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Atividades para formados em Letras

O curso de Letras costuma ser colocado em plano secundário no momento da escolha profissional. O desprestígio social, os baixos salários e as frustrações dos professores, hoje bem conhecidos por todos, afastam pessoas que preferem deixar de lado aptidões potenciais e investir em carreiras mais valorizadas em termos sociais e financeiros.

A boa notícia para quem gosta de estudar língua portuguesa, idiomas estrangeiros e suas respectivas literaturas e culturas é que o mercado de trabalho para os egressos de Letras possui hoje uma diversidade de atuação impensável há alguns anos. Com a crescente valorização da comunicação nas sociedades informativas, esses profissionais estão em alta e tendem a ser valorizados no mercado de trabalho. Pode-se pensar nessa atuação profissional em espaços laborais distintos.

DiagnósticosNas empresas a procura pelo profissional de Letras é proporcional à consciência que as organizações adquirem sobre a importância da comunicação em seus negócios. Das peças publicitárias às cartas comerciais, da redação de e-mails à de memorandos, todos os desvios linguísticos irão comprometer a imagem da empresa. Por esse motivo, os processos de seleção buscam mapear a capacidade comunicativa dos candidatos, tanto na produção escrita quanto na oral. 

Nesse contexto, o profissional com conhecimento linguístico bem sedimentado atua para diagnosticar problemas em situações concretas de comunicação. Não se trata simplesmente de eliminar erros gramaticais ou esclarecer o sentido de trechos mal formulados. Seu papel é o de mediador de processos comunicativos, capaz de perceber diferentes sentidos e nuances ideológicos e intervir de forma fundamentada, com base em teorias linguísticas. Essas intervenções nas práticas comunicativas, orais e escritas, aprimoram todo o trajeto comunicativo das empresas com vantagens para todos: quantos relatórios incompreensíveis produzem os diversos setores organizacionais? Quantas reuniões resumem-se a mera perda de tempo devido à falta de objetividade dos envolvidos?

Editorial Nas editoras, a atuação é ainda mais ampla, pois o profissional de Letras é útil em todas as etapas dos processos editoriais: seleção e edição de textos, redação e preparação de originais. Nesses casos, os materiais envolvem todo tipo de obras: literárias, científicas, com ênfase para a produção de material didático e planejamento de coleções. As traduções também oferecem campo de trabalho fértil no cenário globalizado da atualidade.

Em relação a textos escritos, é preciso considerar a produção de textos digitalizados para as novas tecnologias: CD-ROMs, tablets, e-readers, livros eletrônicos estão apenas começando a frequentar o mercado brasileiro. Esses acervos digitalizados requerem profissionais aptos a lidar com essa tecnologia, quer no aspecto de produção, quer no de revisão.

PotencialAlém do emprego fixo ou como freelancer, os trabalhos de tradução e revisão também podem ser realizados por autônomos, para particulares. Trabalhos acadêmicos, sobretudo dissertações e teses, requerem redação cuidadosa. No mesmo contexto, várias instituições estão organizando revistas acadêmicas, cuja versão final deve ser impecável. Amplia-se ainda mais a contratação de especialistas para a revisão final dos artigos.

Nas escolas, a licenciatura de Letras permite a atuação como professor no ensino fundamental e médio. Muitos tenderão a fugir dessa opção, afugentados pelos baixos salários da categoria. Resta lembrar que, ao lado da realidade das escolas públicas, colégios privados considerados de excelência pagam muito bem. Exigem bastante, do conhecimento à postura, mas pagam bem e oferecem estabilidade e plano de carreira estimulante. Para aqueles que desejam atuar no ensino superior, é imprescindível prosseguir os estudos em pós-graduação lato sensu (cursos de no mínimo 360 horas) e stricto sensu (mestrado e doutorado). A docência é um mercado consolidado e em crescimento, como demonstram as relações entre educação e desenvolvimento econômico. Vale lembrar que ela envolve também a atividade de pesquisa, para que o professor se mantenha atualizado.

Além das aulas de língua materna ou estrangeira e respectivas literaturas, o mercado de português como língua estrangeira também se encontra em franca expansão. Nesse caso, o interessado pode ter como foco as escolas bilíngues ou as escolas de idioma. Além disso, é possível fazer carreira internacional nessa área, pois há cursos de língua portuguesa em várias instituições de ensino superior no exterior. Essas vagas são disponibilizadas no Programa de Leitorado da Capes, em parceria com o Ministério das Relações Exteriores.

CenáriosOutros cenários também evidenciam a possibilidade de atuação do profissional de Letras: roteirista (por exemplo, a "transposição" crescente de obras literárias para o cinema, a televisão e os meios virtuais), resenhista, ensaísta, assessor cultural, crítico literário, intérprete, secretário bilíngue, redator de manuais técnicos, de sinopses de livros e filmes, de textos para a internet. Considere-se ainda o potencial da indústria audiovisual no Brasil, que contrata de profissionais de legendagem a especialistas em leitura labial.

Assim, o quadro geral de atuação para um profissional bem preparado em Letras é abrangente e incentivador. O problema é que muitos dos 2.055 cursos de Letras bacharelado ou licenciatura cadastrados no MEC, presenciais ou a distância, não promovem a formação para as especificidades deste século, por várias razões.

Em primeiro lugar, uma breve visita evidencia a falência material das instituições. A carência começa nas bibliotecas, com acervos insuficientes e desatualizados. Nas salas, não há lousas digitais, laboratórios de línguas/multimídia ou salas ambiente para práticas de ensino. 

O aluno, portanto, não tem contato formal com suportes digitais, apesar de as Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Letras, de 2001, explicitarem que o profissional deve ser capaz "de fazer uso de novas tecnologias". Desperdiça-se, assim, amplo material disponível na internet para as aulas de língua materna ou estrangeira, e o aluno não se habitua a fazer uso crítico das tecnologias.

DefasagemEm segundo lugar, a análise dos processos de avaliação de cursos de Letras mostra que os projetos pedagógicos mantêm currículos tradicionais, muitas vezes com bibliografias defasadas, na contramão das pesquisas acadêmicas e do que a modernidade requer na formação dos alunos. 

Como exemplo basta citar a quase ausência de ensino sobre Libras (Língua Brasileira de Sinais), apesar de sua integração nos Parâmetros Curriculares Nacionais estar prevista em lei desde 2002. Além de ignorar a educação inclusiva, muitos cursos ainda desconsideram a formação de professor de língua estrangeira e insistem na transmissão do saber já consagrado de forma acrítica, sem realizar uma construção conjunta do conhecimento que envolva os alunos e leve-os a produzir ações efetivas nas questões educacionais.

Primeiramente seria importante reconhecer que o perfil dos cursos de Letras está defasado em relação ao mercado, e que a maioria dos egressos não domina nem as tecnologias tampouco o segundo idioma estudado. Admitir isso seria um importante passo para promover a mudança.

ReconhecimentoFeito isso, a saída seria dar novo tratamento às disciplinas, flexibilizar a grade curricular e adequar o projeto pedagógico às dinâmicas de mercado. Isso implica problematizar o conhecimento, evitando privilegiar os conteúdos teóricos com ênfase instrucional, ou seja: reconhecer o ensino/aprendizagem como atividade social e coletiva. Reconhecida a diversidade de contextos de atuação, é provável que os futuros profissionais se beneficiassem com a maior especificidade do curso. Após o estudo introdutório à língua, literatura e cultura no ciclo básico, o aluno escolheria entre mercado empresarial, editorial ou educacional, com ênfase à interdisciplinaridade e às particularidades de cada um desses ambientes.

São metas difíceis de alcançar, porque falta visão estratégica de diretores e coordenadores para a criação de cursos que atendam à nova realidade de mercado. Além disso, é preciso definir políticas linguísticas públicas, ainda incipientes. Enquanto isso não acontece, não preparamos os alunos para a diversidade profissional que os aguarda no futuro, mas sim para atuar no passado.

Maria Helena da Nóbrega é professora da FFLCH-USP