que um comportamento inteligente se
desenvolva sem um sistema nervoso, sede, diretor ou cérebro – seja lá qual for o nome que dermos.
Em vez de ‘cérebro’, pense ‘rede’. Ao que parece, muitos organismos superiores são dotados de
redes internas de tal modo que mudanças locais”, por exemplo, a maneira como as raízes reagem a
um gradiente de água, “causam respostas muito localizadas que beneficiam o organismo inteiro”.
Dessa perspectiva, ele acrescentou, o ponto de vista de Mancuso e Trewavas é “bem condizente com
minha noção sobre as redes bioquímicas/biológicas”. Ele ressaltou que, embora seja compreensível
a parcialidade humana pelo modelo do “centro nervoso”, também possuímos um segundo sistema
nervoso, o autônomo, governador dos nossos processos digestivos, que “na maior parte do tempo
funciona sem instruções superiores”. Os cérebros são apenas um dos modos como a natureza
consegue levar à realização de trabalhos complexos, lidando inteligentemente com os desafios
apresentados pelo ambiente. Mas não são o único: “Sim, eu diria que o comportamento inteligente
é uma propriedade da vida.”
Definir certas palavras de modo a pôr plantas e animais sob o mesmo guarda-chuva semântico –
inteligência, intenção ou aprendizado – é uma escolha filosófica com consequências importantes
para o modo como nos vemos na natureza. Desde A Origem das Espécies compreendemos, ao
menos intelectualmente, as continuidades entre os reinos da vida: somos todos cortados do mesmo
tecido. Mas nosso cérebro grande, e talvez nossa experiência do próprio interior, permite-nos sentir
que devemos ser fundamentalmente diferentes, pairando acima da natureza e das demais espécies
como que suspensos por um “gancho no céu” metafísico, usando aqui por empréstimo a expressão
do filósofo americano Daniel Dennett. Os estudiosos da neurobiologia vegetal tencionam remover
nosso gancho no céu, completar a revolução que Darwin iniciou mas permanece, pelo menos

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 16/19
psicologicamente, incompleta.
“Aprendemos com Darwin que a capacidade precede a compreensão”, disse Dennett quando
telefonei para conversar sobre a neurobiologia vegetal. Sobre um alicerce das capacidades mais
simples – como o interruptor liga-desliga de um computador ou a sinalização elétrica e química de
uma célula – podem ser construídas capacidades cada vez mais superiores que acabem por resultar
em algo muito parecido com inteligência. “A ideia de que existe uma linha clara, com a
compreensão real e as mentes reais do lado de lá do abismo e os animais e plantas do outro, é um
mito arcaico.” A noção de que as capacidades superiores como inteligência, aprendizado e memória
“nada significam na ausência de cérebro” é, para Dennett, “cerebrocêntrica”.
Todas as espécies se deparam com os mesmos desafios existenciais – obter alimento, defender-se,
reproduzir-se –, porém sob circunstâncias imensamente variadas, por isso a evolução lhes
providenciou ferramentas de sobreviver imensamente variadas. O cérebro vem a calhar para
criaturas que se deslocam bastante, mas é uma desvantagem para as que estão enraizadas num
lugar. A autoconsciência, por mais impressionante que nos pareça, é apenas outra ferramenta para
viver, boa para algumas tarefas, inútil para outras. Não surpreende que os humanos atribuam tanto
valor a essa adaptação específica, uma vez que ela veio a ser um brilhante resultado da nossa longa
jornada evolutiva, juntamente com o epifenômeno da autoconsciência que chamamos de “livrearbítrio”.
Além de estudar a fisiologia das plantas, Lincoln Taiz escreve sobre a história da ciência. “A
começar pelo avô de Darwin, Erasmus”, ele me disse, “os estudos botânicos têm mostrado um alto
grau de teleologia” no hábito de atribuir propósito ou intenção ao comportamento das plantas.
Perguntei a Taiz sobre a questão da “escolha”, ou tomada de decisão, nas plantas em situações
como a de precisar decidir entre dois sinais conflitantes do ambiente, por exemplo, água e
gravidade.
“A planta decide da mesma maneira que nós escolhemos numa lanchonete entre um hambúrguer e
um X-tudo?”, rebateu Taiz. “Não, a resposta da planta baseia-se totalmente no fluxo final de auxina
e outros sinais químicos. O verbo ‘decidir’ é inadequado no contexto da botânica. Ele implica o
livre-arbítrio. Naturalmente, também é possível argumentar que o ser humano não tem livrearbítrio,
mas essa é outra questão.”
Perguntei a Mancuso se ele achava que uma planta decide do mesmo modo que nós escolhemos
numa lanchonete entre um hambúrguer e um X-tudo.
“Sim, do mesmo modo”, Mancuso respondeu, ressalvando, porém, que não fazia a menor ideia do
que fosse um X-tudo. “É só trocar o X-tudo (seja lá o que for isso) por nitrato de amônia e o
hambúrguer por fosfato, e as raízes tomarão a decisão.” Mas a raiz não responde simplesmente ao
fluxo final de certas substâncias? “Desculpe, mas nosso cérebro toma decisões exatamente do
mesmo modo.”
"P

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 17/19
or que uma planta se interessaria por Mozart?”, replicava o falecido etnobotânico Tim Plowman
quando lhe perguntavam sobre os prodígios catalogados em A Vida Secreta das Plantas. “E,
mesmo que se interessasse, por que deveríamos nos impressionar com isso? Elas comem luz – isso
não basta?”
Um modo de exaltar as plantas é demonstrar suas capacidades semelhantes às dos animais. Mas
outro é concentrar-se em todas as coisas que as plantas são capazes de fazer e nós não. Alguns
estudiosos da inteligência das plantas questionam se a ênfase “animalcêntrica”, juntamente com a
obsessão pelo termo “neurobiologia”, não seria um erro e possivelmente um insulto às plantas.
“Não tenho interesse em ver as plantas como animaizinhos”, escreveu um cientista durante a
pendenga pelo nome a ser dado à associação. “As plantas são únicas”, escreveu outro. “Não há razão
para […] chamá-las de semianimais.”
Quando jantei com Mancuso durante a conferência em Vancouver, ele me pareceu um botânico
recuperando-se de um acesso de “inveja do cérebro” – a motivação dos neurologistas das plantas,
segundo Taiz. Se pudéssemos começar a entender as plantas pelo que elas são, ele disse, “seria
como fazer contato com uma cultura alienígena. Mas poderíamos ter todas as vantagens desse
contato sem nenhum dos problemas, pois ela não quer nos destruir!”. Como as plantas fazem todas
as coisas impressionantes que fazem sem cérebro? Sem locomoção? Destacando a singularidade
das plantas em vez de sua semelhança, argumentou Mancuso, teremos a chance de aprender coisas
valiosas e desenvolver novas tecnologias importantes. Esse seria o tema de sua apresentação na
conferência que faria na manhã seguinte sobre o que ele chama de “bioinspiração”. Como o
exemplo da inteligência das plantas poderia nos ajudar a projetar melhores computadores, robôs ou
redes?
Mancuso estava prestes a começar um trabalho em colaboração com um renomado cientista da
computação: o projeto de um computador baseado nas plantas, tendo como modelo a computação
distribuída realizada por milhares de raízes que processam um número imenso de variáveis
ambientais. Seu colaborador, Andrew Adamatzky, diretor do Centro Internacional de Computação
Não Convencional, da Universidade do Oeste da Inglaterra, é um grande estudioso dos
mixomicetos e da utilização das capacidades desses organismos para orientar-se em labirintos e
executar tarefas computacionais. (Os mixomicetos estudados por Adamatzky, um tipo de ameba,
crescem simultaneamente na direção de várias fontes de alimento, em geral flocos de aveia, e no
processo computam e se lembram da distância mais curta entre dois flocos; Adamatzky usou esses
organismos como modelo para redes de transporte.) Em um e-mail, Adamatzky disse que, como
fundamento para a computação biológica, as plantas têm vantagens e desvantagens em comparação
com os mixomicetos. “As plantas são mais robustas”, ele escreveu, “e podem manter sua forma por
muito tempo”, embora seu crescimento seja mais lento e elas não tenham a flexibilidade dos
mixomicetos. Mas como as plantas já são “computadores elétricos analógicos” que trocam inputs e
outputs elétricos, ele espera que, junto com Mancuso, consigam usá-las em tarefas computacionais.
Mancuso também estava trabalhando com Barbara Mazzolai, uma bióloga que enveredou para a
engenharia no Instituto Italiano de Tecnologia, em Gênova, para criar o que ele chamou de
“plantoide”: um robô projetado segundo princípios vegetais. “Analisando a história dos robôs,
vemos que eles sempre foram projetados com base em animais – são humanoides ou insetoides.
Quando queremos algo que nade, tomamos por molde um peixe. Mas e se, em vez disso,
imitássemos as plantas? O que isso nos permitiria fazer? Explorarmos o solo!” Financiados pelo
Programa Tecnologias Futuras e Emergentes da União Europeia, sua equipe está criando uma “raiz
robótica” que, usando plásticos capazes de alongar-se e depois endurecer, será capaz de penetrar

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 18/19
lentamente no solo, sentir as condições e, com base nelas, alterar sua trajetória. “Se quisermos
explorar outros planetas, o melhor será enviar plantoides.”
A parte mais instigante da apresentação de Mancuso sobre a bioinspiração foi sua discussão sobre
redes vegetais subterrâneas. Citando as pesquisas de Suzanne Simard, ecologista florestal da
Universidade da Columbia Britânica, e seus colegas, Mancuso mostrou um slide que retratava como
as plantas de uma floresta organizam-se em vastas redes, usando a rede subterrânea de fungos
micorrízicos que conecta suas raízes para trocar informações e até bens. Essa “wood-wide web”
(“rede florestal”), como a designaram no título de um artigo, permite que numerosas árvores em
uma floresta transmitam avisos sobre ataques de insetos e também que enviem carbono, nitrogênio
e água a árvores necessitadas.
Quando falei por telefone com Suzanne Simard, a cientista descreveu como ela e seus colegas
rastrearam o fluxo de nutrientes e sinais químicos por meio dessa rede subterrânea invisível. Eles
injetaram abetos com isótopos de carbono radioativo e então acompanharam a disseminação dos
isótopos pela comunidade florestal usando vários tipos de sensor, entre eles um contador Geiger.
Em poucos dias, provisões de carbono radioativo foram rastreados de espécime a espécime. Cada
árvore em um lote de 30 metros quadrados estava ligada à rede; as mais antigas funcionavam como
eixos, algumas com até 47 conexões. O diagrama da rede florestal lembrava um mapa de rotas
aéreas.
O padrão do tráfego de nutrientes mostrou como “árvores mães” usavam a rede para nutrir brotos à
sombra, entre eles seus descendentes – que as árvores aparentemente reconhecem como parentes
–, até que atinjam altura suficiente para alcançar a luz. E, em um assombroso exemplo de
cooperação interespécies, Suzanne descobriu que abetos usaram a rede fúngica para trocar
nutrientes com bétulas no decorrer da estação. A espécie perene sustentava a decídua quando tinha
açúcares de sobra, e cobrava a dívida mais para o fim da estação. Para a comunidade florestal, o
valor dessa economia cooperativa subterrânea parece ser uma saúde geral melhor, mais
fotossíntese total e maior resiliência na presença de perturbações.
Em sua apresentação, Mancuso justapôs um slide que mostrava os nós e ligações dessas redes
florestais subterrâneas a um diagrama da internet e afirmou que, em alguns aspectos, a rede
florestal é superior. “Plantas são capazes de criar redes de unidades que mantêm, operam e
reparam a si próprias, ajustando tudo isso na escala necessária”, ele disse. “Plantas.”
Ouvindo Mancuso decantar as maravilhas que acontecem sob nossos pés, ocorreu-me que as
plantas têm mesmo uma vida secreta, ainda mais estranha e fascinante que a descrita por
Tompkins e Bird. Quando a maioria de nós pensa nas plantas, se é que pensamos nelas, achamos
que são velhas – remanescentes de um passado evolutivo mais simples, pré-humano. Mas para
Mancuso as plantas detêm a chave para um futuro que será organizado em torno de sistemas e
tecnologias em rede, descentralizados, modulares, reiterados, redundantes – e verdes, capazes de
nutrir-se de luz. “As plantas são o grande símbolo da modernidade.” Ou deveriam ser: não terem
cérebro revelou-se a sua força, e talvez a mais valiosa inspiração que podem nos dar.
No jantar em Vancouver, Mancuso comentou: “Depois que você me visitou em Florença, encontrei
uma frase de Karl Marx e fiquei obcecado por ela: ‘Tudo que é sólido desmancha no ar.’ Sempre que
construímos alguma coisa, nós nos inspiramos na arquitetura do nosso corpo. Por isso, a obra tem

30/9/2014 A planta inteligente | piauí_92 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente 19/19
uma estrutura sólida e um centro, mas é inerentemente frágil. Esse é o significado da frase ‘Tudo
que é sólido desmancha no ar’. Portanto, eis a questão: Seremos agora capazes de imaginar algo



totalmente diferente, algo inspirado nas plantas?”

Arnaldo Jabor - O brasileiro merece!


-
 Brasileiro é um povo solidário. Mentira. Brasileiro é babaca. 
Eleger para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari, só porque tem uma história de vida sofrida;
 
Pagar 40% de sua renda em tributos e ainda dar esmola para pobre na rua ao invés de cobrar do governo uma solução para pobreza;
 
Aceitar que ONG's de direitos humanos fiquem dando pitaco na forma como tratamos nossa criminalidade.
Não protestar cada vez que o governo compra colchões para presidiários que queimaram os deles de propósito, não é coisa de gente solidária.
É coisa de gente otária.
 
-
 Brasileiro é um povo alegre. Mentira. Brasileiro é bobalhão.

Fazer piadinha com as imundices que acompanhamos todo dia é o mesmo que tomar bofetada na cara e dar risada.
 
Depois de um massacre que durou quatro dias em São Paulo, ouvir o José Simão fazer piadinha a respeito e achar graça, é o mesmo que contar piada no enterro do pai.
Brasileiro tem um sério problema.
Quando surge um escândalo, ao invés de protestar e tomar providências como cidadão, ri feito bobo.

-
 Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira.

Brasileiro é vagabundo por excelência.
O brasileiro tenta se enganar, fingindo que os políticos que ocupam cargos públicos no país, surgiram de Marte e pousaram em seus cargos, quando na verdade, são oriundos do povo.
 
O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado ao ver um deputado receber 20 mil por mês, para trabalhar 3 dias e coçar o saco o resto da semana, também sente inveja e sabe lá no fundo que se estivesse no lugar dele faria o mesmo.
 
Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de 90 reais mensais para não fazer nada e não aproveita isso para alavancar sua vida (realidade da brutal maioria dos beneficiários da bolsa família) não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo.
 
-
 Brasileiro é um povo honesto. Mentira. 

Já foi; hoje é uma qualidade em baixa.
Se você oferecer 50 Euros a um policial europeu para ele não te autuar, provavelmente irá preso.
Não por medo de ser pego, mas porque ele sabe ser errado aceitar propinas.
 
O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado com o mensalão, pensa intimamente o que faria se arrumasse uma boquinha dessas, quando na realidade isso sequer deveria passar por sua cabeça. 


-
 90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira. 

Já foi.
Historicamente, as favelas se iniciaram nos morros cariocas quando os negros e mulatos retornando da
Guerra do Paraguai ali se instalaram.
Naquela época quem morava lá era gente honesta, que não tinha alternativa e não concordava com o crime.
Hoje a realidade é diferente.
Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como 'aviãozinho' do tráfico para ganhar uma grana legal.
Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora, porque podem matar 2 ou 3 mas não milhares de pessoas.
Além disso, cooperariam com a polícia na identificação de criminosos, inibindo-os de montar suas bases de operação nas favelas.


-
 O Brasil é um pais democrático. Mentira. 

Num país democrático a vontade da maioria é Lei.
A maioria do povo acha que bandido bom é bandido morto, mas sucumbe a uma minoria barulhenta que se apressa em dizer que um bandido que foi morto numa troca de tiros, foi executado friamente.
 
Num país onde todos têm direitos, mas ninguém tem obrigações, não existe democracia e sim, anarquia.
Num país em que a maioria sucumbe bovinamente ante uma minoria barulhenta, não existe democracia, mas um simulacro hipócrita.
Se tirarmos o pano do politicamente correto, veremos que vivemos numa sociedade feudal: um rei que detém o poder central (presidente e suas MPs), seguido de duques, condes, arquiduques e senhores feudais (ministros, senadores, deputados, prefeitos, vereadores).
Todos sustentados pelo povo que paga tributos que têm como único fim, o pagamento dos privilégios do poder. E ainda somos obrigados a votar.
 
Democracia isso? Pense!

O famoso jeitinho brasileiro.
Em minha opinião
, um dos maiores responsáveis pelo caos que se tornou a política brasileira.
Brasileiro se acha malandro, muito esperto.
Faz um 'gato' puxando a TV a cabo do vizinho e acha que está botando pra quebrar.
 
No outro dia o caixa da padaria erra no troco e devolve 6 reais a mais, caramba, silenciosamente ele sai de lá com a felicidade de ter ganhado na loto... malandrões, esquecem que pagam a maior taxa de juros do planeta e o retorno é zero. Zero saúde, zero emprego, zero educação, mas e daí?
Afinal somos penta campeões do mundo né?
Grande coisa...

O Brasil é o país do futuro. Caramba, meu avô dizia isso em 1950. Muitas vezes cheguei a imaginar em como seria a indignação e revolta dos meus avôs se ainda estivessem vivos.
Dessa vergonha eles se safaram...
Brasil, o país do futuro!?
Hoje o futuro chegou e tivemos uma das piores taxas de crescimento do mundo.

Deus é brasileiro.
Puxa, essa eu não vou nem comentar...

O que me deixa mais triste e inconformado é ver todos os dias nos jornais a manchete da vitória do governo mais sujo já visto em toda a história brasileira.
 
Para finalizar tiro minha conclusão:


O brasileiro merece! Como diz o ditado popular, é igual mulher de malandro, gosta de apanhar. Se você não é como o exemplo de brasileiro citado nesse e-mail, meus sentimentos amigo, continue fazendo sua parte, e que um dia pessoas de bem assumam o controle do país novamente.
Aí sim, teremos todas as chances de ser a maior potência do planeta.
Afinal aqui não tem terremoto, tsunami nem furacão.
Temos petróleo, álcool, bio-diesel, e sem dúvida nenhuma o mais importante: Água doce!

Só falta boa vontade, será que é tão difícil assim?


Arnaldo Jabor

O lado oculto de Fernando Pessoa



O  presente trabalho objetiva estudar o que se poderia denominar de o lado oculto de Fernando Pessoa, que não deve ser esquecido ou desprezado se se desejar apreciar em profundidade o pensamento que seu espírito faminto devassou. Desde o início de sua vida intelectual, inclinou-se Pessoa a especular sobre os segredos e os enigmas do além, vasculhando do Espiritismo à Teosofia, procurando desvendar os mistérios insondáveis do ocultismo e da KaBaLa, insondáveis e de difícil acesso para um não-iniciado convicto e declarado(?!), como ele sempre fez questão de anunciar. Terá sido mesmo assim?



Em tudo isso, sua meta não foi outra senão, nos meandros das doutrinas esotéricas, encontrar a mensagem sublime do Deus do seu Coração e a explicação para a Vida — e para a sua vida — como ser vivente deste Plano integrado na sociedade. Apesar de não-iniciado, acabou por (re)conhecer a Iniciação. E, com ela, o sofrimento e a alegria — sofrimento pela descoberta da própria ignorância; alegria pelo novo saber adquirido ou recordado — que o processo iniciático oferece ao buscador.


O GRANDE DITADOR - Charles Spencer Chaplin - Carlitos

(O ÚLTIMO DISCURSO)

* 16 abril 1889, East Lane, Walworth, Londres - Inglaterra

† 25 dezembro 1977, Corsier-sur-Vevey - Suíça



A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la. Mas quem consegue, descobre tudo.



Não faças do amanhã o sinônimo de nunca, nem o ontem te seja o mesmo que nunca mais. Teus passos ficaram. Olha para trás... mas, vai em frente; pois, há muitos que precisam que chegues para poderem seguir-te.



Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela.
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.



Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.



O homem não morre quando deixa de viver,
mas sim quando deixa de amar.


VERSOS DE OURO - PITÁGORAS


1. Honra, em primeiro lugar, os Deuses Imortais, como manda a Lei.

2. A seguir, reverencia o juramento que fizeste.

3. Depois, os heróis ilustres, cheios de bondade e de luz.

4. Homenageia, então, os espíritos terrestres e manifesta por eles o devido respeito.

5. Honra, em seguida, a teus pais e a todos os membros da tua família.

6. Entre os outros, escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso.

7. Aproveita seus discursos suaves e aprende com os atos dele que são úteis e virtuosos.

8. Mas não afasta teu amigo por um pequeno erro.

9. Porque o poder é limitado pela necessidade.

O CEGO, O SURDO, O MUDO E O COXO

Era dia de eleição em MARACUTSIL! A fuzarca era geral! Pela quarta vez consecutiva eu iria votar para escolher o próximo Presidente da República do meu País. Estava muito feliz em poder cumprir meu dever de cidadão, pois acredito no pensamento de Thomas Paine (1737-1809). Cada indivíduo de uma sociedade é inequivocamente um cidadão, e, como tal, é membro inalienável da soberania nacional. Assim entendido, não pode haver nenhum tipo de sujeição pessoal que não seja, exclusivamente, às leis vigentes. E, como membro do Estado Maracutsileiro e estando no pleno gozo de meus direitos constitucionais, estava prestes a, mais uma vez, participar ativamente da vida política maracutsilense, em nível nacional, conferindo (por empréstimo) meu voto ao candidato que julguei estar mais capacitado para exercer a Suprema Magistratura da Nação. Caminhando pela rua, coalhada de faixas e de santinhos, encontrei um simpático deficiente físico. O coxo aproximou-se de mim e, sem qualquer delonga, perguntou em quem eu iria votar.

— O voto é secreto, companheiro. Respondi com afabilidade.

32 Ponderação sobre a tatuagem - Confira se vale a pena fazer

A moda de cravar marcas no soma remonta$ Antiguidade, na História Humana.
2. Viveram tatuados: Churchill, George V, Marat , Roosevelt, Stalin, Tito, Truman.
3. Vivem tatuados: Gianni Agnelli, Sean Connery, George Schultz e Frank Sinatra.
4. A tatuagem é mancha cutânea, permanente e indelével, deliberada ou acidental.
5. A tattoo consiste na introdução de substâncias corantes inabsorvíveis na derme.
6. Antes era prática de ritos macabros, cultos religiosos e cerimônias de casamento.
7. Hoje, 1994, é comportamento adotado por marinheiros, roqueiros e prisioneiros.
8. E é marca pessoal empregada por desajustados sociais e grupúsculos marginais.
9. As tatuagens tribais tentam estabelecer similitudes ou diferenças entre grupos.
10. Destacam-se entre as tribos de tatuados: motociclistas, halterofilistas e surfistas.
11. Não raro, toma-se um símbolo de status entre jovens imaturos de ambos os sexos.
12. Já foi usada em prisioneiros de campos de concentração para impedir-lhes a fuga.
13. Por isso, assumiu um caráter hediondo na II Guerra Mundial (1939 -1945).
14. Há tatuagens com desenhos extravagantes: suásticas, caveiras, dragões ou cobras.
15. As manchas e figuras das jovens são mais delicadas: flores, borboletas e colibris.
16. Riscos: contaminação por doenças transmissíveis (sangue), Aids, hepatite, sífilis.
17. As sessões de tortura com agulhas predispõem às vezes o surgimento de alergias.
18. A antissepsia inadequada, durante a tatuagem, acarreta infecções e abcessos.
19. A defesa dos adeptos fiéis da tatuagem está só no ditado: gosto não se discute.
20. As tatuagens são consideradas estigmas de marginalidade pelas pessoas radicais.
21. À maioria das conscins são esteticamente condenáveis ou de gosto duvidoso.
22. Tais desenhos cromáticos podem ser focos e causas de discriminação social.
23. Chegam, por isso, a gerar desconfiança e restrição na escolha de empregados.
24. Muitos tatuados demonstram instabilidade emocional ou tendências narcisistas.
25. Se as tatuagens geram muitas ilusões, geram muito mais desilusões nos tatuados.
26. Alto percentual de casos traz amargos arrependimentos e ficam mal-resolvidos.
27. Há um líquido próprio, cor da pele, que esconde a tatuagem temporariamente.
28. Ainda hoje, a remoção da tatuagem é mera troca de uma lesão por outra lesão.
29. Técnica mais usada: microdermabrasão com sais de alumínio e laser de argônio.
30. A plástica com enxerto de tecido propicia o resultado mais satisfatório de todos.
31. A decisão de tatuar o soma sob o impulso do momento traz arrependimento.
32.transfers (adesivos, decalcomania) para tatuagem efêmera de fácil remoção.