O Diário de Anne Frank - On line Parte 8

Domingo, 18 de Março de 1944
Querida Kitty:
Ultimamente não tenho tido paciência para estar
sentada à minha mesa. Gosto de conversar com o Peter
e só tenho receio de que ele se mace com isso. Já me contou
muitas coisas da sua vida, dos seus pais e de si próprio.
Mas eu ainda queria que ele me contasse mais.
Depois pergunto a mim mesma porque é que espero
tanto dele. Antigamente ele achava-me insuportável e eu
pagava-lhe na mesma moeda. Mas as coisas mudaram.
Se com ele, no entanto, ainda nos
pudermos tornar amigos íntimos, suportaria muito melhor esta vida de isolamento. Não
quero excitar-me mais. Estou a pensar de mais nele e não
tenho o direito de te vir importunar a ti, só por me sentir
tão obcecada.
Sábado, à tarde, fiquei, depois de uma série de notícias
tristes, tão mal disposta e confusa que me deitei na cama.
Só Queria dormir e não pensar em nada. Dormi até às
quatro horas depois tive de ir ao quarto do Pai.
foi fácil respondér às perguntas da mãe porque fora
que me tinha deitado. Disse que tinha dores de cabeça

e não menti. É que eu tinha dores de cabeça... na alma.
Suponho que gente normal, raparigas normais, adolescentes
da minha idade, me achariam provàvelmente
absurda por eu me lamentar tanto. Mas a ti digo tudo o
que me preocupa, e depois, durante o dia, sou atrevida,
para não precisar de responder às perguntas e para
evitar aborrecimentos.
A Margot é carinhosa comigo e talvez gostasse de
ser a minha confidente, mas não lhe posso dizer tudo.
É simpática e boa e bomita, mas um bocadinho académica quando conversamos sobre coisas
profundas. Ela procura
compreender-me, não há dúvida nenhuma, reflecte mesmo
sobre a sua irmã maluquinha, fixa-me com os olhos de
examinadora quandu digo isto ou aquilo e, provàvelmente,
pensa com os seus botões :
-Estará ela a representar ou será sincera?
Estamos sempre juntas e eu não queria ter a minha
confidente sempre tão próximo.
Quando sairei eu deste labirinto de pensamentos?
Quando haverá calma e paz no meu coração?
Tua Anne
Terça-feira, 19 de Março de 1944
Querida Kitty:
Talvez te entretenha a ti - a mim isto já não me
interessa - se te contar o que hoje vamos comer. Neste
momento estou (a mulher da limpeza encontra-se lá em baixo nos
escritórios) à mesa dos van Daans, coberta com um oleado.
Aperto o nariz e a boca com um lenço perfumado-o
perfume ainda é do tempo de antes do "mergulho". Esta
maneira de contar deve parecer-te aborrecida. Vou
começar outra vez. Como os nossos fornecedores foram
apanhados por causa dos cartões "negros" do racionamento
e outras coisas no género, já não temos cartões e, portanto,
nenhumas gorduras. A Miep e o Koophuis estão doentes,
a Elli não pode sair para fazer as compras e, por consequência, a nossa disposição é
desconsoladora e a comida
também. Para amanhã já não temos um pedacinho de
pingue, para já não falar de manteiga ou de margarina.
Acabaram-se as batatas fritas ao pequeno almoço (para
substituir o pão). Agora comemos papinhas. A sra. van Daan
tem medo de que morramos de fome e, felizmente, conseguiu
arranjar um bocadinho de leite "negro". O nosso almoço:
feijão de conserva de barrica! Daí as minhas providências
que tomei com o lenço. É incrível como o feijão cheira
mal depois de ter estado guardado durante um ano. Todo
o quarto cheira a uma mistura de ameixas podres, desinfectante
e ovos podres. Brrr! Só de pensar que tenho de
comer aquilo, já fico enjoada. Ainda por cima as nossas
batatas têm uma doença esquisita e de cada balde cheio
de "pommes de terre" metade é atirada para o lixo. Ao
descascá-las entretemo-nos a diagnosticar as mais variadas
doenças e já vimos casos de cancro, varíola e sarampo.
Podes crer que não é fácil viver-se "mergulhado" no quarto ano de guerra. Quem nos dera que
esta miséria acabasse!
Com franqueza, eu ainda aguentava a má comida, se o
resto fosse mais agradável. Mas o mal está em que todos
nós, com a vida monótona que levamos, ficamos nervosos.
Aqui tens as opiniões de cinco "mergulhados" sobre a
nossa vida:
Sra. van Daan:-Estou farta de fazer de criada de
cozinha. Mas quando não tenho nada que fazer aborreço-me.
Portanto, ponho-me a cozinhar. Mas cozinhar sem
gorduras é inconcebível, só o cheiro põe-me doente. Ainda
por cima todos me agradecem o trabalho com má cara
e a resmungar. Sou o carneiro preto do rebanho e tenho
culpa de todo o mal que acontece. Além disso, penso que
a guerra está a caminhar mal e se calhar os alemães ainda
vão vencer. Tenho medo de que morramos todos de fome.
E ainda querem que eu esteja bem disposta.
Sr. van Daan:-Preciso de fumar, de fumar, de fumar.
Assim suporto tudo: a política, a comida e o mau génio
da minha Kerli. Masjá que não tenho cigarros, apetecia-me,
ao menos, um bocado de carne. Estou sempre a dizer que
vivemos miseràvelmente, nada me serve, há discussões por
tudo e por nada e acho a Kerli estúpida.
A sra. Frank:-Mas a comida não é assim coisa tão
importante. Só queria uma fatia de pão de centeio. Estou
com fome. Se eu fosse a sra. van Daan já tinha desabituado
o meu marido de fumar tanto. Faz o favor, dê-me um cigarro
para acalmar os nervos. Os ingleses têm os seus defeitos
mas a guerra está a caminhar bem. Ainda bem que posso
falar à vontade e que não estou presa na Polónia.
Sr. Frank:-Acho que tudo vai bem, não preciso de
nada. Do que necessitamos é de calma, de paciência. Logo
que me não faltem as batatas estou satisfeito, mas não se
esqueçam de guardar algumas da minha ração para a Elli.
O sr. Dussel:-Tenho de concluir a tese antes de mais
nada. A política? Essa vai às mil maravilhas! Acho impossível
que nos descubram aqui. Eu...
Eu, eu, eu...
Tua Anne
Quarta-feira, 15 de Março de 1944
Querida Kitty:
Todo o santo dia ouço : se acontecer isto ou aquilo
teremos as maiores dificuldades... e se aquela rapariga
ficar doente, já não temos mais ninguém no Mundo... e se...
Já sabes a lenga-lenga. Pelo menos já deves conhecer
bastante esta gente do anexo para poderes adivinhar o
que andam a dizer.
A causa desses "se, se..." é a seguinte: o sr. Kraler
foi convocado para um "campo de trabalho", a Elli está
terrivelmente constipada, a Miep ainda se não levantou
da gripe e o sr. Koophuis teve outra vez uma hemorragia
e desmaiou! Um chorrilho de desgraças.
O pessoal do armazém tem feriado amanhã. Se a Elli
tiver de ficar em casa, a porta ficará fechada e temos de
fazer muito pouco ruído para que os vizinhos não desconfiem.
O Henk deve vir à uma hora para olhar pelos
"abandonados" e para representar o papel de guarda de
jardim zoológico. Hoje, à hora do almoço, contou-nos,
pela primeira vez desde há bastante tempo, coisas do grande
mundo lá de fora. Devias ter visto como o ouvimos todos
com o máximo interesse. Há um quadro que se chama
"Avòzinha conta histórias". O nosso grupo deve ter tido
o mesmo aspecto. Falou, falou, com muitos pormenores
e pormenorinhos, e não se esqueceu de contar-nos coisas
sobre comidas e do médico da Miep por quem perguntámos.
-Médico? Não me falem desse médico! Hoje de manhã
telefonei-lhe, mas só consegui que um assistentezinho viesse
ao telefone. Pedi-lhe uma receita contra a gripe. Disse-me
que, entre as oito e as nove, podia ir buscá-la. Quando se
trata de uma gripe mais grave, suponho que o médico vem pessoalmente ao telefone para dizer:
"Mostre a língua...
diga aaahhh... sim, senhor, ouço bem, tem a garganta
inflamada. Vou transmitir a receita à farmácia. Depois
pode ir lá buscar o remédio. Bom dia!" Lindo serviço, não
há dúvida. Consultas exclusivamente pelo telefone!
Mas podemos acusar os médicos? Ao fim e ao cabo
cada pessoa só tem duas mãos e, infelizmente, existem
agora muitos doentes e muito poucos médicos. Mas não
pudemos deixar de nos rir, quando o FIenk representou
aquela conversa ao telefone. Imagino como é diferente,
agora, a sala de espera de um médico. Decerto já não
desprezam só os doentes da "caixa", como era costume.
Agora devem desprezar-se as pessoas que não sofrem de
nada a sério mas que gostam de se queixar. Provàvelmente
falam-lhes assim:
-Que é que queres? Vai para o fim da bicha, que
temos agora de tratar primeiro os autênticos doentes.
Tua Anne
Quinta-feira, 16 de Março de 1944
Querida Kitty:
O tempo está maravilhoso, indescritivelmente maravilhoso. Hei-de ir ao sótão.
Agora sei por que sou mais irriquieta do que o Peter.
Ele tem um quarto só para ele, onde pode sonhar, pensar,
dormir. Eu sou empurrada de um quarto para o outro.
Raras vezes estou sozinha no quarto que partilho com o
Dussel, e tenho sempre tanto desejo de estar só! Por isso
fujo a cada passo lá para cima. Uma vez ali e contigo,
Kitty, posso, por pouco tempo, ser eu mesma. Mas não
me vou queixar, pelo contrário, vou ser corajosa. Os
outros, felizmente, nada percebem do que se passa comigo,
porque é que sou mais fria para com a mãe, menos meiga
com o pai. Falo muito pouco com a Margot sobre as minhas
coisas. Tenho de conservar a minha segurança exterior.
Não é preciso que os outros fiquem a conhecer a confusão
do meu íntimo, uma espécie de luta entre o desejo e a
razão. Até agora a razão tem sido sempre vencedora, mas
não chegará o dia em que sucumba? às vezes tenho medo
disso, outras vezes desejo que assim aconteça.
É pena não poder falar sobre estas coisas com o Peter
,
mas eu sei que é a ele que compete começar. Entristece-me
não poder continuar as minhas conversas dos sonhos
durante o dia e que as aventuras sonhadas não se tornem
realidade. Sim, Kitty, é verdade, a Anne não regula bem.
Mas não te esqueças : vivo numa época louca e em circunstâncias loucas. Que sorte a minha
poder escrever o
que penso e sinto. Se não fosse isto, sufocava, de certeza.
O que pensará o Peter de tudo isto? Oxalá possa
dizer-mo em breve! Deve ter adivinhado alguma coisa, porque aquela Anne que ele conhecia até
há pouco não
lhe agradava com certeza. Pode ele, que tanto aprecia a
calma e a paz, simpatizar com a minha vivacidade e inquietação?
Será ele o único no Mundo que conseguiu ver o
que está por detrás da minha máscara de pedra? Não é
velha regra o amor nascer muitas vezes da compaixão
e as duas coisas confundirem-se? Será o meu caso? É que
tenho tanta pena dele como de mim própria.
Não sei, palavra que não sei, como hei-de começar a
falar nisto! E se eu não sei muito menos ele, a quem tanto
custa exprimir-se. Se lhe pudesse escrever! Então ficaria
a saber o que lhe queria dizer. Mas falar é muito difícil!
Tua Anne
Sexta-feira, 17 de Março de 1944
Querida Kitty:
Uff! Pelo anexo passa uma onda de alívio. O Kraler
está livre, a Elli não consentiu que a sua constipação
piorasse e a impedisse de cumprir os seus deveres. Tudo
voltou à velha ordem. Só a Margot e eu estamos um tanto cansadas dos nossos pais. Não me
compreendas mal, por favor.
Bem sabes que não me entendo, neste momento, muito
bem com a mãe, mas do pai gosto sempre na mesma, e
a Margot gosta de ambos. Mas a gente na nossa idade
queria, por vezes, decidir sózinha sobre as suas coisas e
a sua vida, e não depender sempre dos outros. Se vou para
cima, perguntam o que vou lá fazer; não me deixam comer
sal às refeições; todas as noites, é garantido, a mãe pergunta-me se ainda não me quero despir.
Cada livro que me
apetece ler tem de ser primeiro apreciado por eles. Bem
sei que a censura não é rigorosa e posso ler quase tudo,
mas o que nos aborrece é o controle constante e também
as observações e as anotações. Pelo que me respeita, já
não sou a criancinha "beijinho aqui, beijinho ali", e acho
todos os diminutivos de carinho bastante artificiais. Em
poucas palavras: durante algum tempo aguentar-me-ia
bem sem os pais, sempre cheios de cuidados carinhosos.
Ontem a Margot disse :
- É quase ridículo! A gente já nem pode apoiar a
cabeça na mão sem que perguntem logo se temos dores
de cabeça ou se não nos sentimos bem!
É uma desilusão para nós duas verificarmos que muito
pouco resta do nosso convívio familiar tão íntimo. A causa
disto é haver entre nós relações um pouco erradas. Com
isto quero dizer que eles nos tratam como crianças e não
se lembram de que estamos mentalmente mais desenvolvidas do que as outras raparigas da nossa
idade. Embora
eu só tenha catorze anos, sei muito bem o que quero e
sei também quem tem razão. Tenho a minha opinião, as
minhas concepções, os meus princípios. Talvez isto soe a
vaidade, mas já não me sinto criança, sinto-me despegada
seja de quem for. Sei que discuto melhor do que a mãe,
que sou mais objectiva e não tão exagerada, sei que tenho
mais ordem nas minhas coisas e que sou mais habilidosa e,
por isso-, se quiseres, ri-te de mim!-em muitas coisas
superior a ela. Para amar alguém, a primeira condição é
poder admirar-admirar e respeitar. Tudo seria melhor
se o Peter fosse meu. A ele posso admirá-lo em muitas
coisas. É bom rapaz, um rapaz às direitas!
Tua Anne
Domingo, 19 de Março de 1944
Querida Kitty:
Ontem foi um dia importante para mim. Tinha resolvido
falar abertamente com o Peter. Antes de nos sentarmos
à mesa, perguntei-lhe baixinho:
-Estudas estenografia logo à tarde, Peter?
-Não, senhora-disse ele.
-Gostava de falar contigo.
-Está bem.
Por atenção, ainda fiquei, depois de termos lavado a
louça, um bocado com os pais dele. Depois fui ter com
o Peter. Ele estava do lado esquerdo da janela, eu pus-me
à direita. Fala-se melhor na penumbra do que em plena
luz. Creio que o Peter é da mesma opinião.
Falámos sobre tantas coisas que não me é possível
escrever tudo, mas foi maravilhoso, nunca vivi nada tão
maravilhoso desde que entrei nesta casa. Alguma coisa
vou reproduzir-te. Falámos dos eternos conflitos cá em
casa, que eu agora vejo com olhos diferentes, e do afastamento
íntimo dos nossos pais. Contei-lhe coisas do meu pai,
da minha mãe, da Margot e de mim. De repente, ele
perguntou-me :
- Vocês beijam-se quando dizem "boa-noite" uns aos
outros?
- Pois claro, beijamo-nos muitas vezes. Vocês não?
-Nós não. Poucas vezes tenho dado beijos a alguém.
- E no dia dos teus anos?
- Ah sim, nesse dia beijamo-nos.
Dissemos que era impossível falar sobre os nossos problemas
aos pais, e ele confessou que os dele queriam muito
ser os seus confidentes mas que não podiam sê-lo. Contei-lhe
que chorava de noite, na cama, quando tinha desgostos e ele disse-me que ia para o sótão
praguejar. Também lhe
contei que a Margot e eu só agora nos chegámos a conhecer
bem, mas que não podemos confiar tudo uma à outra
por estarmos próximas de mais. E falámos de muito mais
coisas e ele era exactamente como eu tinha imaginado.
Depois voltámos a falar de 1942, de como tínhamos
sido tão diferentes e que, ao princípio, não gostávamos um
do outro. Nessa altura ele achava-me espevitada e desagradável
e eu não encontrava nada nele que me interessasse.
Parecia-me incompreensível que ele nem sequer procurasse
namoriscar mas agora estou contente por isso mesmo.
Disse-me que procurava isolar-se, e eu expliquei-lhe que
entre a minha vivacidade e a sua calma quase não havia
diferença porque eu desejava tanto o sossego como ele e
só encontrava um bocado de paz junto do meu diário.
Ele ainda disse ter sido uma felicidade os meus pais virem
com as filhas para o anexo, e eu disse-lhe que me sentia
feliz por ele estar cá e que o compreendo na sua solidão e
nas suas relações com os pais e que gostaria de o ajudar.
- Mas tu estás constantemente a ajudar-me.
- Eu ajudar-te, em quê?-perguntei espantada.
- Com a tua alegria.
Foi a coisa mais bonita que me podia ter dito. Foi
mesmo maravilhoso. Sei agora que me aprecia como boa
camarada e, para já, sinto-me satisfeita. É-me difícil
explicar em palavras a minha felicidade e gratidão. E
tenho de te pedir desculpa, Kitty, por o meu estilo não
estar hoje à altura.
Escrevi tudo conforme me vinha à cabeça. Tenho a
sensação de partilhar com o Peter um segredo. Todas as
vezes que olha para mim, ri-se ou pisca os olhos, e é como
se tudo se iluminasse à minha volta. Oxalá que nada se
modifique e que ainda possamos passar juntos muitas horas
felizes.
Da tua grata e feliz
Anne
Segunda-feira, 20 de Março de 1944
Querida Kitty :
Hoje de manhã o Peter perguntou-me se não ia ter
com ele à tardinha e acrescentou que não o estorvava.
Disse que no quarto dele tanto havia lugar para um como
para dois. Respondi-lhe que não podia ir todas as tardes
porque os outros não achavam bem, mas ele disse que
não me devia importar com isso. Então prometi ir no
sábado e pedi-lhe que me avisasse sempre que houvesse
luar.
- Combinado-disse ele-, quando houver luar vamos
lá para baixo contemplá-lo.
Entretanto, caiu uma sombra sobre a minha felicidade.
Já desconfiava há bastante tempo de que a Margot também
gosta do Peter. Não sei se gosta muito mas, de qualquer
maneira, não me sinto à vontade. Sempre que vou para
junto do Peter, causo-lhe decerto um desgosto.
Acho muito delicado da parte dela procurar não mostrar
a sua dor. Se fosse eu, ficava fora de mim de ciúmes.
Mas a Margot diz que me não apoquente e que não tenha
pena dela.
- Mas não acho agradável que fiques assim de fora,
como uma terceira pessoa.
- Estou habituada-disse ela um tanto amargamente.
Ainda não tive coragem de contar isto ao Peter. Talvez
lhe conte qualquer dia. Por agora, temos de fazer outras
confidências. A mãe ontem ralhou-me. Mereci-o bem,
pois levei longe de mais a minha indiferença para com
ela. Hei-de fazer os possíveis para me dominar; vou tentar
ser amável e não responder torto. Também o Pim está
menos afectuoso. Pretende não tratar-me como uma criança e cai no extremo oposto: é frio de
mais. Vamos a ver o
que sai disto tudo!
Basta. Quero estar sempre a olhar para o Peter, estou
a transbordar.
Uma prova da generosidade da Margot: recebi hoje,
20 de Março de 1944, esta carta:
Anne, quando ontem te disse que não tinha ciúmes de ti só
fui 50 por cento sincera. A verdade é esta: não tenho ciúmes nem de ti nem do Peter, mas tenho
pena de mim por não ter encontrado ainda ninguém-e não vejo jeito de encontrar por enquanto -
com quem possa falar abertamente sobre o que penso e sinto. Não vos invejo por terdes
confiança um no outro. Isso compensa-te um pouco de tudo aquilo de que estás privada aqui e
que outras raparigas possuem como coisa natural.
Por outro lado sei que não me teria aproximado tanto do
Peter como tu, pois só posso fazer confidências a alguém muito
intimo, a uma pessoa que me compreenda sem ser preciso entrar
em grandes pormenores. E esse alguém tinha de ser
intelectualmente superior a mim, e não é o caso do Peter. Mas
compreendo que vocês dois se entendam muito bem. Por
isso não penses que me estás a roubar qualquer coisa ou que eu fique prejudicada, porque não é
assim.
Tu e o Peter só lucram com o vosso convívio.
A minha resposta:
Querida Margot, a tua carta foi muito gentil mas, mesmo
assim, não me sinto apaziguada e não sei se é que isto alguma
vez pode acontecer.
Não tenho tanta intimidade com o Peter como estás a
imaginar. Simplesmente sentimo-nos mais à vontade quando falamos ao fim da tarde, junto da
janela aberta, do que durante o dia, à luz do Sol.
É mais fácil murmurar os sentimentos do que dizê los em voz alta.
Suponho que sentes pelo Peter uma espécie de afeição de irmã
e que gostarias de o ajudar tal qual como eu. Talvez ainda
venhas a ajudá-lo sem que vocês tenham a intimidade que nós
sonhamos. A confiança tem de ser recíproca. Julgo que é esta a
razão por que não me posso abrir com o pai inteiramente.
Não falemos mais sobre o assunto. Se houver alguma coisa
a dizer, escreve-me. É-me mais fácil exprimir-me por escrito.
Talvez não saibas quanto te admiro. Oxalá que eu tenha dentro
de mim um pouco de bondade do pai e da tua, pois nisto é que
sois muito parecidos.
Tua Anne
Quarta-feira, 22 de Março de 1944.
Querida Kitty:
Ontem recebi esta carta da Margot:
Querida Anne:
A tua carta deu-me a impressão de que sentes remorsos quando
vais ter com o Peter para trabalhar ou falar com ele. Mas não
tens motivos para isso. O Peter não é pessoa que pudesse
servir-me de confidente. Tens razão quando dizes que o vês
como um irmão, mas... como um irmão mais novo! Dá-me sempre a
ideia de que tanto ele como eu estamos a estudar-nos
mutuamente para verificar, se nós, talvez um dia, ou talvez
nunca, poderemos conviver como irmãos. Mas por enquanto ainda
é cedo.
,Não tenhas pena de mim, por fanor. Goza a amizade que,
felizmente, encontraste.
Entretanto acho a vida cada vez mais bela. Acredita,
Kitty, o velho anexo ainda há-de assistir a um verdadeiro
grande amor. Não quero saber, por ora, se, mais tarde,
casarei com o Peter, porque não sei como ele será quando
adulto. Também não sei se depois ainda gostaremos tanto
um do outro. Que o Peter agora gosta de mim, já não
tenho dúvidas. Mas não sei bem que espécie de amor é
o seu. Ser uma boa camarada, aprecia-me como rapariga
ou como irmã? Ainda não consegui descobrir.
Quando me disse, ao falar nas zangas entre os seus
pais, que o ajudo muito, fiquei satisfeita e compreendi
que a nossa amizade tinha dado um grande passo em frente.
Ontem perguntei-lhe o que faria ele se aqui vivessem uma
dúzia de Annes que, a cada passo, fossem ter com ele.
Respondeu:
- Se fossem todas como tu, não seria nada mau.
Recebe-me sempre muito bem e vê-se que gosta de
me ver aparecer. Está a estudar francês com mais entusiasmo,
até estuda à noite na cama, depois das dez horas.
Oh, quando penso no sábado, nas nossas conversas, na
delícia de cada momento, sinto-me, pela primeira vez,
satisfeita comigo própria. Não me arrependo de nenhuma
das palavras que pronunciei, ao contrário do que sucede
quase sempre. Ele é muito bonito quando se ri e também
quando está calado, e é simpático e bom. A meu ver deve
ter ficado espantado ao verificar que, afinal, não sou a
rapariga mais superficial que existe na Terra mas sim uma
criatura sonhadora como ele e com as mesmas dificuldades
a vencer.
Tua Anne
A minha resposta
Querida Margot:
Parece-me que o melhor é deixarmos correr as coisas.
Qualquer dia o Peter e eu havemos de tomar uma decisão, de
uma maneira ou de outra. Como isto se vai passar, não
sei, mas nestas coisas só costumo pensar na própria
ocasião. Uma coisa vou fazer com certeza, caso o Peter
e eu selemos definitivamente a nossa amizade: vou
contar-lhe-e não te peço sequer licençÇa para isso
que gostas também dele e que pode contar contigo sempre que
for preciso. Não sei o que o Peter pensa a teu respeito, mas
hei-de perguntar-lhe. Tenho a certeza de que pensa o
melhor. Podes ir ter sempre connosco, a qualquer sítio
onde estejamos. Nunca nos estorvarás. E repara, ele e eu
chegámos a acordo sem termos
falado, só fazemos confidências ao anoitecer, quando
escurece...
Sê corajosa. Eu também o sou. A tua vez há-de chegar mais
depressa do que imaginas.
Tua Anne
Quinta-feira, 23 de Março de 1944
Querida Kitty:
As coisas cá no anexo vão correndo melhor. O nosso
fornecedor "negro" já saiu da prisão.
A Miep voltou ontem, a tosse da Elli melhorou, só
o Koophuis tem de ficar ainda em casa. Ontem caiu,
aqui perto, um avião. Os tripulantes conseguiram saltar,
o aparelho despenhou-se sobre uma escola. Felizmente
as crianças não estavam lá. Houve incêndio e também
alguns mortos. Os alemães metralharam os pára-quedistas.
A população ficou indignada com tamanha cobardia.
Nós, isto é, as mulheres medrosas, assustámo-nos muito.
Acho que isto de metralhar é... nojento.
Vou agora muitas vezes tomar um pouco do ar fresco
da noite no quarto do Peter. É bom estar sentada junto
dele e olhar através da janela. O sr. van Daan e o Dussel
fazem pouco quando subo.
Dizem: "A segunda pátria da Anne" ou "Não acham
que fica mal a um jovem receber senhoras no seu quarto
a estas horas e no escuro?"
O Peter mostra uma indiferença espantosa em face
de tais observações. A mãe dele anda também curiosa
e gostava de saber quais os assuntos das nossas conversas,
mas não faz muitas perguntas porque receia uma resposta
pouco amável. O Peter disse que os adultos têm mas é
inveja por sermos novos e que se aborrecem por nós não
ligarmos importância à sua má-língua. Por vezes vem cá
abaixo buscar-me, mas, apesar de procurar dominar-se,
fica sempre corado como um pimento e quase não consegue
falar. Que sorte tenho eu por não corar com tanta facilidade!
Deve ser uma maçada.
O pai diz que sou uma pretensiosa, mas não é verdade.
Sou apenas um pouco vaidosa. Até agora ninguém me
tinha dito que o meu físico era agradável, com excepção
de um rapaz da escola que me achava bonita quando
me ria. Mas o Peter fez-me ontem um autêntico cumprimento.
Vou reproduzir-te a conversa. Eu andava intrigada
por ele repetir tantas vezes:
- Ri-te mais uma vez!
Perguntei-lhe:
- Porque queres que me ria tantas vezes?
- Porque ficas muito linda. Aparecem-te covinhas
nas faces. Como é que fazes isso?
- Já nasci assim. É, de resto, a única coisa bonita
que possuo.
- Por amor de Deus, isso não é verdade!
- Escusas de me contradizer. Sei que não sou bonita.
Nunca fui nem serei.
- Não estou de acordo. Acho-te bonita.
- Não é verdade.
- Se eu to digo, podes acreditar que é mesmo.
Claro, eu então disse-lhe que o achava também bonito.
Toda a gente nos enche os ouvidos com ditos sobre a nossa
amizade. Mas não fazemos caso. As observações são todas
chochas. Esquecer-se-ão certos pais do seu tempo da juventude?
Quer-nos parecer que sim. Tomam-nos a sério
quando dizemos coisas para rir e riem-se de nós quando
falamos a sério.
Tua Anne
Segunda-feira, 27 de Março de 1944
Querida Kitty:
Na nossa "história da época do mergulho" a política
devia ocupar um capítulo grande, mas como é um assunto
que não me tem interessado muito, tenho-me descuidado
de o tratar. Por isso vou dedicar esta carta à política.
Que haja as mais diversas maneiras de pensar é coisa
evidente, que neste tempo de guerra, cheio de confusões,
se discuta constantemente, também é lógico, mas... que
as pessoas se estejam sempre a zangar por causa da
política, é estupidez.
Que apostem, riam, ralhem, que façam o que lhes
apeteça - por mim podem mesmo rebentar. Mas que não
se zanguem, pois as consequências são sempre más. As
pessoas que nos visitam trazem, não raras vezes, notícias
que não passam de boatos. A rádio, até agora, tem dito
a verdade. O Henk, a Miep, o Koophuis, o Kraler, a
Elli, todos relatam os acontecimentos conforme a sua
disposição, com todos os "up and down". O Henk ainda
é o mais sóbrio deles todos.
Aqui no anexo a disposição, no que respeita a política,
é mais ou menos sempre a mesma. Nos debates sem
fim sobre invasão, bombardeamentos, discursos de ministros,
etc. etc. ouvem-se opiniões e exclamações
"Impossível!... Por amor de Deus quem me dera que já
começassem. Quando acabará isto?... Formidável, magnífico,
não podia correr melhor..."
Optimistas, pessimistas, e não esqueçamos os realistas...
todos querem impingir as suas opimiões e, como é velha
regra, todos estão convencidos de ter razão. Uma determinada senhora aborrece-se por o marido
ter tanta confiança nos ingleses. Por sua vez o marido ataca a dita senhora por causa das suas
expressões trocistas e desdenhosas
acerca da nação que ele mais admira. Nunca se
cansam de falar neste assunto. Descobri como a coisa
funciona: é exactamente como quando se pica uma pessoa
com um alfinete e ela dá um pulo. Uso, por vezes,
este processo. Atiro uma palavra sobre politica e toda a
gente perde logo a cabeça.
Como se as emissões da "Wehrmacht" alemã e as da
B. B. C. ainda não fossem suficientes, apareceu agora
mais outra estação: a "Luftlagemeldung", por vezes fascinante,
por vezes uma desilusão. Os ingleses dão notícias
da sua força aérea sem interrupção, durante o dia e a noite;
os alemães procedem do mesmo modo para espalharem
as suas mentiras. Aqui ouve-se rádio logo pela manhã cedo
e depois, de hora em hora, até às dez da noite, por vezes
até às onze, prova evidente de que os adultos têm uma
santa paciência mas que, ao mesmo tempo, são lentos de
compreensão. (há excepções, não quero ofender ninguém).
Acho que devia bastar uma pessoa ouvir uma ou, quando
muito, duas vezes, rádio por dia. O programa dos operários,
as emissões de rádio Orange, Frank Philips, ou Sua Majestade
a Rainha-ouve-se tudo. Se não estão a comer ou a
dormir, estão sentados junto da rádio falando de comer
e de dormir e, claro está, de política. Que maçada.
Palavra, é preciso muita arte para não se ficar, desta
maneira, uma velha seca e sem interesse.
Um exemplo eloquente é um discurso de Winston Churchill,
a quem todos igualmente admiramos:
Domingo, nove horas. O chá já está pronto debaixo
do abafador. Os hóspedes aparecem. O Dussel fica à
esquerda do rádio, o sr. van Daan em frente, o Peter ao
lado, a mãe junto do sr. van Daan, a sra. van Daan atrás
deles, o Pim à mesa, a Margot e eu também. Os homens
fumam, o Peter quase adormece de tanto esforço que
faz para ouvir tudo. A mãe, num roupão comprido e
escuro e a sra. van Daan tremem por causa dos aviões
que, não fazendo caso do discurso, voam sobre a nossa
casa a caminho do Ruhr. O pai sorve o seu chá, a Margot
e eu estamos irmãmente unidas pelo Mouchi, que dorme
estendido sobre os nossos regaços. A Margot tem "bigoudis"
no cabelo, eu trago um pijama demasiado curto e apertado. Assim encontramo-nos numa
intimidade agradável,
pacífica. Mas já estou a ver o que se vai seguir. Eles
começam a ficar impacientes, querem que aquilo acabe,
já estão a bater com os pés, ansiosos por discutir sobre o
discurso. Kss, Kss, Kss... é assim que se provocam uns
aos outros até que tudo acaba em barulho e desarmonia.
Tua Anne
Terça-feira, 28 de Março de 1944.
Querida Kitty:
Podia falar mais ainda sobre a política mas hoje tenho
de contar-te uma série de outras coisas. A mãe proibiu-me
de ir tantas vezes lá para cima porque acha que a sra.
van Daan está com ciúmes. O Peter convidou a Margot
para ir também, não sei se o fez por delicadeza ou se foi
sincero. Perguntei ao pai se devo importar-me com os
ciúmes da sra. van Daan. Ele acha que não. E agora?
Minha mãe está aborrecida. Ou talvez ciumenta também,
quem sabe? O pai não tem inveja dos meus encontros
com o Peter, está contente por nos darmos tão bem. A
Margot acha o Peter simpático, mas compreende que não
se pode falar a três sobre aquilo que é apenas assunto de
dois.
A mãe supõe que o Peter anda apaixonado por mim.
Quem me dera que isso fosse verdade. Nesse caso estaríamos
quites e podíamos falar ainda mais abertamente.
A mãe diz que ele não me larga com os olhos. E tem razão.
É que nós, de vez em quando, piscamos os olhos e as
minhas covinhas agradam muito ao Peter. Mas não há
nada a fazer, não é verdade?
Uma situação difícil. A mãe contra mim, eu contra
a mãe, e o pai a fechar os olhos perante a luta silenciosa
que nós duas travamos. A mãe está triste porque, ao fim
e ao cabo, gosta de mim, e eu não estou nada triste porque
sinto que ela não me compreende. E o Peter... Não quero
renunciar ao Peter. É bom rapaz e eu admiro-o. Tudo
pode vir a ser belo entre nós. Porque é que os adultos querem
meter o nariz nisto? Felizmente que me habituei a esconder
os meus sentimentos, pois assim consigo não deixar
transparecer quanto gosto dele. Ele falará um dia? Virá a sentir a minha face contra a sua como
aconteceu no
meu sonho com o outro Peter? Ai! O Peter e o Peter são
um só, agora.
Os outros não nos compreendem, não concebem que
nos basta estarmos juntos sem dizer nada. Não sabem o
que nos atrai um para o outro. Quando acabarão estas dificuldades?
Mas, pensando bem, talvez seja melhor haver
obstáculos a vencer, porque o final será mais belo ainda!
Quando ele deita a cabeça sobre os braços e fecha os
olhos, parece uma criança; quando brinca com o Mouchi, é
meigo; quando carrega com os sacos de batatas ou com
outros pesos, é forte; quando observa os bombardeamentos
ou segue o rasto dos ladrões na escuridão, é corajoso;
mas quando é desajeitado e se sente desamparado, é simplesmente um amor. Gosto mais dele
quando me explica
coisas do que quando quer aprender comigo. Achava bem
que ele fosse sempre superior a mim.
As mães não me importam. Se, ao menos, ele falasse!
Tua Anne