O Diário de Anne Frank - On line Parte 5

Segunda-feira, 9 de Agosto de 1943
Querida Kitty:
Vou continuar com o boletim. O nosso jantar: o
sr. van Daan é o primeiro a servir-se e serve-se abundantemente
de tudo... isto é, se houver coisas ao seu paladar.
Fala sempre, mete-se em tudo, impinge as suas opiniões
e depois de as ter impingido não há ninguém que lhas
possa modificar. Ai daquele que se atreva a contrariá-lo.
Bufa como um gato... e se alguém se atreve uma vez, não
fica com vontade de repetir. Só ele é que tem opiniões
certas, só ele é que sabe tudo! É um finório, isto não se
lhe pode negar, mas a sua presunção é qualquer coisa de
descomunal.
A ilustre senhora: o melhor seria eu nem falar nela.
Por vezes, principalmente quando está de mau génio, nem
me apetece olhar para ela. Vistas bem as coisas, é quase
sempre ela quem provoca as discussões, mesmo que não
sejam sobre a sua pessoa. Por amor de Deus, isso não!
Todos evitam zangar-se com ela. Mas o que eu queria
dizer é que a sra. van Daan provoca as discussões. Provocar,

sim, esta arte conhece-a a fundo! Provocar a sra. Frank
e a Anne! Com o pai e com a Margot a coisa já é mais
difícil, porque eles não lhe dão motivo.
à mesa, a sra. van Daan não fica nunca em desvantagem,
embora imagine que fica. As batatas mais pequenas, os
pedaços mais delicados, apanhar sempre o melhor, é esta
a sua divisa! Os outros que se arranjem. O essencial é que
ela tenha conseguido aquilo que queria! E nunca mais
se cala!
Tanto se lhe dá como se lhe deu se as pessoas estão
a ouvir ou não interessadas. Está convencida de que as suas
palavras douradas são um gozo para toda a gente. Sempre a sorrir com "coquetterie", pretende
saber
todas as coisas, dá, maternalmente, conselhos e pensa que
está a causar a melhor das impressões. Mas examinando-a
bem, descobre-se logo que atrás de tudo aquilo há muito
pouca coisa.
característica número 1 - aplicação. Segundo - alegria. Número 3 - "coquecterie". E por vezes
boa apresentação. Petronella
van Daan.
O terceiro companheiro de mesa, o jovem sr. van Daan,
refila pouco. i não chama a atenção sobre si.
O seu estômago deve ser uma espécie de tonel das
Danaides, pois mesmo quando a comida é forte e depois
de ter consumido uma porção fantástica, afirma, com a
cara mais séria deste mundo, que teria sido capaz de comer
o dobro.
o quarto é a Margot. Fala pouco e come como um passarinho.
As únicas coisas que lhe escorregam bem pela garganta
abaixo são hortaliças e frutas. "Amimalhada", é a
sentença dos van Daans. Mas a nossa opinião é outra:
"Falta de ar e de movimento".
Ao lado a mãe. Come bem, fala muito e com gosto.
Ninguém a tomaria por dona de casa como à sra. van Daan.
E porquê? Porque a ilustre senhora é que cozinha e a
mãe só limpa e lava a louça.
Somos 6 e : a respeito do pai e de mim não vou dizer
muita coisa. O Pim é o mais modesto de todos à mesa.
Olha primeiro à sua volta, a ver se os outros estão bem
servidos. Não necessita de nada em especial e tudo o que
é bom vai para as filhas. É o exemplo da bondade e da
grandeza de alma... e ao seu lado fica sentado o feixe de
nervos do anexo!
O sr. Dussel: serve-se mas não olha para ninguém.
come e não fala. Mas se é absolutamente indispensável
falar, então escolhe o tema "comida" por ser um tema
que não provoca conflitos, quando muito dará lugar a
algumas fanfarronices. Consegue engolir porções gigantescas,
nunca diz que não, tanto faz que a comida seja
boa como má. Puxa as calças demasiado para cima, usa
um colete vermelho e chinelos pretos e sobre o nariz
pousam-lhe uns óculos de armação escura. É assim que se
apresenta na mesa de trabalho, às refeições, durante a sesta e quando vai ao seu lugar favorito,
uma, duas, Três, quatro ou cinco vezes por dia está algum de nós em frente da porta do W.C.
saltando de impaciência de um pé para o outro, quase sem poder esperar mais.
Julgas que isso o comove? Nem pensar em tal! Podem
registar-se sessões dessas das sete e um quarto às sete e
meia, da meia-hora à uma, das duas às duas e um quarto,
das quatro às quatro e um quarto, das seis às seis e um
quarto e das onze e meia à meia-noite. Disso não desiste
e nem a voz mais suplicante, a profetizar um acidente,
o pode comover.
Um outro, não é pròpriamente um membro da família
do anexo, mas companheira de casa e de mesa, a Elli.
Tem bom apetite, não é esquisita e nunca deixa ficar
restos no prato. Fica contente com a coisa mais insignificante
e dá-nos também prazer com isso. Está sempre
alegre e de bom humor, é prestável e simpática, enfim
só tem boas qualidades.
Tua Anne
Terça-feira, 10 de Agosto de 1943
Querida Kitty:
Uma ideia nova! Converso à mesa mais comigo própria
do que com os outros, o que tem duas vantagens: provàvelmente
todos ficam contentes quando falo pouco e, além
disso, não preciso de me aborrecer com as opiniões dos
outros. Como acho as opiniões dos outros quase sempre
tolas e só as minhas certas, o melhor é não dizer nada.
Da mesma maneira procedo quando há uma comida de
que não gosto. Imagino que aquilo é muito bom, finjo
mesmo que assim penso, e antes que consiga reflectir, já
engoli tudo. Pela manhã quando me levanto-outra coisa
desagradável - salto da cama e digo para comigo:
"Vais-te já deitar outra vez". Tiro os cortinados escuros da
camuflagem, respiro um pouco de ar fresco pelas fendas
até ficar bem acordada. Quando depois tiro as roupas da
cama, já não sinto a tentação de deitar-me.
Sabes como a mãe chama a isto? "A arte de viver".
Uma expressão patusca, não achas?
Há uma semana que não sabemos as horas exactas,
porque levaram o nosso tão querido e fiel sino da torre
Oeste. Supomos que querem transformá-lo num canhão.
Quase nunca sabemos que horas são. Espero que descubram
alguma coisa que nos imdique o tempo e substitua também
o lindo som. É preciso que o quarteirão não sinta tanto
a falta do seu sino.
Seja como for que eu esteja, lá em cima ou cá em
baixo, todos olham sempre com admiração para os meus
pés. É que os meus pés ostentam sapatos novos. A Miep
conseguiu comprá-los em segunda mão por vinte e sete
florins e meio. São de camurça cor de vinho e têm um salto
largo e bastante alto. É como se fossem umas andas e pareço ainda mais alta do que sou. Ontem
tive pouca
sorte. Piquei-me no polegar direito com uma agulha grossa.
Não pude descascar as batatas, e a Margot teve de fazê-lo
por mim. Depois dei com a testa contra a porta do armário
e tão forte foi a pancada que quase caí ao chão. E como
aquilo não se passou sem estrondo, apanhei um raspanete
ainda por cima. Não pude refrescar a testa porque estávamos
proibidos de abrir as torneiras. Agora ando com um
galo enorme sobre o olho direito. E para cúmulo entalei
o dedo pequeno do pé direito no aspirador. Mas as minhas
outras dores eram já tão grandes que não liguei a esta
nova. Fui tola porque a ferida infectou, tenho de andar
com o pé ligado... e não posso calçar os meus lindos sapatos.
O Dussel fez-nos indirectamente correr perigo de vida.
Pediu à Miep-que nada sabia destas coisas-para lhe
trazer um livro que está proíbido, um panfleto contra
Hitler e Mussolini. Precisamente esta manhã uma moto
das SS esbarrou contra a bicicleta dela. Ela perdeu a
cabeça e gritou-lhes: "Patifes!", mas, felizmente,
pôs-se a andar. O melhor é a gente não imaginar o que teria
acontecido se a tivessem levado ao posto da polícia.
Tua Anne
Quarta-feira, 18 de Agosto de 1943
Querida Kitty:
Hoje vou descrever-te o nosso dever quotidiano de descascar
as batatas.
Um de nós vai buscar os jornais (para as cascas), outro
as facas (e, evidentemente, fica para si com a melhor),
outro traz as batatas e o último, um panelão com água.
O sr. Dussel começa, descasca bastante mal, mas, sem
interrupção, olha, de vez em quando, para a direita e
para a esquerda, porque quer verificar se os outros
trabalham tão bem como ele. Chega à conclusão de que isso
não sucede.
-Anne, não vês? Eu pego na faca assim, e descasco
de cima para baixo. Não, assim não! Olha, assim é que
deve ser!
-Acho o meu modo mais cómodo-ouso dizer finalmente.
-Olha que como eu faço é melhor, podes crer. Mas,
afinal, que me importa a mim? Faze como entenderes.
Continuamos a descascar. Olho de esguelha para o
meu vizinho da esquerda. Está a abanar a cabeça, por
minha causa, suponho. Mas não me diz nada. Continuo
a descascar. Depois olho para o pai que está em frente
de mim. Para ele, descascar batatas não é uma brincadeira
mas sim um trabalho de precisão. Quando o pai está a
ler, tem uma ruga profunda na testa, mas quando descasca
batatas ou quando ajuda a preparar a hortaliça,
então dá a impressão de ser impermeável a tudo o que
acontece à sua volta. Nestas ocasiões põe a sua cara "para
batatas", e nunca entregará uma só que não esteja descascada
impecàvelmente. Com uma cara assim também
seria impossível não se fazer coisa perfeita, e era ELe sempre a trabalhar. levanto os olhos de
quando
em quando, e sei logo tudo, Não tira os olhos dele, mas
chama sobre si a atenção do Dussel, pisca-lhe os olhos.
ele Finge não dar por nada. Depois ela como que pensa
- bem, isto não está mau. - E Ele contimua a descascar. Ela
ri-se, mas também não deixa de descascar. A sra. van Daan diz: - Porque não pões o avental?
-Não me sujo.
E ela continua a cismar.
- Porque não te sentas?
-Estou muito bem assim, gosto de estar de pé.
Novo silêncio.
- Putti, vês, agora fizeste saltar a água.
- Está bem, Mammi, hei-de ter mais cautela.
E ela a inventar outro tema.
-Oh, Putti, dize lá, porque é que os ingleses deixaram
de bombardear?
-por causa do mau tempo, suponho.
-Mas ontem esteve bom tempo e eles não vieram.
-E se falássemos de outras coisas?
-Mas porque não há-de a gente falar sobre isto?
-Porque não.
-Mas porquê?
-Cala-te Mammi!
-O Frank nunca deixa de responder à mulher quando ela quer saber alguma coisa.
O sr. van Daan não responde.
ela retoma a conversa Depois de uns minutos de silêncio:
- Nunca mais fazem a invasão.
O marido fica vermelho de raiva. Ela bem o vê e cora.
Agora a bomba rebenta:
- Cala a boca! Caramba, caramba.
Eu nem olho para ninguém. Minha mãe mal pôde esconder o riso
Cenas destas ou semelhantes repetem-se quase todos os dias, a não ser que o casal esteja
amuado, o que é de grande vantagem, porque, ao menos, não diz nada.
Tenho de ir ao sótão buscar mais batatas. Vejo o
Peter a catar o gato. Quando me aproximo, ele ergue os
olhos. O gato, ao perceber que não está preso, dá um pulo
e foge pela janela. O Peter roga pragas, eu rio e desapareço.
Tua Anne.
Sexta-feira, 20 de Agosto de 1943
Querida Kitty:
às cinco e meia em ponto os operários saem do armazém
e a nossa liberdade recomeça.
Quando a Elli sobe, sabemos que já não há perigo e
começamos a mexer-nos à vontade. Quase sempre vou
com ela para cima, onde ficou guardada uma lambarice.
Mal a Elli se senta, logo a sra. van Daan começa a
enumerar os seus desejos:
- Ai, Elli!, eu gostava tanto de...
A Elli pisca-me os olhos. É raro alguém do escritório
aparecer lá em cima sem que a sra. van Daan deixe de ter
algum desejo. É esta a razão por que ninguém gosta de
subir até ao andar dos van Daans.
Seis menos um quarto. A Elli deixa-nos e eu vou descer
à cozinha, depois entro no escritório particular, abro a
porta da carvoeira ao Mouchi, que quer ir para lá caçar
ratos. Por fim vou ao escritório do sr. Kraler, onde o
sr. van Daan está a examinar as pastas e as gavetas para
ver a correspondência do dia. O Peter vai buscar a chave
do armazém e também o Bochi. O Pim leva a máquina
de escrever para cima. A Margot procura um sítio calmo
para se entregar aos trabalhos do escritório. A sra. van Daan
põe um panelão de água a ferver; a mãe está a descer
com uma panela de batatas. Cada um cumpre a sua
obrigação.
O Peter volta do sótão. A sua primeira pergunta é
se não se esqueceram de pôr o nosso pão no escritório do
Kraler. Esqueceram-se! Então ele não tem outro remédio
senão ir procurá-lo no escritório grande. Gatinha como
os bebés para que ninguém de fora o possa ver. Abre o
armário, tira o pão e desaparece, isto é, quer desaparecer, mas durante aquele passeio, o Mouchi
saltou por cima
dele e depois escondeu-se debaixo da escrivaninha. O Peter
procura em todos os cantinhos. Por fim, descobre o gato.
Sempre de gatinhas procura apanhar o bicho pelo rabo.
O gato bufa, o Peter suspira. Mouchi senta-se à janela e
lambe o pêlo. Como última tentativa, o Peter estende-lhe
um pedaço de pão. E agora a coisa dá resultado. Mouchi
deixa-se "levar", vai atrás dele, e a porta pode fechar-se.
Eu estive a observar todo o espectáculo através de
uma frincha. Depois voltei ao meu trabalho. Tac, tac, tac!
Bater três vezes, é sinal de que o jantar está pronto!
Tua Anne.
Segunda-feira, 23 de Agosto de 1943
Querida Kitty:
Continuação do boletim:-O relógio dá as nove horas
da manhã. A mãe e a Margot estão nervosas.
- Ghut! Pai... Otto, chut... Pim! São nove horas,
fecha a torneira!
-Não pises o chão dessa maneira!
É assim que avisam o pai, que ainda está no quarto
de banho. às oito e meia ele tem de estar no quarto.
E nem mais uma gota de água! Não utilizar o W. C, não
andar de um lado para o outro, silêncio absoluto. Se ainda
não houver gente no escritório, os ruídos ainda ecoam
mais fortes no armazém.
Lá em cima, os van Daans abrem a porta e batem
três vezes no chão:
-A papinha para a Anne está pronta!
Subo num instante para ir buscar a minha tijelinha
de cachorro. Depois ando numa roda viva: pentear, despejar
o "vaso", pôr a roupa da cama no sítio. E silêncio,
o relógio deu horas!
A sra. van Daan ainda se arrasta de chinelos pelo
quarto, e o marido também. Depois não se ouve mais nada.
Se cá estivesses podias agora presenciar uma linda
cena familiar. Eu começo a ler ou a escrever. Também
a Margot e os pais gostam de aproveitar esta meia hora
de calma para a leitura. O pai pega, já se vê, no seu querido
Dickens e senta-se na borda da cama que range sempre
e que tem colchões que já nem o nome de colchões merecem.
Os dois "edredons" que lhe queremos dar, recusa-os :
-Não preciso. Assim estou muito bem.
Uma vez pegado na leitura, já não se interessa por
mais nada. Por vezes ri-se, procura ler baixinho uma
passagem à mãe. Mas ela diz :
-Agora não, por favor. Não tenho tempo.
Ele fica um bocadinho desapontado. Mas logo que
descobre outra passagem engraçada, tenta novamente:
-Mãezinha, isto tens de ouvir!
A mãe está na cama de armar, lê, costura, faz malhas
e estuda um bocado. De repente ocorre-lhe uma ideia e
ela não pode guardá-la:
-Anne, sabes... Margot, toma nota.
Uns minutos de silêncio. Depois a Margot fecha ruidosamente
o seu livro. O pai cerra as sobrancelhas num arco
muito patusco, mas logo a seguir aparece a ruga de leitura,
sinal de que ele está mergulhado no livro. A mãe, então,
começa a conversar baixinho com a Margot. Curiosa,
escuto.
Por fim o Pim também escuta... Nove horas. Pequeno
almoço!
Tua Anne.
Sexta-feira, 10de Setembro de 1943
Querida Kitty:
Quase sempre que te escrevo, alguma coisa aconteceu
e, de um modo geral, alguma coisa desagradável. Mas
desta vez posso contar-te um acontecimento simpático.
Na quarta-feira (8 de Setembro) estávamos todos, às
sete horas da tarde, a ouvir rádio.
-Here follows the best news of the whole war. Italy
has capitulated!
A Itália capitulou incondicionalmente.
às oito começou a emissora de Orange :
- Ouvintes! Depois de eu, há uma hora, ter lido as
notícias do dia, recebemos a maravilhosa notícia da capitulação incondicional da Itália! Deitei ao
cesto dos papéis com o maior prazer as notícias ultrapassadas.
Tocaram "God save the king", "Star spangled banner"
e também a "Internacional". A emissora de Orange foi,
como de costume, animadora, mas não demasiadamente
optimista.
Estamos preocupados por causa do sr. Koophuis. Como
sabes, gostamos todos muito dele. Embora esteja adoentado
e tenha dores, e embora não possa comer grande coisa e
tenha de ter muita cautela consigo, continua sempre
animado, amável e admiràvelmente corajoso.
-Quando o sr. Koophuis entra, nasce o Sol - costuma
dizer minha mãe e tem muita razão. Agora tem de ser
operado aos intestinos e não pode aparecer durante quatro
semanas. Havias de ver quando se despediu. Não como
alguém que vai ser operado, mas como se simplesmente
saísse para fazer compras.
Tua Anne.
Quinta-feira, 16 de Setembro de 1943
Querida Kitty:
à medida que o tempo vai passando, mais mal se vão
dando as pessoas umas com as outras. Quase já ninguém
ousa abrir a boca à mesa (a não ser para meter a
comida), pois tudo o que se diz é levado a mal ou mal
entendido. Eu, por mim, engulo todos os dias "Valeriana-Dispert" por causa das depressões, mas
isto não me impede de me sentir ainda mais mal disposta no dia seguinte.
Ai, se pudesse rir, só uma vez, rir de todo o coração,
seria melhor remédio do que dez dessas pastilhas brancas.
Mas já nem sabemos o que é rir assim. Por vezes tenho
receio de ficar muito feia depois de sair daqui e vejo-me
com uma boca comprimida e rugas de preocupações.
Os outros não se sentem melhor do que eu : todos aguardam
o Inverno com medo.
Mais uma coisa pouco animadora : um dos homens
do armazém, um certo M., ficou desconfiado a respeito
do anexo. Isto podia não ter grande importância se ele
não fosse tão curioso e se se deixasse convencer fàcilmente.
Também não sabemos a que ponto é de confiança.
Um dia o sr. Kraler quis ser mais cauteloso: à uma
hora menos dez pegou no chapéu e na bengala, saiu e
entrou na drogaria da esquina. Cinco minutos depois
voltou e subiu, com mil cautelas, como um ladrão, a
escada do anexo. à uma e um quarto quis ir-se embora,
mas encontrou a Elli, que o impediu, porque o tal M.
estava no escritório. Kraler voltou para cima e ficou até
à uma e meia. Depois descalçou os sapatos, pegou neles na mão e, em meias, caminhou até à
porta do sótão, pisou
cautelosamente os degraus e depois voltou da rua para
o escritório. A Elli que conseguira, entretanto, despachar
o M. do escritório, veio para avisar o Kraler. Mas este
já estava a fazer as suas acrobacias na escada. O que
terão pensado as pessoas na rua que o viram calçar as
botas?
Tua Anne
Quarta-feira, 29 de Setembro de 1943
Querida Kitty:
A sra. van Daan faz anos. Oferecemos-lhe, além de
- um bónus para queijo, carne e pão, um frasco de compota.
O marido, o Dussel e os nossos queridos protectores também lhe ofereceram, além de flores,
coisas de comer.
Sinal dos tempos!
Esta semana a Elli teve uma crise de nervos. Tem de[
andar sempre de um lado para o outro para ir buscar
isto ou aquilo, muitas vezes mandam-na trocar as coisas
por ela se ter enganado. E se a gente se lembra de que ela
tem muito que fazer no escritório, que o Koophuis está
doente e a Miep na cama por causa de uma constipação,
que ela própria torceu um pé, que tem aflições por causa
do namorado de quem o pai não gosta, não é difícil imaginar que já não aguenta mais.
Consolámo-la e pedimos-lhe
que, sempre que não tiver tempo para nós, no-lo diga
calma e friamente. Assim, ao menos, a lista das compras
ficará diminuída.
Deve ter havido sarilho com os van Daans. O pai
anda furioso, mas não sei porquê. Vai haver zaragata,
com certeza. Quem me dera estar longe daqui, quem me
dera poder fugir! Aquela gente dá cabo de nós!
Tua Anne.
Domingo, 17 de Outubro de 1943
Querida Kitty :
, graças a Deus! Ainda está pálido,
Koophuis voltou
mas já trabalha e está a tentar vender roupas dos van Daans.
É uma coisa bem penosa, porque se lhes acabou o dinheiro.
A senhora tem muitas coisas mas não quer desfazer-se
delas e um fato do marido custa a vender, pois não querem
dar o que ele pede. Mas ainda há-de haver trapalhada.
Provàvelmente é o casaco de peles da senhora que vai ser
sacrificado! Por causa disso houve grande discussão lá em
cima, depois seguiu-se um período pacífico e agora só se
ouve:
-Oh, meu querido Putti!
Eu já estou meio tonta de tantas discussões e das palavras
feias que se ouvem ùltimamente na nossa casa honrada.
O pai anda de lábios cerrados e se a gente lhe dirige
a palavra, assusta-se como se estivesse com medo de algum
acontecimento desagradável em que tivesse de intervir.
A mãe, de tanta aflição, tem manchas vermelhas na cara,
a Margot queixa-se de dores de cabeça, o Dussel não
pode dormir, a sra. van Daan lamenta-se todo o dia e
eu estou completamente desconcertada. Para dizer a
verdade : há ocasiões em que me esqueço de quem são os que
andam zangados uns com os outros e quem são os que
já fizeram as pazes. A única distracção é o trabalho, e eu
trabalho muito!
Tua Anne
Sexta-feira, 29 de Outubro de 1943
Querida Kitty:
Houve "tempestade" lá em cima. Como eu já te contei,
eles não têm dinheiro. Um dia o Koophuis falou-lhes de
um negociante de peles de quem é amigo. O sr. van Daan,
então, sempre se resolveu a vender o casaco da mulher.
É de pele de coelho e tem dezassete anos de uso. Receberam
trezentos e setenta e cinco florins por ele. É bem pago.
A sra. van Daan quis guardar o dinheiro para comprar
coisas novas mais tarde. O marido com muito custo sempre
conseguiu convencê-la de que o dinheiro era absolutamente
necessário para o sustento. Não podes imaginar
como ela ralhou, gritou, vociferou e bateu com os pés no
chão... E nós cheios de pavor. Estávamos os quatro com
a respiração suspensa, ao pé da escada, prontos para
separar aqueles dois furiosos. Cenas assim são tão aflitivas
que me fazem chorar, de noite, quando estou na cama,
grata, no entanto, por ter uns momentos de solidão.
O sr. Koophuis já tem de ficar novamente em casa.
O estômago não o deixa em paz e ainda não se sabe se
a hemorragia acalmou por completo. Foi ao contar-nos
que se sentia mal e que ia para casa que, pela primeira
vez, o vimos deprimido. Eu, por mim, não estou doente,
só não tenho apetite. Mas estão sempre a dizer-me :
-Estás com mau aspecto.
Tenho de confessar: a minha família esforça-se muito
para que eu tenha saúde e robustez. Dão-me, alternadamente,
glucose, levedura, cálcio, óleo de fígado de bacalhau,
para me fazer aguentar. Mas nem sempre consigo
dominar os meus nervos. É aos domingos que os sinto
mais, pois nesses dias reina uma má disposição geral, uma
espécie de sonolência pesada como chumbo. Não se ouvem ruídos lá fora e qualquer coisa parece
estar para acontecer.
É como se pesos grandes me puxassem. Uma voz gritasse na
escuridão, insondável.
indiferentes, até o pai, mas
Nessa altura todos me são muito amigos, sobretudo a mãe
e a Margot. Ando por toda a casa, de um quarto
para o outro escada acima, escada abáixo. Sinto-me como
um pássaro a quem cortaram as asas ebate contra as grades da
gaiola estreita.
em mim soa como que um grito: para fora! Tenho saudades,
-Quero sair. Sair daqui, para o ar livre, quero poder rir à
vontade!Não há resposta! Mas sei que esses gritos não
têm poder, e deito-me na cama para matar estas horas tão
terrivelmente silenciosas e cheias de angústia.
Tua Anne
Quarta-feira, 9 de Novembro de 1943
Querida Kitty :
O pai, cuja constante preocupação é a de nos distrair e,
ao mesmo tempo, de nos cultivar, mandou vir o prospecto
de um instituto que dá lições por correspondência. A Margot
já folheou o calhamaço por três vezes mas ainda não
,encontrou o que queria. Julgava ela que tinha de pagar
o curso com o seu dinheiro da semana e, por isso, achava
tudo demasiado caro. Mas o pai mandou vir uma lição
para experimentarmos : latim para principiantes. A
Margot atirou-se ao trabalho e mandou depois vir o curso
completo.
Embora eu gostasse de aprender latim, acho-o ainda
difícil de mais.
Mas para que eu também possa aprender alguma coisa
nova, o pai pediu ao sr. Koophuis que procurasse uma
bíblia para crianças. Quer que eu fique a conhecer o
Novo Testamento.
-Queres dar à Anne uma bíblia para a festa de Ghanuca?
-perguntou Margot admirada.
-Sim... enfim... acho que o S. Nicolau será a melhor
ocasião para isso. Jesus não liga lá muito bem com a festa
de Ghanuca-foi a resposta do pai.
Estragou-se o aspirador. Agora tenho eu de limpar o
tapete, todas as noites, com uma escova velha. E isto
dentro de um quarto com as janelas fechadas, com a luz
eléctrica acesa, onde está um calor sufocante.
-Isto não acaba bem-pensei de mim para mim.
A mãe começou a ter dores de cabeça por causa do pó
que se fixava no quarto. O pó, ao fim e ao cabo, não
desaparecia e o pai achava que toda a sala tinha um aspecto
sujo. A ingratidão é a paga de muita gente.
Agora há menos discussões, só o Dussel é que anda
zangado com os van Daans. Quando nos fala da sra. van
Daan diz "a vaca estúpida" ou "a velha cabra.", e ela, em
contrapartida, chama-lhe a ele, que tem um curso superior
e é imfalível, "a solteirona" ou "o solteirão chéché"! Um
burro a chamar burro a outro!
Tua Anne
Segunda-feira, 8 de Novembro de 1943
Querida Kitty:
Se te desses ao trabalho de ler todas as minhas cartas
umas atrás das outras, verias que as escrevi com as mais
diversas disposições. É aborrecido ser-se dependente da
disposição de momento, aqui no anexo. Mas isto não
acontece só comigo, é o mesmo com todos os outros.
Depois de ter lido um livro e ainda estar debaixo de uma
impressão muito forte, tenho de me meter, a mim própria,
na ordem antes de aparecer a alguém, senão eram capazes
de me acharem maluquinha. Decerto já estás a perceber
que me encontro de novo num período de abatimento e
de falta de coragem. E nem posso explicar porquê, pois
não há nenhuma razão especial. Creio tratar-se de uma
certa cobardia que nem sempre consigo vencer. Hoje, à
tardinha, quando a Elli estava aqui, tocaram a campainha
permanentemente e com força. Fiquei logo pálida, tive
dores de barriga, palpitações e muito medo. De noite,
deitada na cama, tenho visões terríveis. Vejo-me na prisão,
sòzinha, sem meu pai e minha mãe. Por vezes ando a
vaguear por qualquer parte, não sei onde, ou vejo o anexo
a arder, ou eles vêm, de noite, para nos buscar. Sinto tudo
isto como se fosse realidade e a ideia de que me vai acontecer alguma catástrofe não me larga.
A Miep diz, por vezes, que tem inveja de nós por
termos aqui calma e sossego. Em princípio, ela podia ter
razão, mas não se lembra de que vivemos sempre com
medo. Não consigo já imaginar que o Mundo possa voltar a
ser para nós o que era dantes. Digo muitas vezes : "Depois
da guerra". Mas digo-o como se se tratasse de um castelo
no ar e não de um tempo que se tornará, algum dia, para
mim realidade. Quando penso na nossa vida em casa, na escola, com todas as suas alegrias e
sofrimentos, em tudo
o que era "antigamente"; tenho a sensação de não ter sido
eu quem viveu essas coisas mas sim uma estranha, alguém
totalmente diferente.
Vejo-nos a nós aos oito do anexo, numa pequena
,
nuvem, clara e azul, no meio de outras nuvens, pesadas e
escuras. O nosso lugar ainda é seguro, mas as nuvens estão
a ficar cada vez mais densas e o círculo que nos separa
do perigo tão próximo, vai-se apertando. Por fim ficamos
todos de tal maneira envolvidos na escuridão que, com o
desejo desesperado de encontrar uma saída, esbarramos
uns contra os outros. Olhamos para baixo onde os homens
lutam, olhamos para cima onde há felicidade e paz. Mas
estamos isolados por uma massa grossa e impenetrável que
nos barra todos os caminhos e nos encerra, como um muro
invencível, um muro que nos destruirá quando a hora
soar. E eu só posso clamar e suplicar: - Oh, círculo,
círculo, alarga-te e abre-te para nós!
Tua Anne
Quinta-feira, 11 de Novembro de 1943
Ode à minha caneta de tinta permanente
"In memoriam"
A minha caneta foi para mim, sempre, uma coisa
preciosa. Apreciava-a imenso por ter um bico grosso e
redondo, porque só escrevo bem com bicos assim. Ela
viveu uma vida de caneta bem longa e interessante, que vou aqui descrever.
Quando fiz nove anos, chegou (embrulhada em algodão
em rama) como "amostra sem valor". Foi a avòzinha que,
nessa altura, ainda vivia em Aachen, que me enviou uma
prenda tão generosa. Estava eu precisamente deitada na
cama, com gripe, e lá fora uivava o vento de Fevereiro.
A gloriosa caneta vinha num estojo de couro vermelho.
Mostrei-a, logo que pude, a todas as amigas e conhecidos.
Eu, Anne Frank, possuidora orgulhosa de uma caneta de
tinta permanente!
Quando fiz dez anos, recebi licença de a levar para a
escola, e a professora deixou-me escrever com ela.
No ano seguinte o meu tesouro teve de ficar em casa
porque a directora de ciclo, no liceu, só permitia canetas
vulgares.
Quando aos doze anos entrei no Liceu judaico, deram-me
um estojo novo com duas divisões. Uma era para
a lapiseira. Esse estojo tinha um fecho "èclair" e era muito
vistoso.
Quando fiz treze, a caneta veio comigo para o anexo
e foi a minha companheira fiel quando te escrevia a ti ou
quando trabalhava. Agora que tenho catorze, chegou ao
fim da sua existência. Na sexta-feira saí do meu quarto para escrever junto dos outros, na mesa
da sala. Mas
afastaram-me sem piedade, pois a Margot e o pai estavam
a estudar latim. A caneta ficou em cima da mesa. A Anne
teve de contentar-se com um cantinho onde a fizeram
"dar lustro" aos feijões, quer dizer, limpar feijão vermelho
que tinha bolor.
às seis menos um quarto varri o chão e deitei o lixo
com os restos dos feijões no fogão. Ergueu-se uma chama
colossal e eu fiquei satisfeita por isso, porque o fogo tinha
estado quase apagado. "Os latinos" acabaram de estudar
e eu recebi licença para voltar à mesa e continuar o meu
trabalho. Mas a caneta não estava lá. Procurei-a por todos
os lados, a Margot ajudou-me, depois também ajudou a
mãe, o pai e o Dussel, mas a minha amiga fiel tinha
desaparecido sem deixar vestígios.
- Se calhar, deitaste-a ao fogão com os feijões - disse
a Margot.
- Não posso acreditar - disse eu.
Mas quando a hora do jantar chegou sem a caneta ter
regressado, já não tínhamos dúvidas: ardeu! E o celulóide
que arde tão bem! A triste suposição confirmou-se, quando
na manhã seguinte o pai encontrou o "clip" na cinza.
Do bico de ouro não restava nada.
-Provàvelmente derreteu com o lixo-disse o pai.
Só me resta uma consolação : a minha caneta foi
cremada, precisamente como eu queria que um dia me
fizessem!
Tua Anne
Quarta-feira, 17 de Novembro de 1943
Querida Kitty:
Modificações tremendas. Em casa da Elli há difteria
e ela não pode vir cá durante seis semanas por causa do
contágio! Agora tudo se tornou complicado cá em casa
no que respeita aos víveres e às outras compras, não falando
no nosso desgosto pessoal. O sr. Koophuis ainda está de
cama e há três semanas que está só a leite e a papas.
O Kraler tem imenso que fazer! A Margot tinha enviado
ao professor os seus exercícios de latim que vieram devolvidos
com as dvidas correcções. O professor parece ser
um homem amável e também espirituoso e, com certeza,
está todo contente por ter uma aluna tão boa. A correspondência fáz-se em nome da Elli.
O Dussel anda sorumbático. Ninguém sabe porquê.
Aquilo começou por ele nem falar com o sr. van Daan
nem com a senhora. Todos nós reparámos nisso. Passados
uns dias, a mãe falou a sós com ele, dizendo-lhe que não
era bom arranjar sarilhos. A sra. van Daan era capaz de
tomar a coisa muito a peito. O Dussel respondeu que o
sr. van Daan tinha começado a ignorá-lo e a deixar de
lhe falar e agora não era ele, Dussel, quem havia de romper
o silêncio. Mas.ontem, 16 de Novembro, fazia um ano que
o Dussel entrou cá no anexo. Por esse motivo ofereceu
flores à minha mãe. A sra. van Daan já tinha, ùltimamente,
dado a entender que, em tais ocasiões, as pessoas costumam
oferecer alguma coisa. E, agora, ele ignorou-a completamente.
Em vez de agradecer o altruísmo com que foi cá
recebido, calou-se.
Quando eu lhe perguntei, da parte da manhã, se lhe
devia dar os parabéns ou antes os pêsames, respondeu-me
que tanto lhe fazia. A mãe, que queria fazer o papel de
anjo da paz, não conseguiu nada e, assim, tudo ficou na
mesma.
O homem é grande de espírito
Mas mesquinho nas acÇões.
Tua Anne
Sábado, 27 de Novembro de 1943
Querida Kitty:
Ontem à noite, antes de adormecer, tive uma visão
nítida: a minha amiga Lies Estava diante de mim, coberta
de trapos e com o rosto escaveirado. Com os seus grandes
olhos contemplou-me,
triste e acusadora, como se quisesse dizer :
-Anne, porque é que me abandonaste? Ajuda-me!
Salva-me deste inferno.
Mas eu não posso ajudá-la. Os outros têm de sofrer
e de morrer e eu não passo de um espectador; só posso
pedir a Deus que não os deixe morrer e que me devolva
os meus amigos. Sim, foi precisamente a Lies que eu vi
e isto compreende-se. Sempre a julguei mal, eu era ainda
muito infantil e não podia compreender as suas preocupações.
Ela gostava da sua nova amiga e tinha receio que
eu lha roubasse. Ai, como deve ter sofrido! Sei-o agora,
pois já conheço melhor tais ressentimentos!
Por vezes pensava nela passageiramente, depois mergulhava
com egoísmo nos meus divertimentos e
preocupações.
Não procedi bem e foi por isso que ela olhou para mim
assim, de rosto pálido e de olhos suplicantes, tão tristes.
Oh!... se pudesse dar-lhe uma ajuda!
Oh! Meu Deus, tenho aqui tudo o que necessito e ela
foi arrastada para o destino mais duro que há! Tem sido
pelo menos tão crente como eu, e só desejava o bem. Porque
é que fui eleita para viver e ela para morrer? Qual é a
diferença entre nós? Porque é que estamos tão longe uma
da outra?
Para ser franca, tinha-me esquecido dela há quase
um ano. Não esquecido por completo, isso não, mas não pensava nela de uma certa maneira,
assim, como a vi
agora na sua miséria.
Oh! Lies, quem me dera que te pudesse acolher, que
tu sobrevivesses a esta guerra, porque queria remediar um
pouco o mal que te causei.
Mas quando eu estiver em condições de a ajudar, já
ela não precisará. Será possível que ainda se lembre de
mim? E que sentirá ela?
Meu Deus, ajuda-a, não a deixes ficar tão só. Faz-lhe
saber do meu amor e da minha compaixão por ela. Pode
ser que assim lhe dês força para resistir. Não posso pensar
mais nisso. Não consigo desprender-me da visão. Sempre
e sempre vejo os grandes olhos dela fixos em mim
Não sei se a Lies traz em si uma fé muito forte ou se
a obrigaram a tê-la. Não sei, nunca lho perguntei. Oh!
Lies, Lies, se te pudesse ir buscar, se pudesse dividir
contigo o que aqui tenho! É tarde demais! não Poder ser
eu! ninguém, não posso remediar o mal que as pessoas
fazem.
nunca me esquecerei da Lies e hei-de rezar por ela.
Tua Anne
Quarta-feira, 22 de Dezembro de 1943
Querida Kitty:
Uma gripe bastante séria impediu-me de te escrever
mais cedo. É quase uma catástrofe estar-se doente aqui.
Quando me vinha a vontade de tossir, metia-me depressa
debaixo dos cobertores e tentava acalmar a garganta, mas
o resultado era que sempre a comichão aumentava e só
abrandava com leite e mel ou com pastilhas. Só ao lembrar-me
dos tratamentos que tive de suportar, fico quase
tonta. Suores, compressas no pescoço, ligaduras húmidas
e secas no peito, bebidas quentes, estar deitada sem me
mexer, gargarejar, pincelar, almofada eléctrica, botijas e,
de duas em duas horas, ver a temperatura. E queriam que
eu, assim, ficasse bem! O pior de tudo era que o Dussel
fazia de médico, encostando a cabeça com brilhantina ao
meu peito para verificar se havia ruídos lá dentro. Não
só os seus cabelos me faziam muitas cócegas como também
tinha vergonha dele, apesar de ser um facto irrefutável
ele ter tirado, há trinta anos, o curso de medicina e possuir
o diploma de doutor. Mas o que tem ele que procurar
no meu coração? Eu não o amo. O que se passa no meu
coração não é ele que o pode descobrir. Acho mas é que
ele devia, antes de mais nada, mandar fazer uma limpeza
aos ouvidos, pois estou certa de que ouve bastante mal!
Mas não falemos mais na minha doença! Estou bem
agora; cresci um centímetro e aumentei um quilo. Ainda
estou pálida mas cheia de actividade e contente por poder
voltar a trabalhar.
Não tem havido coisas novas. Ao contrário do que
costuma suceder, todos se entendem bem cá em casa.
Não tem havido zangas. Há, pelo menos, seis meses que
não conhecíamos um ambiente tão pacífico.
A Elli ainda não pode vir cá.
No Natal vamos receber uma ração suplementar:
azeite, doces e geleia de nabo para pôr no pão. A minha
prenda é bonita e corresponde aos tempos que correm:
um broche feito de uma moeda de dois cêntimos e meio,
tão polidinha que resplandece. O Dussel pediu à Miep
que fizesse uma torta para a minha mãe e para a sra. van
Daan, e ela já tem tanto que fazer! Tenho também uma
prenda para a Miep e a Elli: há perto de dois meses que
venho poupando o açúcar que devia deitar sobre a papa,
e agora o sr. Koophuis vai levá-lo para mandar preparar
doces.
O tempo está mole, o fogão deita fumo, a comida
pesa-nos no estômago, o que é aliás comprovado por certos
ruídos pouco estéticos.
A guerra não ata nem desata... Disposição abaixo de zero!
Tua Anne
Sexta-feira, 24 de Dezembro de 1943
Querida Kitty:
Já te tenho dito muitas vezes que o ambiente aqui
depende da nossa disposição. E eu, a tal respeito, estou
cada vez pior. Pode aplicar-se-me o dito: "alegria celeste,
tristeza mortal". Sinto uma "alegria celeste" quando me
lembro como estou bem aqui em comparação com outros
judeus. "Tristeza mortal"... invade-me, sim, quando ouço
contar que a vida lá fora continua. Hoje esteve cá a
sra. Koophuis e contou que a sua filha Corrie faz desporto,
passeia numa canoa com amigos e representa num teatro
de amadores. Não sou invejosa, mas quando oiço falar
em tais coisas, apetecia-me tomar parte nelas, pelo menos
uma vez; queria divertir-me como todos os outros, não ter
preocupações, ser feliz, rir! Justamente nesta época tão
bonita, em que há as férias do Natal e do Ano Novo
estamos aqui como párias. Bem sei que não devia escrever
tais coisas, por parecer que sou ingrata e exagerada. Mas
mesmo que tu penses agora mal de mim... não posso
guardar tudo isto e cito mais uma vez aquela frase que
escrevi no princípio: "O papel é paciente!"
Quando chega alguém de fora, ainda com a frescura
do cheiro a vento nas roupas e com a cara vermelha do
frio, apetecia-me enterrar a cabeça nos cobertores para não
pensar sempre no mesmo : "Quando é que poderemos ir
lá para fora e respirar o ar e a liberdade?!" Mas não me
posso esconder, pelo contrário, tenho de me mostrar direitinha
e corajosa e, contudo, os pensamentos não se deixam
dominar, vêm e tornam a vir. Acredita, quando se está
fechada há ano e meio, chegam momentos em que se julga
não se poder suportar mais. Ainda que eu seja injusta e
ingrata, não sou capaz de negar o que sinto! Apetecia-me dançar, assobiar, andar de bicicleta, ver
o Mundo, gozar
a minha juventude, ser livre. Digo-te isto a ti, mas não
o posso dizer a mais ninguém porque se todas as oito
pessoas cá no anexo se lamentassem e mostrassem caras
infelizes, aonde iríamos então parar?
Por vezes penso:
"Será possível que alguém me compreenda Ou só
vêem em mim a adolescente que não quer outra coisa
senão divertir-se?" Não sei e não posso falar sobre isto com
ninguém, pois era capaz de desatar a chorar. Todavia...
Seria um alívio poder chorar uma vez à vontade A despeito
de todas as teorias, de todos os esforços, sinto a cada
passo a falta de uma mãe que me compreenda. Por isso
penso sempre, ao trabalhar ou ao escrever, que quero ser,
mais tarde, para os meus filhos, aquela mãe que eu desejava
ter, essa "mamsi" que não arranja logo uma tragédia com
tudo o que se diz sem intenção, mas que toma antes a
sério o que preocupa os seus filhos intimamente. Estou a
sentir que não me exprimo como queria, mas a palavra
"mamsi" já diz tudo. Sabes o que descobri para chamar
a mãe com um nome parecido com Mamsi? Chamava-lhe
muitas vezes "Mansa" e depois ficou Mansi, o que é
uma "Mamsi" incompleta. Muito gostava eu de poder
honrá-la com mais um tracinho no "n. Mas a mãe de
nada suspeita, o que é bom, porque se soubesse ficaria
infeliz.
Basta! Já aliviei o coração da minha "tristeza mortal",
e sinto-me melhor.
Tua Anne
Sábado, 25 de Dezembro de 1943
Querida Kitty:
Hoje, primeiro dia de Natal, tenho de pensar constantemente
no Pim e naquilo que ele me contou, o ano passado,
do seu primeiro grande amor. Nessa altura não
penetrei tão bem como hoje o significado das suas palavras.
Oh! se ele me falasse outra vez naquilo, mostrar-lhe-ia
que agora o còmpreendo.
Creio que o Pim, que tantos segredos conhece dos
outros, precisou de desabafar, pelo menos uma vez; pois
o Pim não costuma falar de si e suponho que nem a Margot
suspeita do que ele sofreu.
Pobre Pim, a mim não engana ele, eu sei que ainda
não se pôde esquecer! Nunca se poderá esquecer. É uma
pessoa equilibrada. Oxalá eu seja parecida com ele, mas
sem precisar de passar pelo que ele passou.
Tua Anne.
Segunda-feira, 27 de Dezembro de 1943
Querida Kitty:
Pela primeira vez tive uma prenda pelo Natal. As
raparigas, o Koophuis e o Kraler fizeram-me uma surpresa
encantadora. A Miep fez um bolo enfeitado com "PapEl"
conseguiu arranjar meio quilo de bolachas de antes
da guerra. Além disso, o Peter, a Margot e eu recebemos
um frasco de "yogurth" e os adultos uma garrafa de cerveja.
Tudo estava embrulhado com graça e todos os pacotinhos
traziam escrita uma quadra.
Os dias de Natal passaram tão depressa!
Tua Anne
Quarta-feira, 29 de Dezembro de 1943
Querida Kitty:
Ontem à noite, estive muito triste. Tive a visão da
avòzinha e da Lies! Avòzinha, querida avòzinha! Não
compreendemos bem quanto ela sofria. Só pensava em
nós, mostrando-se sempre muito compreensiva em face
dos nossos problemas. Sofria de uma grave doença.
Sabê-lo-ia ela e nunca falou nisso para não nos afligir?
A avòzinha era sempre amável e boa e ninguém a procurava
sem ouvir um conselho ou uma consolação, ou
sem receber uma ajuda. Mesmo quando eu estava insuportável,
a avòzinha encontrava sempre para mim uma desculpa.
Avòzinha, dize, gostaste muito de mim ou também
não me compreendeste? Oh! Não sei.
Como a avòzinha se deve ter sentido só, tão só, embora
estivéssemos todos junto dela. Sim, porque uma pessoa
pode sentir-se só, mesmo no meio de muita gente amiga,
se souber que não ocupa um lugar muito especial no coração
de alguém. E a Lies? Ainda viverá? O que estará a fazer?
Meu Deus, não a deixes morrer, faze com que ela volte
para junto de nós. Pensando em ti, Lies, compreendo
qual podia ter sido o meu destino e ponho-me muitas
vezes no teu lugar! Mas, então, porque é que me afligem
tanto as condições em que vivo aqui no anexo? Não devia
eu sentir-me alegre e satisfeita, excepto quando penso na
Lies e nos outros que sofrem como ela?
Sou egoísta e cobarde! Não sei porque é que os meus
sonhos e pensamentos só giram à volta das coisas tristes,
até quase me apetecer gritar. De certo não tenho bastante confiança em Deus! Afinal Ele deu-me
tanta coisa que não
mereço e eu só faço asneiras.
"Quando pensamos no próximo, devíamos chorar".
A dizer a verdade não devíamos fazer mais nada do que
chorar. Resta-nos pedir a Deus que faça um milagre e
que salve aquela pobre gente!
E eu rezo do fundo do meu coração.
Tua Anne.
Domingo, 2 de Janeiro de 1944.
Querida Kitty:
Hoje de manhã, ao folhear o meu diário, encontrei
várias cartas em que falo da mãe, num tom impulsivo,
quase irado. Assustei-me e perguntei a mim própria:
"Isto és tu, a Anne, que fala assim com tanto ódio?"
Com o livro aberto na mão, fiquei algum tempo sentada
a tentar descobrir a razão desse ódio, dessa ira. Fiz os
possíveis para compreender a Anne daqueles dias e para
a desculpar, pois a minha consciência não acalma enquanto
eu não conseguir explicar-te como foi que cheguei a fazer
tamanhas acusações. Sofria e ainda sofro de depressões e,
nestas alturas, sou-falando em linguagem figurada-como
um mergulhador debaixo de água, que vê tudo deformado.
Via tudo subjectivamente e nem tentava reflectir com
calma sobre aquilo que os outros diziam. Se o tivesse feito,
teria, com certeza, compreendido melhor o sentido dos
argumentos dos meus antagonistas e teria procedido de
outro modo e sem magoar ninguém com o meu temperamento impetuoso.
Só me via a mim, fechava-me na minha concha, não
fazia caso dos outros e sentia alívio ao confiar ao papel
as minhas alegrias, a minha troça e, também, a minha
tristeza. Este diário é para mim de grande valor por se
ter tornado o meu livro de memórias. Mas muitas das suas
páginas podia agora riscá-las ou escrever por baixo "já
passou".
Muitas vezes ficava furiosa com a mãe e ainda agora
me acontece o mesmo. Ela não me compreendia, é uma
verdade, mas eu também não a compreendia. Sou sua
filha e ela é boa e carinhosa para mim. Mas como lhe
criava tantas vezes situações desagradáveis, é compreensível que me ralhasse. Pois, por isso
mesmo e ainda por
tantas coisas que ela sofria, é que não pôde deixar de
ficar nervosa e irritada. Eu não compreendia isso, ofendia-a,
era insolente e agressiva e então ela ficava triste. E assim
havia sempre entre nós algum mal-entendido e desgostos,
o que não era agradável para nenhuma de nós. Mas tudo
isso passou!
Que eu não quisesse admitir essas coisas e tivesse tido
pena de mim própria, também se compreende. As minhas
atitudes eram arrebatamentos de maldade, das quais, numa
vida normal, me teria libertado de maneira completamente
diferente e sem testemunhas... Teria, por exemplo, sózinha
no meu quarto, batido fortemente com os pés no chão,
desabafando sem que ela percebesse o que se passava no
meu coração.
Aquele tempo em que a mãe chorava por minha causa
já passou. Sou mais sensata, mais razoável e os nervos da
mãe também acalmaram. A maior parte das vezes calo-me
quando ela me arrelia, e ela faz o mesmo. Assim, as coisas
córrem bastante melhor. Amar a mãe incondicionalmente,
como fazem tantas crianças, não me é possível; qualquer
coisa em mim se revolta contra isso. Mas acalmo a minha
consciência com a convicção de que sempre é melhor
escrever estas coisas no papel do que magoar os sentimentos
de minha mãe.
Tua Anne
Quarta-feira, 5 de Janeiro de 1944
Querida Kitty:
Hoje vou confiar-te duas coisas o que, talvez, me leve
um pouco de tempo. Mas é-me indispensável desabafar,
e só contigo gosto de o fazer, pois tu guardas silêncio, aconteça o que acontecer. Em primeiro
lugar, trata-se da mãe.
Bem sabes que me tenho queixado dela muitas vezes e
que me tenho esforçado sempre por ser boa para ela.
De repente descobri o que não me agrada na mãe. Ela
própria tem-nos dito que vê em nós antes amigas do que
filhas. Isso é uma coisa bonita, mas uma amiga não pode
substituir a mãe. Eu queria ter na mãe um exemplo, um
modelo a seguir, queria poder erguer para ela os olhos.
Pressinto que a Margot pensa de outra maneira a tal
respeito e que nunca podia compreender as minhas ideias,
e o pai evita falar no assunto. Na minha imaginação uma
mãe tem de ser, antes de mais nada, alguém com muito
tacto, principalmente quando se trata dos filhos. Não deve
fazer como faz minha mãe, que se ri quando eu choro
lágrimas que não são de dor física mas de dor íntima.
Há uma coisa-pode parecer incompreensível-que
nunca lhe perdoarei. Quando um dia tive de ir ao dentista,
a mãe e a Margot acompanharam-me e acharam bem que
eu levasse a bicicleta. Mas quando, acabado o tratamento,
estávamos à porta do dentista, as duas disseram-me que
ainda iam ao centro da cidade fazer compras e ver umas
coisas-já não sei bem o que era. Eu queria ir também,
mas não me deixaram por causa da bicicleta. Fiquei
furiosa e as lágrimas vieram-me aos olhos, mas as duas
começaram a rir. Então perdi a cabeça e, no meio da rua,
deitei-lhes a língua de fora. Por acaso passou uma mulher
do povo que me olhou horrorizada. Fui sózinha para casa
e chorei muito.
É estranho, mas essa ferida que a mãe, há tanto tempo,
me causou, arde ainda todas as vezes que penso nisso ou
quando me zango com a mãe.
Falar do segundo assunto custa-me muito, pois trata-se
de mim própria. Li ontem um artigo de Sis Heyster sobre
o corar. Aquilo parecia ser escrito para mim, embora eu
não core tão fàcilmente. Mas o resto aplica-se-me perfeitamente.
Diz ela que uma rapariga, ao entrar na puberdade,
fica mais calma e mais pensativa e que se debruça
sobre o milagre do seu corpo. É precisamente o que acontece
comigo ùltimamente e agora até tenho vergonha da
Margot e dos pais. Mas a Margot que, em outras ocasiões,
é muito mais acanhada do que eu, não faz cerimónias com
estas coisas.
Dou-me conta das transformações exteriores do meu
corpo e, mais ainda, daquilo que está a ficar tão diferente
no meu íntimo. E como não falo sobre isto com ninguém,
tento compreender sòzinha.
De todas as vezes que tenho o "incómodo" - e já me
veio três vezes - tenho a sensação, apesar das dores e de
tudo o que é desagradável e repugnante, de trazer comigo
um segredo muito delicado. Alegro-me quando vivo de
novo este meu segredo. Diz Sis Heyster que as raparigas
da minha idade ainda não têm segurança mas que pouco
a pouco se vão revelando e começam a ter ideias, pensamentos
e hábitos próprios. Vim para o anexo quando
tinha treze anos e, por isso, fui obrigada a reflectir mais
cedo sobre o Mundo e a fazer a descoberta de mim mesma
como de um ser humano que deseja ser independente.
Por vezes, de noite, não posso deixar de tocar nos meus
seios e de sentir o bater calmo e seguro do meu coração.
Já antes de vir para aqui sentia, inconscientemente,
coisa parecida, pois uma vez, quando dormi com uma
amiga minha, perguntei-lhe se, como prova de amizade,
não podíamos tocar nos seios uma da outra, mas ela
recusou-se. Eu gostava de lhe dar beijos e beijei-a
muitas vezes.
Sempre que vejo uma figura de mulher nua, como, por
exemplo a Vénus, fico como em êxtase. É uma coisa tão
bela que tenho de me dominar para não desatar a chorar!
Ai! Quem me dera ter uma amiga!
Tua Anne
Quinta-feira, 6 de Janeiro de 1944
Querida Kitty:
O meu desejo de falar com alguém tornou-se tão forte,
ùltimamente, que escolhi, não sei porquê, o Peter como
vítima. Quando eu estava lá em cima com ele sentia-me
bem. Mas como é modesto e incapaz de pedir a alguém
para o deixar em paz, mesmo se se sentir molestado, eu
nunca tinha coragem de me demorar com receio de que
me pudesse achar aborrecida.
Discretamente, faço agora tentativas para ficar mais
um bocadinho para conversarmos e ontem, por acaso,
houve um pretexto bom, pois o Peter tem a mania das
palavras cruzadas e se pudesse não faria mais nada em
todo o dia. Ajudei-o, e assim ficámos à mesa, um em
frente do outro, ele na cadeira, eu no divã.
Sempre que eu olhava para os seus olhos escuros e
observava o sorriso bailar-lhe à volta da boca, tinha uma
sensação estranha. Adivinhava-lhe o íntimo. Lia-lhe no
rosto a insegurança, o desamparo e, ao mesmo tempo, um
laivo de certeza de se saber homem. O seu embaraço
enterneceu-me e precisei de o olhar de novo nos olhos.
Apeteceu-me pedir-lhe :
- Conta-me tudo o que sentes e não tenhas medo de
que eu seja indiscreta. Contigo nunca o serei!
Mas a tarde foi passando e nada de especial aconteceu
a não ser que lhe falei a respeito do corar mas, evidentemente, não lhe disse tudo o que escrevi
aqui. Só falei
nisso por causa dele, para ele sentir mais segurança. quando
de noite, na cama, pensei em tudo aquilo, a situação
parecia-me desagradável e achei então um exagero da
minha parte cobiçar assim as boas graças do Peter. Acho
esquisito a gente tentar tanta coisa para satisfazer um desejo. Dou-me a mim como prova.
Resolvi procurar mais
vezes o Peter e fazê-lo falar. Não julgues que estou apaixonada por ele, não, nem pensar nisso.
Se os van Daans,
em vez de um filho, tivessem uma filha, eu faria as mesmas
tentativas para conseguir a sua amizade.
Hoje de manhã acordei às sete horas e lembrei-me
nitidamente do que sonhei. Estava eu sentada à mesa, em
frente do Peter... Folheávamos um livro ilustrado.
O sonho tinha sido tão nítido que até ainda me lembro
das gravuras. Mas não acabou aqui. Os nossos olhares
encontravam-se e eu via os olhos do Peter, tão belos, de
um castanho aveludado. Depois o Peter disse, baixinho
e carinhoso :
-Se eu soubesse, já te teria procurado há mais tempo.
Virei-me bruscamente porque estava muito comovida.
Então senti a face do Peter junto da minha e senti-me
tão bem, ai! tão bem!
Quando acordei parecia-me sentir ainda o seu contacto
e tive a sensação de que os seus queridos olhos castanhos
tinham penetrado até ao fundo do meu coração e que
tinham compreendido quanto eu gostava dele, e ainda
gosto. Os meus olhos encheram-se de lágrimas, fiquei
triste por ele estar tão longe de mim, mas também fiquei
contente por sentir com tanta força que ainda gosto do
Peter. Estranho: tenho aqui visões tão nítidas. Uma noite
apareceu-me a avó paterna com tanta nitidez que lhe consegui
ver as rugazinhas aveludadas na pele. Depois veio a avó materna como anjo da guarda e depois a
Lies, que para mim é o
símbolo da infelicidade das minhas amigas e de todos os
judeus. Ao rezar por ela incluo sempre os judeus e todos
os homens perseguidos e infelizes.
E agora apareceu-me o Peter, o meu querido Peter!
Nunca o tinha visto tão claramente na minha imaginação.
Não tenho dele nenhuma fotografia, nem é preciso, pois
tenho-o bem gravado na memória! Como é bom e simpático!
Tua Anne.