O Diário de Anne Frank - On line Parte 9

Quarta-feira, 29 de Março de 1944
Querida Kitty:
Ontem o ministro Bolkestein disse na emissora de Orange
que, depois da guerra, se havia de publicar uma série de
diários e de cartas desta época. Aqui começaram logo
a falar no meu diário. E se eu publicasse um romance
sobre o anexo?. Não te parece interessante? Mas, com
este título, toda a gente era capaz de imaginar que se
tratava de um romance policial.
Basta de brincadeira, deixa-me falar a sério. Não parecerá
inconcebível ao Mundo, depois da guerra-digamos
dez anos depois-, o que nós, os judeus, contarmos sobre
a nossa vida aqui, as nossas conversas e as nossas refeições?
Pois embora te tenha contado muita coisa, tu ainda
só ficaste a saber uma pequena parcela desta vida.
O medo das senhoras, quando há bombardeamentos
como os do Domingo passado, em que trezentos e cinquenta
aviões ingleses lançaram meio milhão de quilos
de dinamite sobre Ijmuiden e as casas estremeceram como
as folhas com o vento. E o terror das epidemias que grassam
no país! Disto ainda sabes pouco, e seria preciso que
eu escrevesse todo o dia se quisesse fazer um relatório
completo. A população forma bichas para comprar hortaliça
ou seja o que for. Os médicos não podem visitar
os seus doentes, porque lhes roubaram o automóvel ou
a bicicleta. Ouve-se falar de pequenos furtos e de roubos
em grande escala, e eu prgunto a cada passo o que foi
feito da honestidade dos holandeses, quase proverbial?
Crianças dos oito aos onze anos partem os vidros das habitações alheias e tiram tudo o que lhes
vem parar ás mãos.
Nimguém tem coragem de deixar ficar a sua casa abandonada
durante cinco minutos, pois, ao voltar, pode muito bem encontrá-la vazia. Todos os dias se lêem
nos jornais
anúncios em que se prometem gratificações pela entrega
de coisas roubadas, máquinas de escrever, tapetes persas,
relógios eléctricos, tecidos, etc., etc. Os relógios das ruas
são desmontados, e até se tiram os telefones das cabinas
sem deixar ficar um pedaço de fio sequer.
Evidentemente não pode haver bom ambiente entre a
população. O racionamento não chega. A invasão faz-se
esperar, os homens têm de ir para a Alemanha. As crianças
estão subalimentadas e doentes. Quase toda a gente usa
roupa e calçado de má qualidade. Umas solas "negras"
custam cinquenta florins. Mas os sapateiros raras vezes
aceitam freguesia ou então levam quatro meses a compor
os sapatos se estes, entretanto, não forem roubados.
Uma coisa boa: as sabotagens contra a ocupação
aumentam à medida que a alimentação piora e as condições
se tornam mais severas. Os funcionários da distribuição

de víveres e de outras repartições ajudam, em grande
parte, a população, mas também há traidores que levam
gente às prisões. Contudo, felizmente, são poucos os holandeses que estão do lado mau.
Tua Anne
Sexta-feira, 31 de Março de 1944
Querida Kitty:
Ainda está muito frio, mas a maioria das famíliasjá não
tem carvão. Coisa divertida, não te parece? Há um grande
e geral optimismo porque tudo vai às mil maravilhas na
frente russa. Não quero escrever muito sobre política mas
não posso deixar de informar-te de que os russos se encontram em frente do G. Q. G. alemão e
que se estão a
aproximar da Roménia pelo Pruth; estão perto de Odessa.
Espera-se um comunicado especial de Estaline numa das
noites mais próximas.
Moscovo atroa os ares com salvas. Não sei se eles
acham bonito imitar assim o barulho da guerra ou se não
conseguem expandir a sua alegria de outra maneira.
A Hungria está ocupada pelos alemães. Vive nesse
país um milhão de judeus que, decerto, hão-de sofrer as
consequências.
Aqui não aconteceu nada de especial. O sr. van Daan
faz hoje anos. Recebeu dois maços de tabaco, café para
uma chávena (foi a esposa que lho guardou desde há muito),
um ponche de limão do Kraler, sardinhas da Miep, e de
nós, água de Colónia, lilases e tulipas e ainda uma torta com
framboezas e groselhas quase a desfazer-se, por causa de
a farinha e a manteiga serem de péssima qualidade, mas
de sabor estupendo.
As más-línguas já não se preocupam tanto com o Peter
e comigo. Nós dois somos bons amigos, estamos muitas
vezes juntos e conversamos sobre os mais variados assuntos.
Embora falemos também de coisas delicadas, não preciso de guardar certas reservas como,
decerto, teria de fazer
com outros rapazes. Quando, por exemplo, um destes dias,
veio à baila o tema sangue, falámos também na menstruação.
O Peter acha que nós, as mulheres, somos resistentes.
Ah! Ah! Ah! E porquê?
A minha vida aqui melhorou muito. Deus não me
abandonou e não me há-de abandonar.
Tua Anne
Sábado, 1 de Abril de 1944
Querida Kitty:
Apesar de tudo, as coisas continuam a ser difíceis. Sabes
o que quero dizer? É que queria ser beijada, queria esse
beijo que tanto se faz esperar. Verá o Peter em mim mais
do que uma boa camarada? Não significo outra coisa para
ele? Tu bem sabes que sou forte, que sei suportar sòzinha
o meu fardo e que não me habituei a procurar auxílio.
Nunca me agarrei à mãe. Mas agora sinto desejo de encostar
a cabeça aos ombros do Peter e de ficar muito quietinha.
Não consigo esquecer-me do sonho em que sentia a
face do Peter contra a minha. Como isso era belo! E ele,
não terá o mesmo desejo? É tímido de mais para me confessar
o seu amor? Mas porque é que me quer sempre ao
seu lado? Porque é que não fala? Quero ser calma. Quero
ser forte. Com um pouco de paciência, tudo virá. Mas
-e isto é aborrecido-tenho quase a ideia de que ando
atrás dele, por ter de ir lá para cima. Não é ele que vem
ter comigo. Mas a culpa é da distribuição dos quartos e
oxalá o Peter compreenda bem isto. Oh! Ainda há muito
mais coisas que ele tem de compreender!
Tua Anne
Segunda-feira, 3 de Abril de 1944
Querida Kitty :
Contra o meu costume, vou falar-te hoje minuciosamente
da comida, pois é um problema que não só diz
respeito ao nosso anexo mas a toda a Holanda, à Europa,
e talvez ao Mundo inteiro.
Nos vinte e um meses que aqui vivemos, já passámos
por uma série de períodos alimentares. Vou explicar-te
o que isto quer dizer. Um "período alimentar é um período
em que se come sempre o mesmo prato de fundo e os
mesmos legumes. Durante algum tempo só tínhamos salada,
umas vezes com areia, outras vezes sem areia, umas vezes
misturada com as batatas, outras vezes com as batatas à
parte, assadas numa assadeira. Depois veio o tempo dos
espinafres, depois o da couve rábano, de cenouras, pepinos,
tomates, "choucroute", etc., etc., isto depende da estação
do ano. Não é nada agradável comer todos os dias choucroute
ao almoço e choucroute ao jantar, mas quando
se tem fome, come-se mesmo. Agora chegou o período mais
interessante: já não recebemos mais legumes frescos. Agora
o nosso "menú" da semana consiste em feijão vermelho ou
sopa de ervilhas secas, batatas com bolinhos de farinha,
puré de batata ou, quando Deus quer, alguns nabos ou
cenouras meio podres, e depois, de novo, feijão vermelho.
Comemos batatas a cada refeição, a começar pelo pequeno
almoço, por não haver pão suficiente. Para fazer sopas
utilizamos, além dos feijões vermelhos, também os brancos
ou batatas, ou então usamos sopas preparadas: "Sopa
Juliana", "sopa da Rainha" ou "sopa de feijão vermelho".
Já não há comida nenhuma sem feijão vermelho, nem o
próprio pão. à noite comemos as batatas com um molho
de fantasia e um pouco de salada de beterraba das nossas
conservas. Também quero falar-te dos bolinhos de farinha.
Fazemo-los de farinha do "governo" e com água e fermento.
Claro que ficam pegajosos e duros, pesam no
estômago como pedras. É isto.
O grande acontecimento da semana é uma fatia de
"foie-gras" e um pouco de compota para pôr no pão. Mas
estamos ainda vivos e as nossas refeições frugais, pòr vezes,
até nos sabem muito bem.
Tua Anne
Terça-feira, 4 de Abril de 1944
Querida Kitty:
Durante muito tempo eu já nem sabia porque é que
trabalhava. O fim da guerra está ainda tão longe, tão
irreal, tão fantástico! Se a guerra não acabar em Setembro,
não voltarei para a escola, pois não quero andar dois anos
atrasada.
Os dias têm sido para mim inteiramente cheios pelo
Peter. Os meus pensamentos, os meus sonhos, tudo tem
girado à volta do Peter, de tal forma que no sábado sentia-me
atordoada. Sentada ao lado dele, tive de fazer um
esforço enorme para não chorar e, no entanto, pus-me a
rir com a sra. van Daan ao fazermos um ponche de limão.
Excitei-me e parecia estar alegre mas, mal me encontrei
sòzinha, vi que havia de chorar. Em camisa de noite
ajoelhei-me no chão, rezei muito e depois chorei, a cabeça
sobre os braços, acocorada no chão frio. Por fim voltei a
mim, dominei as lágrimas e os soluços para que ninguém
me ouvisse. Depois animei-me a mim própria, dizendo
repetidas vezes: tem que ser, tem que ser, tem que ser...
Quase quebrada por aquela posição insólita encostei-me
à borda da cama até que, pouco antes das dez e
meia, consegui deitar-me. Acabou-se. Sim, agora tudo se
acabou. Tenho de trabalhar para não ficar ignorante,
para avançar mais tarde na vida, para vir a ser uma
jornalista! Sei que serei capaz de escrever bem, alguns
dos meus contos são bons, as minhas descrições do anexo
têm humor, há passagens eloquentes no meu diário, mas...
ainda não provei que tenho, de facto, talento. O sonho
de Eva é a minha melhor história, e acho estranho que
nem eu própria saiba explicar aonde fui buscar aquilo.
Uma parte de A vida de Candy também não está mal, mas
o conjunto não presta.
Sou eu mesma o meu crítico mais severo. Sei o que
está bem ou mal escrito. As pessoas que não escrevem não
imaginam quanto prazer isto pode dar. Antigamente tinha
pena de não saber desenhar. Mas agora sinto-me feliz por
saber, ao menos, escrever. E se não tiver talento suficiente
para escrever livros ou artigos de jornal, enfim, sempre
me restará escrever para meu próprio deleite.
Quero vir a ser alguém. Não me agrada a vida que
levam a mãe, a sra. van Daan e todas essas mulheres que
trabalham para, mais tarde, ninguém se lembrar delas.
Além de um marido e de filhos, preciso de mais alguma
coisa a que me possa dedicar! Quero continuar a viver
depois da minha morte. E por isso estou tão grata a Deus
que me deu a possibilidade de desenvolver o meu espírito
e de poder escrever para exprimir o que em mim vive.
Quando escrevo, sinto um alívio, a minha dor desaparece,
a coragem volta. Mas pergunto-me : escreverei
alguma vez coisa de importância? Virei a ser jornalista ou
escritora? Espero que sim, espero-o de todo o meu coração!
Ao escrever sei esclarecer tudo, os meus pensamentos, os
meus ideais, as minhas fantasias. Não tenho trabalhado
em A vida de Candy, mas sei como desenvolver a história
e só não consigo fazê-lo ràpidamente. Pode ser que nunca
acabe aquilo e que vá parar ao cesto de papel ou ao fogão.
Não é uma ideia agradável, mas penso: com catorze anos
e com tão pouca experiência, ainda não se pode, afinal,
escrever uma história filosófica.
Não quero perder a coragem. Tudo há-de sair bem,
pois estou decidida a escrever!
Tua Anne
Quinta-feira, 6 de Abril de 1944
Querida Kitty:
Perguntas-me o que é que mais me interessa e quais
são os meus mais queridos entretenimentos. Não te assustes;
é que não são poucas coisas.
Em primeiro lugar, gosto de escrever, mas isto não é
bem um entretenimento.
Em segundo, gosto da genealogia das casas reais. Já
encontrei, em jornais, livros e papéis, bastante material
sobre as famílias francesas, alemãs, espanholas, inglesas,
austríacas, russas, norueguesas e holandesas. Consegui bons
resultados; há bastante tempo que tiro apontamentos de
todas as biografias e livros de história que leio.
O meu terceiro entretenimento é a história, por isso
o pai já me comprou alguns livros sobre este assunto.
Oxalá não venha longe o dia em que possa fazer investigações
nas bibliotecas públicas.
Em quarto lugar, gosto da mitologia grega e romana, e
também sobre isso tenho vários livros.
Outros entretenimentos são a colecção de fotografias
de "estrelas" de cinema e da família, os livros, saber coisas
sobre escritores, poetas e pintores e sobre a história da
arte. Pode ser que ainda, um dia, a música venha a
juntar-se a tudo isto.
Tenho grande antipatia pela álgebra, a geometria e
toda a espécie de contas. Fora isto agrada-me qualquer
disciplina da escola, mas coloco a história acima de todas.
Tua Anne
Terça-feira, 11 de Abril de 1944
Querida Kitty:
Sinto como que marteladas na cabeça! Nem sei por
onde começar. Sexta-feira (Sexta-feira Santa) à tarde, e
no sábado também, fizemos vários jogos. Esses dias
passaram-se sem novidade e bastante depressa. No domingo
pedi ao Peter que viesse aqui e mais tarde subimos e ficámos
lá em cima até às seis horas. Das seis e quinze até às sete
horas ouvimos um belo concerto de música de Mozart;
do que mais gostei foi da "Kleine Nachtmusik". Não
consigo escutar bem quando há muita gente à minha volta,
porque a boa música comove-me profundamente.
Domingo à noite o Peter e eu fomos ao sótão. Para
estarmos sentados confortàvelmente, levámos umas almofadas
que pusemos em cima de um caixote. O sítio é
estreito e estávamos muito apertados um contra o outro.
A Mouchi fazia-nos companhia. Assim havia quem nos
vigiasse. De repente, às nove menos um quarto, o sr. van
Daan assobiou e perguntou se nós tínhamos levado uma
almofada do sr. Dussel. Saltámos do caixote abaixo e descemos
com as almofadas, o gato e o sr. van Daan. Por causa
da almofada do sr. Dussel desenrolou-se uma verdadeira
tragédia. Ele estava desaustinado por termos levado a
sua "almofada da noite". Receou que a enchêssemos de
pulgas, fez cenas tremendas por causa de uma reles almofada.
Como vingança, o Peter e eu metemos-lhe duas
escovas duras na cama. Rimo-nos muito daquela pequena
partida Mas o divertimento não havia de ser de
longa duração. às nove e meia o Peter bateu à porta e pediu
ao pai que subisse para lhe ensinar uma frase inglesa muito
complicada.
- Aqui há gato-disse eu à Margot.-Ele não está a
dizer a verdade.
E tinha razão. Havia ladrões no armazém. Com rapidez,
o pai, o Peter, o sr. van Daan e o Dussel desceram.
A mãe, a Margot, a sra. van Daan e eu ficámos à espera.
Quatro mulheres cheias de medo não podem fazer outra
coisa senão porem-se a falar. Assim fizemos. De repente,
ouvimos, lá em baixo, uma pancada forte. Depois, silêncio.
O relógio deu dez menos um quarto. Estávamos lívidas
muito quietas e cheias de medo. Que foi feito dos homens.
O que é que significava aquela pancada? Haverá luta
entre eles e os ladrões? Dez horas. Passos na escada. Entra
primeiro o pai, pálido e nervoso, depois o sr. van Daan.
- Fechem a luz. Subam sem fazer barulho. Deve vir
a polícia.
Agora não havia tempo para medos. Fechámos a luz.
Ainda peguei no meu casaquinho e subimos.
- O que aconteceu? Depressa, conta! - Mas não havia
ninguém que pudesse contar, porque os senhores já tinham
descido outra vez. às dez e dez voltaram, dois ficaram de
guarda na janela aberta, no quarto do Peter. A porta do
corredor ficou fechada. A porta giratória também. Sobre
o candeeiro lançámos uma camisola. Depois eles começaram
a contar:
O Peter ao ouvir duas pancadas fortes, correu abaixo
e viu que do lado esquerdo da porta do armazém faltava
uma tábua. Voltou depressa para cima, avisou a parte
mais corajosa do grupo e então eles, os quatro, desceram.
Quando entraram no armazém encontraram os ladrões
em flagrante. Sem reflectir o sr. van Daan gritou :
- Polícia!
Os ladrões fugiram num instante. Para evitar que a
ronda da Polícia notasse o buraco, os nossos homens colocaram
a tábua no sítio, mas um pontapé de lá de fora
deitou-a novamente ao chão. Os quatro ficaram perplexos
com tanto atrevimento. O sr. van Daan e o Peter sentiram
vontade de matar aqueles patifes. O sr. van Daan bateu com
o machado no chão. Depois novamente silêncio. Tentaram
colocar outra vez a tábua.
Novo susto: lá fora estava um casal e a luz forte de uma
lâmpada de mão iluminou todo o armazém.
- Com mil raios!-disse um dos nossos e... num instante
trocaram o seu papel de polícias pelo de ladrões.
Fugiram. Subiram. O Peter abriu portas e janelas na cozinha
do escritório particular, deitou o telefone ao chão e
depois desapareceram todos por detrás da porta giratória.
Fim da primeira parte.
Provàvelmente o casal avisaria a Polícia. Era domingo,
Domingo de Páscoa, e ninguém viria ao escritório, antes
de terça-feira de manhã. Não podíamos fazer mesmo nada.
Imagina duas noites e um dia a passar com tal angústia!
Nós, as mulheres é que já não éramos capazes de imaginar
coisa alguma. Estávamos sentadas às escuras; a sra. van
Daan resolveu fechar todas as luzes, e sempre que se
ouvia um ruído murmurávamos "chut, chut".
Eram dez e meia, onze horas, e de ruídos nada. Alternadamente
vinham ter connosco o pai e o sr. van Daan.
Depois, às onze e um quarto, ouvimos ruídos lá em baixo.
Agora já se ouvia a respiração de cada um de nós. Não
nos mexemos. Passos na casa, no escritório particular, na
cozinha, depois... na escada que conduz à porta camuflada.
Retivemos a respiração; oito corações a martelar.
Passos na escada, sacudidelas nas prateleiras da porta
giratória. Estes momentos são impossíveis de descrever.
-Estamos perdidos-pensei, e já nos via, a todos,
arrastados pela Gestapo através da noite. Mais duas vezes
mexeram na porta giratória, depois alguma coisa caiu e os
passos afastaram-se. De momento, estávamos salvos. Então
começámos todos a tremer. Ouvia-se o bater de dentes;
ninguém conseguia pronunciar uma palavra.
Não se ouvia mais nada em toda a casa, mas havia
luz do outro lado da porta camuflada. Teriam desconfiado
desta ou esqueceram-se de apagar a luz? Dentro do
prédio já não se encontravam estranhos; só lá fora, na
rua, haveria possivelmente um guarda. As nossas línguas
soltaram-se, começámos a falar, mas o medo ainda nos
dominava. Todos precisavam... O Peter tem um cesto de
papéis de chapa de ferro, que podia substituir o balde que
estava no sótão.
O sr. van Daan começou, depois o pai. A mãe teve
vergonha. O pai levou-nos o cesto ao quarto, onde a Margot, a sr. van Daan e eu, muito
contentes, o utilizámos,
e, por fim, também a mãe. Todos queriam papel. Felizmente
eu trazia algum comigo no bolso.
Do cesto vinha um cheirete horrível; falávamos em voz
baixa; estávamos cansados. Era meia-noite.
- Deitem-se no chão e durmam!
Deram-nos, à Margot e a mim, almofadas. A Margot
ficou deitada junto do armário dos víveres e eu entre as
pernas da mesa. No chão não se sentia tanto o mau cheiro,
mas a sra. van Daan, sem fazer o mínimo ruído, foi buscar
um pouco de cloro e deitou-o no cesto, que depois cobriu
com um pano velho.
Conversas, murmúrios, mau cheiro, medo, e sempre
alguém sentado no cesto. Impossível dormir-se. às duas
e meia eu estava tão cansada que não ouvi mais nada
até às três e meia. Depois acordei. Senti a cabeça da
sra. van Daan em cima do meu pé.
-Dêem-me alguma coisa para vestir. Tenho frio.
Atiraram-me roupa. Mas não queiras saber o que era!
Fiquei com calças de lã em cima do pijama, um "pulover"
e uma saia preta, umas meias brancas e, por cima, soquetes
rotos.
Agora a sra. van Daan sentou-se numa cadeira e o
sr. van Daan deitou-se no chão, também em cima dos
meus pés. Comecei a pensar em tudo o que tinha acontecido
e pus-me a tremer de tal forma que o sr. van Daan
não pôde dormir. Preparei mentalmente as palavras que
havíamos de dizer, caso a polícia voltasse. Com certeza era
preciso confessar-lhes que éramos "mergulhados". Ou eles
eram bons holandeses-e então estávamos salvos-ou eram
pró-nazis e então aceitavam dinheiro!
- Tira o rádio-suspirou a sra. van Daan.
-Queres que o deite ao fogão? Se nos encontrarem,já
não importa que encontrem também o rádio.
- Então encontram também o diário da Anne-disse
o pai.
- E se o queimássemos-propôs a pessoa mais medrosa
do nosso grupo.
Este momento e aquele em que eu tinha ouvido as
sacudidelas da Polícia na porta giratória, foram para mim
os mais terríveis.
- O meu diário não! O meu diário só será queimado
comigo!
Graças a Deus, o pai já nem me respondeu.
Não vale a pena reproduzir todas as conversas. Confortei
a sra. van Daan, que estava cheia de um medo horrível.
Falámos de fugas, interrogatórios, da Gestapo e da
necessidade de sermos corajosos.
-Agora temos de ser valentes como os soldados
sra. van Daan. Se nos apanharem, o nosso sacrifício será
pela rainha, a pátria, a verdade e o direito, como dizem
também na emissora de Orange.
O que mais me aflige é arrastarmos tanta gente para
a infelicidade.
O sr. van Daan tornou a trocar o lugar com a sua
mulher, o pai veio para junto de mim. Os homens fumavam
sem interrupção, de vez em quando ouvia-se um
suspiro fundo, depois alguém a correr ao cesto... e isto
ainda se repetiu muitas vezes. Quatro horas, cinco horas,
cinco e meia. Fui ao quarto do Peter. Ficámos sentados
à janela, ouvíamos os ruídos, cada um sentia as vibrações
do corpo do outro, tão encostados estávamos. Só dizíamos
uma palavra, de longe em longe. Estávamos sempre
atentos ao que se ia passando. Ao lado ouvimos alguém
abrir as persianas.
às sete, os senhores queriam telefonar ao Koophuis e
pedir-lhe que mandasse alguém. Escreveram num papel
o que lhe iam dizer. Havia o perigo de o guarda em frente
da porta ouvir o toque do telefone, mas o perigo da
Polícia voltar era maior ainda. Os tópicos a comunicar ao
Koophuis eram os seguintes:
Assalto: a Polícia entrou em casa, chegou até à porta
giratória, mas não foi mais longe.
Ladrões, provàvelmente apanhados em flagrante, arrombaram
a porta do armazém e fugiram pelo quintal.
Porta principal trancada. O Kraler deve ter saído
pela outra porta. As máquinas de escrever estão em segurança
na caixa preta, no escritório particular.
Tentar avisar o Henk. Ir buscar a chave a casa da Elli. Ele que venha cá ao escritório com o
pretexto de que o
gato precisa de comida.
Tudo se fez tal qual. Telefonou-se ao Koophuis, levámos
as máquinas (que ainda estavam connosco em cima)
para baixo, e guardámo-las na caixa preta. Sentámo-nos
à volta da mesa e esperámos pelo Henk ou... pela Polícia.
O Peter adormeceu. O sr. van Daan e eu acabámos
por deitar-nos no chão. Depois ouvimos passos pesados.
Eu disse, em voz baixa:
- É o Henk.
- Não, não, é a Polícia, ouvi dizer alguém.
Bateram à porta. O assobio da Miep. Agora é que a
sra. van Daan não aguentou mais. Branca como a cal,
sem forças, estava caída na cadeira, e se aquela tensão
se tivesse prolongado por mais um minuto, ela teria desmaiado.
Quando a Miep e o Henk ntraram no nosso quarto,
ofereceu-se-lhes um lindo espectáculo. Só a mesa valia a
pena ser fotografada. A revista "Filme e Teatro" aberta, e
as fotos das lindas "estrelas" do bailado besuntadas com
compota e com o remédio contra a diarreia. Dois frascos
de compota, um pão e meio, espelho, pente, fósforos,
cinza, cigarros, tabaco, cinzeiro, calcinhas, lâmpáda de
bolso, papel higiénico, etc., etc...
Já se vê, recebemos o Henk e a Miep com júbilo e
lágrimas. O Henk tapou o buraco da porta com a tábua
e depois foi à Polícia para comunicar o assalto. A Miep
encontrou debaixo da porta um aviso do guarda-nocturno
que viu o buraco e avisou a Polícia. O Henk foi também
falar com ele.
Tínhamos uma meia hora para nos arranjarmos. Nunca
vi uma tal metamorfose em tão pouco tempo. A Margot
e eu abrimos as camas, fomos ao W. c., lavámo-nos, limpámos
os dentes e penteámo-nos. Depois, num instante,
arrumámos o quarto e voltámos para cima. A mesa já
estava limpa. Fomos buscar água, fizemos café e chá e
pusemos a mesa para o pequeno almoço. O pai e o Peter
limparam o cesto sujo com água e cloro.
às onze horas já nos encontrávamos todos com o Henk
à volta da mesa e acalmámos pouco a pouco. O Henk contou:
- O guarda nocturno Slagter ainda estava a dormir.
Falei com a mulher e ela disse-me que o marido, ao fazer
a ronda nos cais, tinha reparado no buraco na nossa
porta da rua. Foi procurar um polícia e, juntos, rebuscaram
a casa de cima abaixo. Que na terça-feira viria fazer mais
comunicações ao Kraler. Foi à esquadra da Polícia, onde
ainda não sabiam nada do assalto, mas tomaram nota
e disseram que viriam cá também na terça-feira.
No regresso o Henk passou pela loja do hortaliceiro,
na esquina, e contou-lhe do roubo.
- Eu sei, - disse o hortaliceiro pachorrentamente. - Passei,
ontem à noite com minha mulher pelo vosso estabelecimento
e vi o tal buraco na porta. Minha mulher não quis
parar mas eu acendi a minha lâmpada de bolso e iluminei
o interior. Os ladrões fugiram logo. Não chamei a Polícia,
pensei que seria melhor. Não sei nada, mas imagino
algumas coisas...
O Henk agradeceu e foi-se embora. O hortaliceiro
decerto suspeita de que estamos aqui, pois entrega as
batatas sempre à hora do almoço. Um tipo às direitas.
Depois do Henk nos ter deixado - era uma hora - deitámo-nos
para dormir. às três menos um quarto acordei
e já não vi o Dussel na sua cama. Ainda toda entorpecida
encontrei, por acaso, o Peter no quarto de banho.
Combinámos encontrar-nos depois em baixo, no escritório.
- Ainda sentes coragem para subir ao sótão? - perguntou-me.
Disse-lhe que sim, fui buscar a minha almofada
e subimos. O tempo estava uma maravilha. Em breve
as sereias começaram a dar alarme. Mas nós ficámos onde
estávamos. O Peter deitou-me um braço em volta dos
ombros e eu também deitei um braço em volta dos seus
ombros, e assim ficámos muito calmos, até que veio a
Margot chamar-nos para o lanche.
Comemos pão, tomámos limonada e já estávamos de
novo dispostos a dizer brincadeiras uns aos outros. Depois
disso não houve mais nada de especial. à noite agradeci
ao Peter por ele ter sido o mais corajoso de todos nós.
Nunca nenhum de nós se tinha encontrado numa situação
tão perigosa como a da noite passada. Deus protegeu-nos.
Imagina a Polícia a remexer na estante da nossa
porta giratória, iluminada pela luz acesa, sem dar connosco!
Em caso de invasão, com bombardeamentos e tudo,
cada um de nós pode responder por si próprio. Neste caso,
porém, não se tratava só de nós, mas também dos nossos
bondosos protectores.
-Estamos salvos. Não nos abandones!
É apenas isto que podemos suplicar.
Este acontecimento trouxe consigo algumas modificações.
O sr. Dussel já não trabalha à noite no escritório
do Kraler mas sim no quarto de banho. às oito e meia
e às nove e meia o Peter faz a ronda pela casa. Já não
pode abrir a janela durante a noite. Depois das nove e
meia não podemos utilizar o autoclismo do W. C. Hoje
à noite vem um carpinteiro reforçar as portas do armazém.
Há discussões a tal respeito, há quem pense que não se
devia mandar fazer isso. O Kraler censurou a nossa imprudência
e também o Henk disse que não devíamos em tais
casos descer ao andar de baixo. Fizeram-nos ver bem que
somos "mergulhados", judeus enclausurados, presos num
sítio, sem direitos, mas carregados de milhares de deveres.
Nós, judeus, não devemos deixar-nos arrastar pelos sentimentos, temos de ser corajosos e fortes
e aceitar o nosso
destino sem queixas, temos de cumprir tudo quanto
possível e ter confiança em Deus. Há-de chegar o dia em
que esta guerra medonha acabará, há-de chegar o dia
em que também nós voltaremos a ser gente como os outros
e não apenas judeus.
Quem foi que nos impôs este destino? Quem decidiu
excluir deste modo os judeus do convívio dos outros povos?
Quem nos fez sofrer tanto até agora? Foi Deus que nos
trouxe o sofrimento e será Deus que nos libertará. Se
apesar de tudo isto que suportamos, ainda sobreviverem
judeus, estes servirão a todos os condenados como exemplo.
Quem sabe, talvez venha ainda o dia em que o Mundo se
aperceba do bem através da nossa fé, e talvez seja por
isso que temos de sofrer tanto. Nunca poderemos ser só
holandeses, ingleses ou súbditos de qualquer outro país.
Seremos sempre, além disso, judeus. E queremos sê-lo.
Não percamos a coragem. Temos de ter consciência
da nossa missão. Não nos queixemos, que o dia da nossa
salvação há-de chegar. Nunca Deus abandonou o nosso
povo. Através de todos os séculos os judeus sobreviveram.
Através de todos os séculos houve sempre judeus a sofrer,
mas através de todos os séculos se mantiveram fortes.
Os fracos desaparecem mas os fortes sobrevivem e não
morrerão!
Naquela noite pensei que ia morrer. Esperava pela
Polícia, estava preparada como os soldados no campo de
batalha, prestes a sacrificar-me pela pátria. Agora que
estou salva, o meu desejo é naturalizar-me holandesa depois da guerra.
Gosto dos holandeses, gosto desta terra e da sua língua.
É aqui que gostava de trabalhar. E se for preciso escrever
à própria rainha, não hei-de desistir enquanto não
conseguir este meu fim.
Sinto-me cada vez mais independente dos meus pais.
Embora seja muito nova ainda, sei, no entanto, que tenho
mais coragem de viver e um sentido de justiça mais apurado,
mais seguro do que a mãe. Sei o que quero, tenho
uma finalidade, uma opinião, tenho fé e amor. Deixem-me
ser eu mesma e estarei satisfeita. Tenho consciência de ser
mulher, uma mulher com força interior e com muita
coragem.
Se Deus me deixar viver, hei-de ir mais longe de que
a mãe. Não quero ficar insignificante. Quero conquistar
o meu lugar no Mundo e trabalhar para a Humanidade.
O que sei é que a coragem e a alegria são os factores
mais importantes na vida! e não sei explicar porquê. Escrevi tudo num caos, não se sente o nexo,
e cada vez duvido mais de que um dia haja alguém interessado nos disparates que escrevo.
"As confidências de um patinho feio" será o título
desta papelada. O sr. Bolkestein e o sr. Gerbrandy, os
coleccionadores de documentos de guerra, não encontrarão
nada de especial no meu diário.
Tua Anne
Sexta-feira, 14 de Abril de 1944
Querida Kitty:
A atmosfera está ainda tensa. O Pim está muito irritável.
A sra. van Daan está deitada com uma constipação
e faz cenas; o marido está pálido e não tem cigarros que o
animem; o Dussel, depois de ter resolvido sacrificar uma
parte das suas comodidades, anda descontente.
Há muita coisa que não funciona. O W.C. está a deitar
água e a torneira está perra. Mas graças às nossas
muitas relações, estes males hão-de remediar-se depressa.
Há ocasiões em que estou sentimental, sei-o bem, mas...
por vezes há razões para o sentimentalismo. Quando o
Peter e eu estamos sentados num caixote duro, no meio
de ferros-velhos e de pó, muito juntos, eu com um braço
em volta dos seus ombros, ele com um braço em volta
dos meus ombros, quando ele brinca com uma madeixa
do meu cabelo, quando lá fora se ouve o chilrear dos
pássaros, quando se vê as árvores a pintarem de verde
quando o sol nos chama e o ar é todo ele azul, oh!, então
os meus desejos são infinitos.
Mas aqui só se vêem caras carrancudas e descontentes.
Suspiros e queixumes por toda a parte. Tudo isto dá a
impressão de que as coisas vão cada vez pior. A verdade,
no entanto, é que tudo corre sempre mal se não soubermos
reagir. Já não há ninguém cá no anexo que nos sirva de
exemplo, cada um luta sózinho com os seus nervos. Só se
ouve dizer:
- Quem me dera que isto acabasse!
A mim, o trabalho, a esperança, o amor e a coragem
fazem-me aguentar, mais até: tornam-me boa e feliz.
Creio, Kit, que estou um pouco maluquinha hoje.
Tua Anne
Sábado, 15 de Abril de 1944
Querida Kitty :
A um susto segue-se outro, - Quando é que isto terá
fim? É esta a nossa eterna pergunta. Imagina o que
aconteceu agora. O Peter esquece se de abrir o ferrolho
da porta principal (à noite a porta tranca-se por dentro)
e a fechadura da outra porta está estragada. Por consequência
o Kraler não conseguiu entrar com os operários.
Teve de pedir aos vizinhos para o deixarem entrar, quebrou
depois a janela da cozinha e saltou para dentro.
Está furioso por causa do nosso descuido. O Peter anda
desolado. Quando a minha mãe lhe disse à mesa que
tinha pena dele, pouco faltou para que desatasse a chorar.
Mas na verdade temos todos culpa, porque os senhores
costumam perguntar todas as manhãs se o Peter abriu
o ferrolho, e precisamente hoje não o fizeram. Oxalá eu
lhe possa dar logo algum conforto, gostava tanto de o
ajudar!
E agora algumas notícias sobre vários acontecimentos
no anexo durante as últimas semanas :
Há uma semana adoeceu o Boschi. Não se mexia
a Miep, sempre resoluta, embrulhou-o num pano, meteu-o
no seu saco das compras e levou-o à clínica veterinária.
O veterinário enfiou-lhe um remédio pela goela abaixo,
pois supunha que o bicho tinha uma infecção nos intestinos.
Depois disso o Boschi passeia lá fora, dia e noite; decerto
arranjou uma namorada.
A janela do sótão já fica outra vez aberta durante a
noite. Quando escurece, o Peter e eu estamos quase sempre
lá em cima.
Com o auxílio de Koophuis e com um pouco de tinta
de óleo, o W. C. arranjou-se. A torneira perra foi substituída
por outra. Este mês recebemos oito cartões de
racionamento. O nosso mais recente petisco chama-se "Piccadilly".
Se a gente tem pouca sorte, só encontra alguns
pepinos com molho de mostarda no frasco. Legumes já
não há quase nenhuns. Só salada e sempre salada. De resto
só comemos batatas com molho artificial.
Muitos e tremendos bombardeamentos.
A Câmara de Haia ficou destruida e com ela muitos
documentos. Diz-se que todos os holandeses receberão
novos cartões de identidade.
Basta por hoje.
Tua Anne
Domingo de manhã pouco antes das 11 horas, 16 de Abril de 1944
Querida Kitty :
Peço-te que nunca te esqueças do dia de ontem,
por ser um dia muito importante na minha vida. Ou não
é importante para uma rapariga receber o seu primeiro
beijo? E eu não sou diferente das outras. O beijo que o
Bram me deu uma vez na face direita não conta, e o beijo
na mão de Mr. Walker também não. Agora vais ouvir
como aconteceu eu receber um beijo.
-Ontem, às oito horas, estávamos, o Peter e eu, no
quarto dele, sentados no sofá.
-Se pudesses chegar-te mais um bocado para lá,-disse-lhe,
- eu não dava com a cabeça contra a estante.
Ele recuou quase até ao cantinho. Passei-lhe o braço
à volta da cinta e ele abraçou-me. Já tínhamos estado
assim muitas vezes, mas talvez não tão próximos um do
outro. Apertou-me com força, o meu peito estava contra
o seu - o meu coração batia cada vez mais depressa. Mas
não é tudo. Ele não descansou enquanto não deitei a
cabeça no seu ombro e depois inclinou ele a cabeça sobre
a minha. Quando, passados cinco minutos, me ia endireitar,
tomou-me a cabeça entre as mãos e apertou-me,
de novo, contra ele. Oh! foi maravilhoso, eu não consegui
falar, só pude viver o momento. Um pouco desajeitado,
acariciou-me a cara e o braço, brincou com os meus caracóis
e assim permanecemos com as cabeças muito juntas.
Não posso descrever-te a minha emoção. Eu estava tão
feliz! E creio que o Peter também.
às oito e meia levantámo-nos e ele calçou as sandálias
de ginástica para fazer a ronda pela casa com o menos
ruído possível. Eu estava ao seu lado. Não sei dizer exactamente como aquilo aconteceu, mas ao
descermos, ele
beijou-me o cabelo, muito junto da orelha esquerda. Corri
para baixo sem me virar e... e só queria que já fosse mais
logo, à noite.
Tua Anne
Segunda-feira, 17 de Abril de 1944.
Querida Kitty :
Que te parece : o pai e a mãe achariam bem se soubessem
que eu estou sentada com um rapaz no sofá e que nos
beijamos? Um rapaz de dezassete anos e uma rapariga
que vai fazer quinze? Não devem achar bem, creio, mas
afinal aquilo só me diz respeito a mim. Sinto-me calma
e segura a sonhar nos seus braços, e é tão excitante sentir
a cara dele contra a minha, é tão delicioso saber-se que
alguém nos espera!
Mas - há um mas - ele contentar-se-ia só com isto.
Não me esqueci da sua promessa, mas... sempre é um
rapaz!
Bem sei que estou a começar cedo, ainda não fiz os
quinze e já sou tão independente! Ninguém, provàvelmente,
sabe compreender. Tenho quase a certeza de que
a Margot era incapaz de beijar um rapaz sem que se falasse
logo de noivado e de casamento. Mas o Peter e eu não
fazemos planos. Calculo que a mãe também não se deixou
tocar por ninguém antes de conhecer o pai. O que
diriam as minhas amigas se me vissem nos braços do Peter,
com o meu coração contra o seu peito, a cabeça nos seus
ombros, e a sua cabeça em cima da minha?
Oh! Anne, que vergonha!
Mas, com toda a franqueza! Não acho que isto seja
uma vergonha. Vivemos aqui isolados do Mundo, cheios
de medo e de angústia, principalmente nos ultimos tempos.
Porque é que nós, que nos amamos, havemos de nos afastar
um do outro? Porque é que havemos de esperar até ter
uma idade conveniente? E porque havemos de fazer tais
perguntas?
hei-de saber tomar conta de mim. O Peter nunca me
causará aflições ou dores. Porque não hei-de eu, por isso
fazer o que o meu coração me dita e o que nos torna
felizes? Mas... creio que estás a pressentir que lido com
certas dúvidas, dúvidas estas que provêm da luta entre
a minha fraqueza e o ter de fazer coisas às escondidas.
Achas que é meu dever dizer tudo ao pai? Achas que devemos
partilhar o nosso segredo com alguém? Receio que
muita coisa subtil venha a perder-se. E ficaria eu mais
calma intimamente? Vou falar com "ele" sobre o assunto.
Sim, tenho de falar com "ele" sobre muitas coisas,
porque passar o tempo a fazer apenas carícias, não faz
sentido. É preciso uma grande confiança para dizermos
tudo um ao outro, mas a consciência de possuirmos esta
confiança mútua nos dará força a ambos.
Tua Anne
Terça-feira, 18 de Abril de 1944
Querida Kitty:
Tudo vai bem. O pai disse que espera grandiosas operações
ainda antes de 20 de Maio, tanto na Rússia e na
Itália como no Ocidente. Quanto mais as coisas se estão
a demorar, tanto menos consigo imaginar a nossa libertação.
Finalmente, ontem o Peter e eu falámos sobre aquilo
que andávamos a adiar há dez dias. Expliquei-lhe todos
os segredos de uma rapariga e não me acanhei a falar nas
coisas mais íntimas. A noite rematou-se com um beijo
muito perto da boca. É uma sensação maravilhosa.
Talvez eu leve para cima o meu livro em que aponto
tudo o que me agrada, e assim podemos aprofundar juntos
as coisas belas. Não me dá satisfação estarmos só abraçados.
Gostava de que ele fosse da minha opinião.
Depois de um Inverno irregular veio uma Primavera
estupenda, um Abril magnífico, nem quente nem frio,
e só de vez em quando uma chuvada. O nosso castanheiro
já está verde e vêem-se, aqui e acolá, nascerem-lhe as
velinhas. No sábado a Elli deu-nos uma grande alegria. Trouxe
flores - três ramalhetes de narcisos, e para mim, jacintos
azuis.
Tenho que estudar álgebra, Kitty. Adeus.
Tua Anne
Quarta-feira, 19 de Abril, de 1944
Querida Kitty:
Lieve Schat!
O que poderá haver de mais belo no Mundo do que
olhar a natureza pela janela aberta, do que ouvir cantar
os pássaros, sentir o sol no rosto e ter nos braços um rapaz
muito querido? O silêncio faz-nos tão bem!
Oh! Se nunca ninguém o interrompesse, nem mesmo
o Mouchi!
Tua Anne
Terça-feira, 25 de Abril de 1944
Querida Kitty :
Há dez dias que o Dussel não fala com o sr. van Daan
e só porque tivemos de tomar, depois do roubo, algumas
medidas novas que não lhe agradam. Disse que o sr. van
Daan lhe deu berros.
-Tudo se faz aqui sem me consultarem-disse-me a
mim-; hei-de falar a este respeito com o teu pai.
Ele não devia trabalhar, nem no sábado à tarde nem
no domingo, lá em baixo no escritório. Mas não cumpriu,
foi na mesma. O sr. van Daan ficou zangado e o pai foi
para baixo para falar com o Dussel. Claro, lá inventou
qualquer desculpa. Mas desta vez nem o pai se deixou
convencer. Agora o pai quase não lhe fala por ele o
ter ofendido. Não sabemos o que se passou, mas deve ter
sido coisa grave.
Escrevi uma história bonita, chama-se Blzrry, o descobridor
do Mundo. Agradou bastante aos meus três ouvintes.
Ainda estou muito constipada e contagiei a Margot,
o pai e a mãe. Oxalá não aconteça o mesmo ao Peter.
Queria que eu lhe desse um beijo, chamou-me o seu
"el dorado". Mas agora não pode ser, meu rapaz! Ele é
um amor!
Tua Anne
Quinta-feira, 27 de Abril de 1944
Querida Kitty:
Hoje de manhã a sra. van Daan estava de muito mau
génio. Só se lamentava: por estar constipada, por não
haver gotas que lhe fizessem aguentar melhor as dores
no nariz. Depois, por não haver nem sol nem invasão, e
por se não poder olhar um pouco pela janela, etc., etc.
Foi-nos impossível manter um ar sério; rimo-nos dela,
e como, afinal, tudo aquilo não era uma grande tragédia,
ela acabou pur se rir também.
Leio agora O Imperador Carlos Quinto, escrito por um professor de Guingen que trabalhou
quarenta anos nesta
obra. Em cinco dias li cinquenta páginas; é difícil ler-se
mais, de um livro assim, e ele tem quinhentas e noventa e
oito páginas. Agora podes fazer as contas ao tempo que
levará a leitura e, depois, falta ainda a segunda parte!
Mas... é deveras interessante!
O que uma rapariga trabalha normalmente na escola
não se pode comparar à tarefa que eu cumpro. Hoje
traduzi, do holandês para o inglês, um pedaço da última
batalha de Nelson. Depois estudei A guerra Nórdica
(1700-1721), Pedro o Grande, Carlos XII, Augusto o
Forte, Stanislau Seczinsky, Mazeppa, Brandemburgo, Pomerânia
e Dinamarca-com todos os dados correspondentes.
Depois li sobre o Brasil: o tabaco da Baía, a abundância
de café, o milhão e meio de habitantes do Rio de Janeiro,
Pernambuco e São Paulo, o rio Amazonas. Fiquei a saber
coisas dos negros, dos brancos, das mulheres, dos mulatos,
dos mestiços; fiquei também a saber que ainda lá vivem
cinquenta por cento de analfabetos e que há malária.
Como ainda me sobrava um pouco de tempo, peguei na
minha árvore genealógica: Jan o velho, Guilherme Luís, Ernst Casimir, Henrique CasimirI, até à
pequena Margriet
Franciska que nasceu em 1929 em Otava.
Meio-dia: continuo a estudar, no sótão, o programa
sobre as catedrais... uff! até à uma hora.
às duas horas, a pobre rapariga (hum, hum!) já estava
de novo a estudar. Macacos com focinho achatado e
macacos com focinho aguçado. Kitty, és capaz de me dizer
quantos dedos no pé tem o hipopótamo? Depois seguiu-se
a bíblia, a arca de Noé, Sem, Cham e Japhet; depois
Carlos V. Por fim: inglês com o Peter: O Coronel de
Thackeray, vocábulos franceses, e comparar o Mississipi
ao Missouri. Chega por hoje.
Tua Anne
Sexta-feira, 28 de Abril de 1944
Querida Kitty:
Nunca me pude esquecer do meu sonho com o Peter
Wessel. Ainda hoje, ao lembrar-me, parece-me sentir a
face do Peter contra a minha, essa sensação que tanto me
maravilhou. Ao estar com o Peter daqui experimentava a
mesma sensação, sim, mas nunca tão forte até... ontem,
ao anoitecer, quando estávamos, como de costume, abraçados
no sofá. De repente a Anne de todos os dias transformou-se
numa outra Anne, naquela que não é divertida
nem travessa mas que quer ser terna e afável.
Estava muito junto dele e a comoção tomou conta de
mim. As lágrimas vieram-me aos olhos, cairam-me cara
abaixo e molharam a bata dele. Terá notado? Nem o
mais leve movimento o traíu. Sente ele o mesmo que eu?
Quase não falava. Saberá que convive com duas Annes
diferentes? Tantas perguntas por responder!
às oito e meia ergui-me e fui à janela onde costumamos
despedir-nos. Ainda eu tremia, ainda era a Anne número 2.
Ele foi ter comigo, eu deitei-lhe os braços ao pescoço e
beijei-lhe a face esquerda. Quando lhe quis beijar a outra,
as nossas bocas encontraram-se. Como numa vertigem,
estreitámo-nos, um contra o outro, uma vez e outra vez,
para nunca mais acabar!
Peter tem necessidade de ternura. Pela primeira vez
na vida descobriu uma rapariga e, pela primeira vez, compreendeu que estas "maçadoras", afinal,
têm também um
coração e que são muito diferentes quando se está a sós
com elas. Pela primeira vez na vida deu amizade e entregou-se
a outrem. Nunca antes tinha tido um amigo ou
uma amiga. Agora encontrámo-nos. Eu também não o conhecia a ele, nunca tinha tido um
confidente, e agora
tudo isto se realizou.
Mas eis uma pergunta que me tortura:
-Está isto certo? Procedo bem em ser tão transigente,
tão apaixonada, tão impulsiva e cheia de desejos, tal como
o Peter? Está certo que uma rapariga não saiba dominar-se?
Só há uma resposta: sentia dentro de mim profunda
ânsia, sentia-me só, e agora encontrei consolo e alegria.
Da parte da manhã Peter e eu somos as pessoas de
sempre; e mesmo durante o dia. Mas ao anoitecer não
podemos conter o desejo da felicidade e da alegria de nos
encontrarmos. Então somos um do outro. Todas as noites,
depois do último beijo, queria fugir, desaparecer, não ver
mais aqueles olhos, estar longe, longe, longe, totalmente
só na escuridão!
Mas depois de ter descido os catorze degraus, onde é
que me encontro? à luz crua da sala, entre vozes e risos;
perguntam-me isto ou aquilo e tenho de fazer tudo para que
ninguém note em mim qualquer coisa. O meu coração
ainda está impressionado de mais para esquecer um acontecimento como o de ontem à noite. A
meiguice e a brandura
talvez sejam qualidades raras na Anne mas, mesmo assim,
não se deixam afugentar de um instante para o outro.
O Peter atingiu-me como nunca nada me tinha atingido,
a não ser o meu sonho. O Peter revolveu o meu íntimo,
chamou-o à superfície. E não é natural que qualquer
pessoa no meu caso necessite reencontrar o sossego para
tranquilizar de novo o seu íntimo? Oh, Peter!, o que
fizeste de mim? O que queres de mim? Aonde vamos nós
parar? Oh! Agora é que compreendo a Elli. Agora que
vivo estas coisas, compreendo as dúvidas dela. Se ele fosse
mais velho e quisesse casar comigo, que lhe responderia?
Sê franca, Anne! Não eras capaz de casar com ele, mas
deixá-lo também te custa! O carácter do Peter ainda não
alcançou a harmonia intrior. O Peter tem pouca energia,
pouca força de vontade e pouca força moral. Ainda é uma
criança, intimamente não tem mais idade do que eu; o
que ele procura, antes de mais nada, é a calma e a felicidade.
E eu? Tenho, de facto, só catorze anos? Não passo
de uma rapariguita estúpida? Não tenho ainda experiência
nenhuma? Tenho experiência, sim senhora, tenho mais
experiência do que os outros; vivi coisas que muito poucos
da minha idade viveram. Tenho medo de mim própria,
tenho medo de que o meu desejo me arrebate, e então o
que há-de ser de mim mais tarde, quando conviver com
outros rapazes? Oh, como tudo isto é difícil! O coraÇão
e o juízo, e sempre a luta entre os dois. Cada um deles
fala no momento próprio, mas sei eu de certeza quais são
os momentos próprios?
Tua Anne