O Diário de Anne Frank - On line Parte 3

Sexta-feira, 20 de Novembro de 1942
Querida Kitty:
Estamos todos um pouco desconcertados. Até agora
só recebíamos de longe em longe notícias sobre os judeus.
E daí, talvez fosse melhor assim. Quando a Miep por vezes
falava do destino trágico de pessoas nossas conhecidas, a
mãe e a sra. van Daan punham-se logo a chorar, de modo
que ela achou melhor não contar mais nada. Mas fizemos
muitas perguntas ao Dussel e o que ele conta é medonho,
é bárbaro. Não se consegue pensar em outra coisa. Será
possível que alguma vez mais possamos sair e divertir-nos
como outrora, mesmo quando tudo isto tiver passado?
Mas a verdade é que se transformarmos o nosso esconderijo
numa casa de luto, se ficarmos sempre melancólicos, não
adiantamos nada, nem para nós nem para os que lá fora
sofrem. Não posso fazer coisa nenhuma sem pensar naquela
gente que partiu. Se dou comigo a rir despreocupadamente,
assusto-mA e acho-me injusta por estar alegre. Mas hei-de
chorar todo o dia? Não, não posso. E o desânimo decerto
passará. Allém destas misérias, há outra coisa desagradável,
assunto pessoal e que, já se vê, nenhuma importância tem
comparado às tragédias de que acabo de falar: quero dizer
que me irrito tão só ùltimamente! Sinto um vácuo enorme
dentro de mim. Antigamente não pensava muito nisto.
Os divertimentos e as amizades prendiam-me o tempo.
Mas agora preocupam-me problemas sérios. Reconheci,
por exemplo, isto: o pai, embora me seja tão querido, não
pode substituir todo o meu mundo de outrora.
Achas-me ingrata, Kitty? Por vezes tenho a impressão
de não poder suportar mais: ouvir todas estas coisas
horríveis, ter as minhas próprias dificuldades e ainda por
cima ser o bode expiatório para tantas coisas que acontecem!
Tua Anne.
Sábado, 28 de Novembro de 1942
Querida Kitty:

Gastamos electricidade de mais, ultrapassamos os limites.
Temos de fazer economia, caso contrário cortam-nos a
corrente e estaremos quinze dias sem luz. Das quatro e
meia em diante não podemos ler mais. Matamos então o
tempo com várias distracções : adivinhas, ginástica, falar
inglês ou francês ou sobre os livros que acabamos de ler...
Com o tempo tudo se torna monótono. Descobri uma coisa
nova: com o binóculo posso espreitar para os quartos
iluminados dos vizinhos da frente. Durante o dia não
podemos abrir as cortinas nem um centímetro, mas à
noite já pode ser. Eu antes nunca sabia que os vizinhos
são pessoas tão interessantes. Observei alguns enquanto
comiam; numa outra família passavam um filme e o dentista,
mesmo em frente, estava a tratar uma velhinha
cheia de medo.
A propósito de dentista! O sr. Dussel, de quem se dizia
saber lidar tão bem com crianças e gostar muito delas,
revela-se um bota de elástico. A cada passo faz sermões
sobre boas maneiras e bom comportamento. Como sabes,
tenho a pouca sorte de partilhar o quarto com este senhor
tão "respeitável" e, como sou tida como a mais mal-educada
dos três jovens daqui, ele dá-me que fazer e por vezes
nem sei como escapar a tantas descomposturas e avisos.
Olha, faço-me surda! Mas tudo isto ainda se suportava
se o homem não fosse um "denunciante" de grande categoria
e se não tivesse escolhido precisamente a mãe para as suas
reclamações. Assim, recebo primeiro uma ensaboadela dele,
depois a mãe junta outra e, se estou com sorte, a sra. van
Daan também mete o bedelho para me censurar.
Ai! Kitty, não é fácil ser-se a pessoa mais mal-educada ou antes: o pára-raios de uma família
"mergulhada"
sempre a criticar e a educar! à noite, na cama, quando
passo em revista todos os meus pecados e todos os defeitos
que me são atribuídos, perco-me nessa abundância de
queixas e, quase sempre, começo a chorar... ou a rir,
conforme a disposição. Depois adormeço com a ideia tola
de querer ser diferente do que sou ou de que não sou como
queria ser e de que faço tudo ao contrário. Queria agir
de outra maneira e não ser como sou. Santo Deus! Agora
estou a baralhar tudo, não te zangues! Mas não risco o
que está escrito e rasgar a folha também não posso, porque
há grande falta de papel. Seria mesmo pecado! Assim
só te posso aconselhar a não voltares a ler a última frase
nem tentares aprofundá-la, que és capaz de não conseguir
voltar à superfície!
Tua Anne
Segunda-feira, 7 de Dezembro de 1942
Querida Kitty :
Chanuca e São Nicolau coincidem quase este ano.
O Chanuca festejámo-lo apenas com as velas, mas como
estas são agora uma preciosidade só as acendemos durante
dez minutos. As velas acesas e nós a cantarmos a canção
de Chanuca! O sr. van Daan construiu um lindo candelabro.
O São Nicolau, no sábado, ainda foi mais lindo.
A Elli e a Miep vinham para cima cochichar com o pai
e, assim, andávamos todos muito curiosos, pois compreendíamos
que estavam a preparar alguma surpresa. E, de
facto, às oito horas descemos a escada, através do corredor
escuro (arrepiei-me toda; tinha medo de não voltar inteirinha), para o escritório, no outro andar.
É um quarto
sem janelas e, assim, podíamos acender a luz. O pai abriu
o armário e todos exclamaram: "Que lindo!" No centro
estava um grande cesto, enfeitado com papéis coloridos,
e guarnecido simbòlicamente com a máscara do Pedro,
o negro. Transportámos o cesto para cima. Cada um
recebeu as suas prendas acompanhadas de uma quadra.
Tenho a certeza de que conheces bem esse género de
poemas e, por isso, não os vou aqui transcrever. Recebemos:
eu um "Pieferkuchen" enorme, em forma de
boneca; o pai, suportes para livros; a mãe, um calendário;
a sra. van Daan, uma bolsa para o pano do pó; o sr. van
Daan um cinzeiro... Todos os presentes tinham sido bem imaginados e, como festejávamos o S.
Nicolau pela primeira
vez, achámos a nossa estreia bem sucedida.
Também demos prendas aos nossos amigos lá de baixo,
coisas que tínhamos ainda dos velhos tempos. Disseram-nos
hoje que o sr. Vossen fez com as próprias mãos o cinzeiro
para o sr. van Daan e os suportes para o pai. Acho admirável
alguém fazer coisas tão bonitas.
Tua Anne
Quinta-feira, 10 de Dezembro de 1942
Querida Kitty:
O sr. van Daan negociava, noutros tempos, em carnes
frias, salsichas, chouriços e outras especialidades. A firma
contratou-o por ser um comerciante muito hábil e experiente. E agora ficámos maravilhados aqui
com a sua
perícia de salsicheiro.
Encomendámos, no mercado negro, já se vê, carne
para fazer conservas para os tempos difíceis. É engraçado
ver a carne passar pela máquina, duas ou três vezes.
Depois juntam-se os temperos, mistura-se tudo bem e,
por fim, enchem-se as tripas com aquela massa. Comemos
ao almoço chucrute com salsicha fresca! Os chouriços
defumados têm de secar bem e, por isso, enfiámo-los numa
vara suspensa do tecto. Sempre que alguém entra no quarto
e vê os chouriços a bambolear não pode deixar de rir.
É uma exposição patusca.
Havia uma tremenda desordem no quarto. O sr. van
Daan (com um avental da esposa), todo gorducho, mais
gorducho ainda do que de costume, tratava da carne.
Parecia mesmo um carniceiro com as mãos cheias de
sangue, a cara afogueada e o avental sujo. A sra. van Daan
quer fazer mil coisas ao mesmo tempo: estudar holandês
por um livro, remexer a sopa, examinar a carne com que
o marido trabalha e ainda ter tempo para se queixar da
sua costela partida.
Bem feito! Quem é que manda as senhoras entradotas
e vaidosas fazer ginástica tola, só porque não querem ter
um traseiro gordo?
O Dussel tinha um olho inflamado e estava junto do
fogão a fazer compressas. O pai, sentado na cadeira, procurava
aproveitar os magros raios do Sol. Julgo que tenha dores de reumatismo, estava todo encolhido e
seguia com
olhos infelizes o trabalho do sr. van Daan. O Peter andava
a correr pelo quarto atrás do gato, que se chama Mouchi.
A mãe, a Margot e eu descascávamos batatas. Fazíamo-lo
automàticamente, porque estávamos a contemplar, fascinadas,
a actividade do sr. van Daan.
O Dussel inaugurou o consultório de dentista. Vais-te
divertir ao saber da primeira consulta. A miep estava a
passar a ferro enquanto a sra. van Daan fez de primeira
cliente. Estava sentada numa cadeira, no meio do quarto,
enquanto o Dussel tirava cerimoniosamente todos os
seus instrumentos. Pediu água-de-colónia para desinfectar
e vaselina para substituir a cera. Depois olhou para dentro
da boca da sra. van Daan. Tocou-lhe num dent molar,
escabichou-o a seguir com um ferrinho, o que a fazia
estremecer e gemer sem nexo, como se estivesse a morrer
de dores. Depois de um exame sem fIm - pelo menos na
opinião da doente, pois na realidade só tinham passado dois
minutos - o Dussel queria começar a chumbar um dente.
Mas isso sim! A sra. van Daan defendeu-se com braços e
pernas, de tal maneira que o Dussel teve de largar o gancho
com que estava a limpar o buraquinho. O gancho lá
ficou espetado no dente. Havias de ver! A senhora
agitava-se para um lado e para o outro, tentava tirar o gancho
mas só conseguia enterrá-lo ainda mais. O Dussel não se
comovia. De mãos nos bolsos observava o espectáculo.
E nós, os outros espectadores, a rir. Não o devíamos
ter feito. Fomos velhacos! com certeza eu também me
teria portado assim e teria gritado quanto pudesse.
Depois de muito esforço, suspiros e gemidos, a sra. van Daan
tirou o ferro, e o Dussel retomou o seu trabalho como se nada tivesse acontecido. Tão depressa
manejou os instrumentos, que
a senhora não teve tempo para mais brincadeiras. Mas
suponho que ele nunca teve na sua consullta ajudantes
tão prestáveis. O sr. van Daan e eu éramos os assistentes
e agora imagino tudo aquilo como um quadro da Idade
Média: "charlatães a trabalhar". Por fim a paciência da
senhora esgotou-se. Disse que tinha aora de olhar pela
comida. Uma coisa é certa: tão cedo não voltará ao
dentista.
Tua Anne
Querida Kitty :
Sentada confortàvelmente à janela do escritório grande,
estou a observar, através de meia fenda da cortina, o que
se passa lá fora. Anoitece, mas ainda consigo ver o bastante
para te escrever.
É curioso ver as pessoas a correr! Parece que estão com
pressa, quase que tropeçam nos seus próprios pés. Os
ciclistas passam numa velocidade tal que não consigo
distinguir as mulheres dos honens.
Este quarteirão é de gente do povo e a maioria tem
aparência pobre. As crianças andam tão sujas que eu só
me atrevia a tocar-lhes com tenazes. São autênticos garotinhos
e falam um dialecto que quase não se compreende.
Ontem, quando a Margot e eu estávamos aqui a tomar
banho, ocorreu-me uma ideia: se pudéssemos pescar
algumas daquelas crianças, pela janela e com um anzol,
dar-lhes um banho, vesti-las e dar-lhes depois novamente
a liberdade...
-Amanhã estariam sujas na mesma-interrompeu-me
a Margot.
Há mais coisas para ver: automóveis, barcos e a chuva.
Oiço o ruído do carro eléctrico e ponho-me a imaginar as
mais variadas coisas. Como nós aqui não temos estímulos,
os nossos pensamentos também pouco variam. Dos judeus
passa-se à comida, da comida à política, da política... mas
já que falo de judeus: ontem, ao espreitar pela cortina, vi
dois judeus. É uma sensação estranha, quase como se eu
os traísse e estivesse aqui para espionar a sua infelicidade.
Precisamente em frente desta casa há um barco habitado
por um pescador com a família. Eles têm um cãozinho
que já conhecemos pelo ladrar e cujo rabo se vê quando
ele corre ao longo da borda do barco.
Agora chove a cântaros e as pessoas escondem-se debaixo dos guarda-chuvas. Só vejo
impermeáveis e por vezes também um capuz.
Mas não preciso de ver mais, porque já as conheço
bem, àquelas mulheres metidas nos seus casacos vermelhos
ou verdes, com os tacões tortos, uma bolsa gasta debaixo
do braço, os corpos inchados por comerem batatas de mais
e outras coisas de menos. Uma traz a infelicidade estampada
no rosto, outra parece feliz, mas isto decerto depende
do bom ou do mau humor dos seus maridos.
Tua Anne.
Querida Kitty:
Com grande satisfação, soubemos no anexo que cada
um de nós terá para o Natal meio quarto de manteiga, fora
a do racionamento. Oficialmente recebe-se um meio quilo,
mas isto é para os mortais felizes que vivem lá fora, na
liberdade. Gente "mergulhada como nós que, com oito
cartões de racionamento, só pode comprar as mercadorias
para quatro pessoas, já fica radiante com tão pouco!
Cada um de nós quer fazer doces com a sua manteiga.
Eu farei bolachas e duas tortas. Temos muito que fazer
e a mãe disse que não me deixava ler nem estudar enquanto
não tivesse acabado as minhas obrigações domésticas.
A sra. van Daan está na cama,por causa da costela
partida: lamenta-se todo o dia, temos de a atender e de
lhe mudar as compressas, mas ela nunca está satisfeita.
Só queria que já estivesse outra vez a pé e tratasse sòzinha
das suas coisas. Mas tenho de lhe fazer justiça: ela é muito
trabalhadeira e quando se sente bem, moral e fisicamente,
chega a ser mesmo uma pessoa divertida.
Todo o santo dia advertiram-me com os "chut-chut",
pois, pelos vistos, sou demasiadamente barulhenta, e, como
se ainda não bastasse, o meu companheiro de quarto
resolveu lançar-me também, durante a noite, os "chut-chut".
Nem sequer admite que me vire na cama. Faço
de conta que não dou por nada, mas qualquer dia hei-de
retribuir-lhe uns "chuts". Aliás, aos domingos, ele dá-me
cabo da paciência. Acende a luz muito de madrugada
para fazer ginástica. Aquilo parece-me que dura horas e
como ele está sempre distraído, dá constantemente contra
as cadeiras que servem para prolongar a minha cama.
Por fim acordo mesmo de todo. Mas como ainda não
tenho dormido bastante, queria adormecer de novo.
Depois de ter percorrido os caminhos da força e da beleza", ele começa a fazer a toillete! As
cuecas estão penduradas
num gancho. Portanto vai até lá e volta. Mas, já se vê,
esqueceu-se da gravata em cima da mesa. Lá vai ele para
lá, para cá, esbarrando com as cadeiras. E pronto!
Acabou-se o meu descanso dos domingos!
Mas valerá a pena a gente queixar-se de homens
velhos e esquisitos? Por vezes dá-me na gana pregar-lhe
uma partida: fechar a luz, desaparafusar a lâmpada e
esconder-lhe as roupas. Mas não o faço, por amor da
santa paz.
Ai! Como estou a ficar ajuizada. Aqui é preciso ter-se
juízo a cada passo: para não responder, para cumprir as
ordens, para ser sempre amável, prestável, transigente e
sabe Deus o que mais! Estou a abusar do meu juízo que,
já por si, não vai longe, e receio que não me sobre nenhum
para depois, para quando a guerra acabar.
Tua Anne.
Quarta-feira, 13 de Janeiro de 1943
Querida Kitty:
Hoje estamos todos perturbados, não conseguimos fazer
nada com calma. As notícias lá de fora são horríveis. Dia
e noite arrastam a pobre gente das suas casas. Só deixam
levar o que cabe na mochila e algum dinheiro (mas este
tiram-lho mais tarde). Separam as pessoas em três grupos,
homens, mulheres e crianças. É vulgar voltarem as crianças
da escola e já não encontrarem os pais, ou voltarem as
mulheres das compras e darem com a casa selada. O resto
da família já foi deportada.
Nos círculos cristãos também já reina o desassossego.
Os jovens são enviados para a Alemanha. Toda a gente
tem medo!
E durante as noites, centenas de aviões sobrevoam a
Holanda, para lançarem uma chuva de bombas na Alemanha.
A cada hora tombam homens na Rússia e na
África. A Terra enlouqueceu, há destruição por toda a
parte. A situação melhorou para os Aliados, mas o fim
de tudo isto ainda está longe.
Nós aqui estamos bem, melhor de que milhares de
outras pessoas. Estamos em segurança e podemos fazer
planos para os tempos do pós-guerra. Podemos pensar
nos vestidos e nos livros que havemos de comprar em vez
de estarmos sempre preocupados com cada tostão que
se gasta inùtilmente e que podia servir para ajudar os
outros, ou com aquelas coisas que se perderam e talvez
ainda se pudessem salvar.
Há crianças, cá no quarteirão, que andam de blusinhas
leves, de socos e sem meias, sem sobretudos, sem
boinas ou luvas. Têm o estômago vazio, mastigam cenouras,
fogem das casas frias para as ruas húmidas e ventosas, e estudam em escolas sem aquecimento.
Mais: as crianças
pedem pão às pessoas que passam! Chegaram até este
ponto as coisas na Holanda! Ouço falar durante horas a
fio sobre a miséria que esta guerra trouxe e fico cada
vez mais triste. Não temos outro remédio senão esperar,
calma e serenamente, o fim de tanta infelicidade. Esperam
os judeus, esperam os cristãos. Esperam os povos de todo
o Mundo... mas muitos esperam pela morte!
Tua Anne.
Domingo, 30 de Janeiro de 1943
Querida Kitty:
Estou com uma raiva que nem podes fazer ideia. Mas
não a posso dar a conhecer a ninguém. Gostava de bater
com os pés, gritar, sacudir a mãe e não sei o que mais.
E isto por causa das palavras zangadas, dos olhares irónicos,
das acusações que contra mim são lançadas todos os
dias, como setas de um arco muito esticado. Gostava de
gritar-lhes, à mãe, à Margot, ao Dussel e aos van Daans:
Deixem-me em paz! Então não me deixam passar uma
única noite sem molhar o travesseiro de lágrimas? Não
posso adormecer uma única vez sem que os meus olhos
ardam e a cabeça me pese centenas de quilos? Deixem-me!
Queria-me ir embora, embora deste Mundo!
Mas para que serviria? Eles nada sabem do meu desespero!
Nada sabem das feridas que me fazem! Já não suporto
por mais tempo a compaixão e a ironia deles. Só queria
mas era chorar!
Acham-me exagerada quando abro a boca, ridícula
quando me calo, malcriada quando dou uma resposta,
manhosa quando tenho uma boa ideia, preguiçosa quando
estou com sono, egoísta quando me sirvo mais um tudo
nada, estúpida, covarde, interesseira, etc., etc... Todo
o dia tenho de ouvir que sou uma criatura insuportável,
e podes crer: embora me ria ou finja não ligar importância,
nada daquilo me é, em boa verdade, indiferente.
Bem eu queria pedir a Deus uma outra natureza que
não irritasse tanto os outros. Mas é impossível. E, de resto,
se sou assim, sinto, no entanto, que não sou má. Faço
muito mais esforços para lhes agradar a todos do que eles
imaginam. Rio-me com eles só para não lhes mostrar a
minha dor íntima. Mais de uma vez, quando discutia com a mãe e ela era injusta para comigo,
bradava-lhe: "tanto se me dá como se me deu, do que estás para aí a dizer. O melhor é não te
preocupares mais comigo, sou um caso perdido".
Dizem que sou malcriada e não "fazem caso de mim
durante dois dias". E de repente tudo me é perdoado e
esquecido. Mas eu é que não posso ser um dia muito simpática
e carinhosa com alguém, para o odiar logo no dia
seguinte. Prefiro não me aproximar dos extremos, guardar
os meus pensamentos e fazer os possíveis para tratar as
pessoas com o mesmo desdém com que me tratam a mim.
Ai! se eu fosse capaz disso!
Tua Anne
Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 1943
Querida Kitty:
Há bastante tempo que não te tenho falado das nossas
encrencas mas não penses que alguma coisa se tenha
modificado. Ao princípio o sr. Dussel incomodava-se bastante
com as várias discussões que ouvia. Depois acostumou-se
e agora já faz tentativas para servir de medianeiro.
A Margot e o Peter nem parecem jovens de verdade,
são ambos monótonos e calmos. Claro, eu faço um grande
contraste com eles e, por isso, ouço continuamente :
-Olha a Margot e o Peter, eles eram incapazes de
fazer tais coisas!
Que maçada! E, já agora, vou confessar-te uma coisa :
não quero de maneira nenhuma ficar como a Margot.
A meu ver é demasiado transigente e insípida, deixa-se
influenciar por toda a gente, cede sempre. Então não
há-de a gente ter a sua opinião! Mas estas teorias não as
confio a mais ninguém. Não quero que se riam de mim.
à mesa reina muitas vezes uma atmosfera pesada que só
se alivia quando um ou outro hóspede come em nossa
casa-falo das pessoas do escritório, que vêm comer um
prato de sopa connosco.
Hoje, ao almoço, o sr. van Daan verificou mais uma
vez que a Margot não come o suficiente. "Se calhar por
causa da linha", rematou, em tom irónico, o seu discurso.
A mãe que tira sempre as castanhas do lume para a Margot
disse muito alto :
-Estou farta do seu palavriado!
A sra. van Daan ficou vermelha como um pimento e
ele pôs-se a olhar para o chão, embaraçado.
Muitas vezes rimo-nos uns com os outros. Há pouco, a sra. van Daan contou coisas engraçadas
dos vários "flirts"
que teve e como se entendia bem com o seu pai.
"Se algum homem ousar ser atrevido para contigo
deves dizer-lhe: "Meu senhor, sou uma senhora". Ele
desistirá logo", aconselhava-lhe o pai.
Rimo-nos como se nos tivesse contado uma anedota
formidável.
O Peter, geralmente muito calado, diverte-nos de vez
em quando. Tem o fraco das palavras estrangeiras cujo
significado raras vezes conhece e o resultado é uma linda
baralhada. Certo dia, quando no escritório particular
havia visitas e não nos era permitido utilizar o W.C.,
Peter sentiu uma necessidade terrível. Foi mesmo lá, mas
não puxou o autoclismo. Queria avisar-nos disto e colou na
porta do W..C. um papel com as palavras : "Sívelil vous
plait, cheirete!". O que ele queria dizer era: "Cautela,
cheirete!". Achou a expressão "sívelil vous plait" muito distinta
e não fazia ideia nenhuma de que ela se traduz
por "faz o favor".
Tua Anne
Sábado, 27 de Fevereiro de 1943
Querida Kitty:
Esperamos a invasão de um dia para outro. Churchill
teve uma pneumonia, mas já está quase bom. Gandhi, o
libertador da Índia, já fez, não sei quantas vezes, a greve
da fome.
A sra. van Daan disse ser fatalista. Mas sabes quem
tem mais medo quando caem as bombas? Claro que é
ela, a D. Petronella!
O Henk trouxe-nos a pastoral dos bispos que foi lida
em todas as igrejas. É grandiosa e incita as pessoas: Não
vos caleis, holandeses! Cada um tem que lutar com as suas
armas pela liberdade do povo, pela pátria e pela religião!
Ajudai, não hesiteis!-Foi assim que falaram. Servirá para
alguma coisa? Aos nossos correligionários com certeza
não serve para nada.
Imagina o que aconteceu. O senhorio, sem avisar o sr.
Koophuis ou o sr. Kraler, vendeu a casa. Uma manhã
apareceu o novo proprietário com um arquitecto.
Queriam ver a casa. Graças a
Deus o sr. Koophuis estava presente e mostrou tudo
aos senhores, menos o anexo.
Disse-lhes que deixara as chaves da porta em casa. Os
senhores não insistiram. Oxalá não voltem para o anexo.
Seria a nossa desgraça.
O pai deu-nos um ficheiro com fichas novas. Serve-nos,
a mim e a Margot, para os livros que já lemos. Registámo-los
não só pelo autor e título mas também com as
nossas observações. Para as palavras estrangeiras e os
ditos arranjei um caderno especial.
Ultimamente dou-me melhor com a mãe. Mas nunca
seremos verdadeiras confidentes uma da outra. A Margot
está mais impertinente do que nunca, e o pai está muito preocupado com qualquer coisa. Mas ele
é e será o melhor de todos!
Novas rações de manteiga e de margarina. Cada um
recebe a sua parte do dia num pratinho. Parece-me que
a distribuição quando está ao cargo dos van Daans não
corre lá com grande honestidade, mas os meus pais estão
fartos de zangas e, por isso, calam-se. É pena. A meu
ver, devíamos pagar-lhes na mesma moeda.
Tua Anne
Quarta-feira, 20 de Março de 1943
Querida Kitty:
Ontem à noite houve um curto-circuito. E ainda por
cima o barulho infernal dos canhões da defesa. Não sou
capaz de me habituar às bombas e aos aviões. Tenho
medo e quase sempre fujo para a cama do pai. Se calhar
achas-me muito criança, mas só queria que assistisses!
Não ouvimos as nossas próprias palavras, tanto é o barulho
dos canhões. A sra. van Daan, a fatalista, estava quase a
chorar e disse, toda enfiada :
-Acho um horror dispararem tanto.
Não queria isto dizer : tenho muito medo!? De dia a
coisa não me aflige tanto. Gritei como se tivesse febre
e supliquei ao pai que acendesse a vela. Mas ele não
se comoveu e continuámos às escuras. Então começou
o ruido das metralhadoras, que acho pior ainda do que
o dos canhões. A mãe saltou fora da cama e, com desgosto
do pai, acendeu a vela. Ao seu protesto respondeu resolutamente :
-Mas a Anne não é um velho soldado como tu!
E acabou-se! Já te falei dos ataques da sra. van Daan?
Tens que saber tudo o que se passa no anexo. Certo dia
ela ouviu passos pesados no sótão. Pensou que eram ladrões.
Ficou tão cheia de medo que acordou o marido. No mesmo
instante o ruido terminou, o sr. van Daan só conseguiu
ouvir bater o coração da fatalista.
Ai! Putti: (é como ela chama o sr. van Daan) se calhar
roubaram os chouriços e os feijões. E que terão feito ao
Peter?
-Não roubaram o Peter, não te aflijas! E deixa-me
dormir.
Mas isso sim!
Como ela não conseguia adormecer, também o não
deixava a ele.
Algumas noites depois, a família van Daan acordou
com um barulho esquisito. O Peter subiu para o sótão
com a sua lâmpada de mão e quando a acendeu viu
fugir um bando de ratazanas. Agora sabíamos quem eram
os ladrões, e pusemos o Mouchi a dormir no sótão. Os
. hóspedes indesejáveis, pelo menos durante a noite, não
voltaram mais. Mas há poucos dias o Peter teve de ir ao
sótão (eram sete e meia e ainda dia) para buscar alguns
jornais velhos. Ao descer a gente tem de agarrar-se à saída.
Ao pousar a mão ia caindo pela escada abaixo. Uma
ratazana mordeu-o no braço. Quando chegou cá em
baixo-e de que maneira!-tinha o pijama cheio de sangue,
estava branco como cal e mal se aguentava nas pernas.
Não admira, pois ser-se mordido por uma ratazana sem
contar é horrível, e ainda por cima uma mordedura
daquelas... Chega a ser infívelame!
Tua Anne.
Sexta-feira, 12 de Março de 1943
Querida Kitty:
Posso apresentar-ta: a mamã Frank, defensora da juventude,
reclama manteiga suplementar para a gente nova.
Luta pelos problemas dos jovens modernos. Luta pela
Margot, por mim e pelo Peter, e depois de grandes discussões
consegue sempre o que pretende.
Estragou-se um frasco de língua de conserva. Resultado:
Jantar de gala para o Mouchi e o Bochi. É verdade, tu
ainda não conheces o Bochi. Dizem que já estava no
imóvel antes de chegarmos nós, os "mergulhadores". Agora
é o gato do armazém e do escritório e afasta os ratos.
O seu nome político explica-se fàcilmente. Antes, a casa
tinha dois gatos : um para o armazém, outro para o sótão.
Quando os dois se encontravam havia sempre luta. Infalivelmente
o do armazém é que começava, mas o do sótão
é que vencia. E, por isso, foram baptizados : o do armazém
era o alemão ou o Bochi, o do sótão, o inglês ou o Tommy.
O Tommy desapareceu e o Bochi é a nossa distracção
quando vamos para baixo.
Comemos tantas vezes feijão branco que já não posso
vê-lo à minha frente e fico enjoada só de pensar nele.
Ao jantar já não temos pão.
O pai acaba de dizer que está preocupado com vários
assuntos. Tem olhos tristes, o pobre!
Ando maluca com o livro De Ylop op de Deur, de Ina
Boudier-Bakker. É o romance de uma família, extraordinário
nas descrições. As passagens que tratam da guerra,
dos problemas da mulher, dos escritores, não os acho
tão bem; com toda a franqueza, são assuntos que me
interessam pouco.
Bombardeamentos sobre a Alemanha. O sr. van Daan
anda de mau génio por não haver cigarros.
O problema de se havíamos de comer já ou não os
legumes de conserva resolveu-se a nosso favor. Além das
minhas botas de ski, já não me servem nenhuns sapatos
e as botas são bastante incómodas em casa. Umas sandálias
de palha entrançada duraram uma semana, e acabou-se.
Pode ser que a Miep encontre qualquer coisa no
mercado negro. Agora tenho de cortar o cabelo ao Pim.
Disse ele que, mesmo depois da guerra não pode voltar
ao cabeleireiro, por eu o servir tão bem, embora eu
o corte tantas vezes na orelha!
Tua Anne
Quinta-feira 18 de Março de 1943
Querida Kitty:
A Turquia entrou na guerra... Estamos impacientes pelas notícias da rádio.
É mesmo assim que a rádio transmite este repugnante
teatro de marionetas. Dá quase a ideia de que os soldados
têm orgulho das suas feridas: mais e melhor:
Um deles a quem o Führer consentiu em apertar a
mão-caso ainda tivesse alguma-nem conseguiu falar.
Tua Anne
Sexta-feira, 19 de Março de 1943
Querida Kitty:
à alegria seguiu-se uma decepção muito maior. Afinal
a Turquia ainda não entrou na guerra. O Ministro do
Exterior só apelou no seu discurso para que cessasse a
neutralidade. O vendedor dos jornais no "Pan" tinha
gritado :
"A Turquia está do lado dos ingleses".
Assim nasceu o boato e chegou até nós.
As notas de 500 e 1000 florins vão deixar de ter valor.
Os negociantes do mercado "negro" e os possuidores de
dinheiro "negro" vão-se ver em maus lençóis, mas o problema
é também grave para as pessoas "mergulhadas".
Quando se quer trocar uma nota de mil florins é-se obrigado
a declarar e a provar donde ela vem. Para já, mas
só até ao fim da próxima semana, ainda estas notas podem
ser utilizadas para pagamento dos impostos.
O Dussel recebeu a sua broca de mão e, em breve,
vai examinar os meus dentes.
O "Führer" de todos os germânicos falou perante os
seus soldados feridos e depois "conversou" ainda com eles.
Que tristeza ouvir aquilo! Um exemplo:
-Meu nome é Heinrich Scheppel!
-Onde ficou ferido?
-Diante de Estalinegrado.
-Que feridas tem?
-Perdi os dois pés por causa do frio e fracturei o
pulso esquerdo!
Tua Anne.
Quinta-feira, 25 de Março de 1943
Querida Kitty:
A mãe, o pai, a Margot e eu estávamos ontem muito
bem dispostos quando entrou o Peter e segredou qualquer
coisa ao pai. Ouço: "Entornou-se um barril no armazém"
e "alguém tentou abrir a porta".
A Margot também ouviu, mas fez os possíveis para
me acalmar, pois eu estava branca como a cal quando o
pai saiu do quarto com o Peter. Ficámos os três à espera,
mas dois minutos depois apareceu a sra. van Daan que
tinha estado no escritório particular a ouvir rádio. O pai
pedira-lhe que fechasse o rádio e que saísse sem fazer
ruído. Mas quando a gente quer ter muita cautela, ainda
é pior. E ela disse que os degraus da velha escada tinham
rangido medonhamente debaixo dos seus pés. Mais cinco
minutos... O pai e o Peter voltaram, ambos pálidos até
à raiz dos cabelos. Contaram-nos o que se passava: sentados,
lá em baixo, puseram-se à escuta, mas primeiro, não
ouviram nada. Depois, de repente ouviram duas pancadas
fortes como se alguém tivesse batido com as portas. De um
pulo o Pim correu escada acima, o Peter foi buscar o Dussel
que, antes de mais nada, arrumou as suas coisas. Então
subimos todos, em meias, para cima. O sr. van Daan
está constipado e, por isso, já se tinha deitado. Juntamo-nos
todos em volta da sua cama e contamos, em voz
baixa, as nossas suspeitas. Quando o sr. van Daan tossia
alto, a sra. van Daan e eu quase desmáiavamos de susto,
até que enfim alguém teve a ideia luminosa de lhe dar
codeína. A tosse acalmou imediatamente.
Esperámos... Como não ouvimos mais nada, calculámos
que os ladrões tinham fugido ao ouvir, de repente,
passos numa casa tão calma.
Lembrámo-nos de que, por mal dos nossos pecados, o
rádio ainda estava sintonizado para a emissora inglesa e
que as cadeiras estavam desarrumadas. Assim, qualquer
pessoa perceberia imediatamente que, pouco tempo antes,
tinha estado gente naquele quarto. No caso de os ladrões
terem arrombado a porta e os da defesa antiaérea darem
por ela, a polícia seria avisada e as consequências podiam
ser muito sérias.
O sr. van Daan levantou-se, vestiu o casaco, pôs o
chapéu e desceu cautelosamente com o pai. O Peter ia
atrás, levando um martelo para o que desse e viesse.
As senhoras, a Margot e eu esperámos com grande ânsia.
Cinco minutos mais tarde os senhores voltaram para nos
dizer que estava tudo em ordem. Combinámos não abrir
as torneiras e não puxar o autoclismo no W. C. Mas como
o susto provocou o mesmo efeito em todos nós, podes imaginar
o cheirete num certo sítio...
Quando acontece uma coisa má vem outra logo a
seguir. Foi o que aconteceu. Primeiro: o sino da Westertorenjá
não toca. Achava-o tão bonito e calmante! Segundo:
sabíamos que o sr. Vossen tinha saído mais cedo na noite
anterior, mas o que não sabíamos era se a Elli, depois,
tinha levado as chaves ou se, porventura, se esqueceu de
fechar a porta. Estávamos todos um tanto inquietos, embora
não se ouvisse o menor ruído desde as oito horas-e já
eram onze. Depois de estarmos menos excitados parecia-nos-pensando
agora com calma-quase inconcebível
que algum ladrão tivesse arrombado a porta numa hora
em que ainda anda tanta gente na rua. A um de nós
ocorreu a ideia de que um contramestre da casa vizinha
tivesse estado a trabalhar. Como as paredes são pouco
espessas, é fácil confundir o som dos ruídos, especialmente
quando se está aflito, e a imaginação também toma um
papel importante nesses momentos espinhosos. E assim
fomo-nos deitar, mas ninguém conseguiu dormir bem.
O pai, a mãe e o Dussel estiveram toda a noite sobressaltados
e eu, sem exagero, não preguei olho...
Hoje de manhã os senhores desceram para ver se a porta de entrada estava ainda fechada. Tudo
parecia estar
em ordem. Contámos os acontecimentos tão aflitivos, com
todos os pormenores, aos nossos protectores, que
troçaram de nós, mas depois de as coisas se terem
passado é fácil rir! Só a Elli é que nos tomou a sério.
: Tua Anne.
Sábado, 27 de Março de 1943
Querida Kitty:
O curso de estenografia terminou. Estamos agora a
treinar-nos em velocidade e havemos de conseguir chegar
ao máximo. Vou contar-te coisas do meu "trabalho-de-matar-o-tempo"
(esta designação inventei-a eu, porque,
ao fim e ao cabo, tudo aqui se faz para preencher o tempo
até ao dia em que já não precisarmos de estar aqui). Estou
entusiasmadíssima com a mitologia e o que mais me
interessa são as lendas dos Deuses gregos e romanos. "São
entusiasmos passageiros" dizem aqui, porque nunca
ouviram dizer que uma adolescente se tivesse dedicado
à mitologia. Mas eu posso bem ser a primeira!
O sr. van Daan está constipado ou antes : arranha-lhe um
bocado a garganta e ele faz disto um grande acontecimento :
gargareja, toma chá de marcela, pincela a garganta com
tintura de mirra, põe pomada no nariz, no pescoço, no
céu da boca e na língua. E, além disso... tem mau génio.
Rauter, um dos alemães mais importantes nesta terra,
fez um discurso: todos os judeus têm de desaparecer,
até 1 de Julho, dos países germânicos. Far-se-á a limpeza
(como se se tratasse de baratas!) na província de Utrecht
do primeiro de Abril até ao primeiro de Maio, na Holanda
do Norte; e do Sul do primeiro de Maio até ao primeiro
de Junho. Como a um rebanho de pessoas doentes e inúteis,
levam a pobre gente ao matadouro. Mas não quero falar-te
mais nisto. Os meus próprios pensamentos
provocam-me pesadelos. Também há novidades boas : a repartição de trabalho foi sabotada,
incendiada e, alguns dias mais tarde, aconteceu o mesmo à repartição da população. Homens
metidos em uniformes da policia alemã subjugaram os guardas e depois fizeram desaparecer
ficheiros importantes, de
maneira que as convocações e as buscas tornam-se agora
bem mais difíceis.
Tua Anne
Quinta-feira, 1 de Abril de 1943
Querida Kitty:
Não há disposição para graças (repara na data)! Aqui
justifica-se o provérbio: "Uma desgraça não vem só".
Primeiro : o nosso protector, sr. Koophuis, que nos anima
sempre, teve ontem uma forte hemorragia do estômago
e tem de estar três semanas de cama. Segundo: a Elli
está com gripe. Terceiro: para a semana o sr. Vossen dá
entrada no hospital. Parece que tem uma úlcera e que
o vão operar.
Tinham sido feitos planos para uma importante reunião
de negócios. O pai tinha tratado tudo com o sr. Koophuis.
Agora não há tempo para dar instruções ao Kraler e o pai
treme só de pensar no decorrer da reunião.
-Se eu pudesse estar presente! - disse. - Se eu pudesse
estar lá em baixo!
-Porque não te deitas no chão?-aconselhámo-lo.-Os
senhores negoceiam no escritório particular. Com certeza
podes ouvir tudo.
A cara do pai iluminou-se. às dez e meia ele e a Margot
tomaram as suas posições e escutaram. Duas pessoas ouvem
mais do que uma. As negociações não acabaram da parte
da manhã, mas à tarde o pai não teve coragem para se
deitar novamente naquela posição. Estava como que
moído. Quando às três horas se ouviram as vozes lá em
baixo, tomei eu o lugar do pai e a Margot deitou-se ao
meu lado. As conversas eram muito longas e aborrecidas
e, de repente, adormeci naquele oleado tão duro e tão frio.
A Margot não ousou dar-me um empurrão, com medo
de que lá em baixo notassem alguma coisa. Dormi uma boa
meia hora e quando acordei já tinha esquecido as coisas
mais importantes. Mas, felizmente, a Margot tinha estado
com mais atenção.
Tua Anne.
Sexta-feira, 2 de Abril de 1943
Querida Kitty:
Mais um pecado para a minha lista. Ontem estava à
espera que o pai, como de costume, viesse para rezar
comigo e para me dizer boa-noite. Mas veio a mãe. Sentou-se
na minha cama e perguntou, modesta e hesitante :
-Anne, o pai ainda não pode vir. Vamos rezar as duas.
-Não, mãe-respondi.
A mãe levantou-se, ficou parada ao lado da minha
cama. Depois dirigiu-se devagarinho para a porta. De
repente virou-se e, desfigurada, disse :
-Não estou zangada, Anne. O amor não é coisa que
se possa pedir a alguém.
Corriam-lhe as lágrimas pela cara abaixo.
Fiquei muito quieta e senti que fui má, por tê-la
afastado tão brutalmente, mas não podia responder de
outra maneira. Não sou capaz de fingir e de rezar com ela
contra a minha vontade. Palavra que não sou capaz.
Tenho pena da mãe, muita pena até, pois compreendi,
pela primeira vez, que a minha atitude não lhe é indiferente.
Li a dor na sua cara, quando me disse que o amor
não era coisa que se pudesse pedir a alguém. É duro dizer
a verdade. Mas a verdade é que ela me afastou de si.
Foi com as suas observações pouco delicadas e as suas
gracinhas sobre coisas que para mim são muito sérias.
Assim como em mim tudo se constrange quando ela é
dura, também agora se constrangeu o seu coração, quando
compreendeu que entre nós se tinha extinguido o amor.
Chorou durante toda a noite, quase não dormiu. O pai
nem olha para mim, e quando o faz leio-lhe a acusação
nos olhos : "Como foste capaz de ser tão má para tua mãe?
Como pudeste fazê-la sofrer tanto?"
Estão à espera que peça desculpa. Mas eu não posso
pedir desculpa, pois só disse o que é verdade, e mais cedo
ou mais tarde a mãe ficava a sabê-lo. Parece-me que já
não me importo tanto com as lágrimas da mãe e o olhar
do pai. Não, já não me importo. Pela primeira vez, os
dois se aperceberam do que eu sinto continuamente. Sim,
posso ter pena da mãe, mas só ela própria deve procurar
reencontrar-me. Quanto a mim continuarei calada e fria
e nunca terei medo da verdade. É sempre melhor não
adiar o que tem de se dizer.
Tua Anne.
Terça-feira, 27 de Abril de 1943
Querida Kitty:
Estamos todos zangados uns com os outros, os van
Daans, a mãe, o pai, etc. Lindo ambiente, não te parece?
A lista completa dos pecados da Anne chegou a ser desencantada
e discutida em toda a sua extensão.
O sr. Vossen está no hospital. O sr. Koophuis já anda
a pé. Desta vez a hemorragia do estômago passou mais
depressa do que de costume. Koophuis contou-nos que a
repartição da população ficou muito destruída depois do
assalto. Porque os bombeiros, em vez de extinguirem o
fogo, não, inundaram o edifício todo e os danos são agora
enormes e o Hotel Carlton foi destruído. com o "lar dos
oficiais" e toda a esquina da Vijzelstraat-Singel ficou
destruída pelo fogo.
Dois aviões ingleses, que transportavam grande carga de
bombas incendiárias, despenharam-se precisamente neste
ponto.
Já não há um pouco sequer de sossego durante as noites.
Tenho grandes olheiras porque não consigo dormir.
A comida está uma miséria : os pequenos almoços pão
seco e cevada. Ao almoço há mais de quinze dias, ou
espinafres ou salada, e as batatas, de vinte centímetros de
comprimento são vermelhas e doces. Quem quiser emagrecer que venha viver connosco
Os de cima gemem. Mas nós ainda não fazemos disto uma
tragédia.
Todos os homens que tinham sido mobilizados ou que
combateram "na guerra de cinco dias" em 1940 foram
convocados como prisioneiros de guerra e têm de trabalhar para o "Führer". Mais uma medida
de precaução contra a invasão!
Tua Anne.
Sábado, 1 de Maio de 1943
Querida Kitty:
Se me ponho a pensar na nossa vida aqui, chego sempre
à mesma conclusão : nós, em comparação com os
judeus que não conseguiram esconder-se, ainda estamos
como que no paraíso. Mas mais tarde, quando tudo estiver
normalizado e eu me puser a pensar naquilo que vivi,
ficarei, decerto, admirada dos limites a que nós chegámos,
especialmente no que respeita aos nossos costumes. Usamos,
por exemplo, desde que aqui entrámos, a mesma toalha
de oleado na mesa, e deves calcular que ela não ficou mais
bonita pelo uso. Com um trapo, que é mais buracos do que
trapo, tento dar-lhe um pouco de "brilho", mas em vão.
Os van Daans não puderam lavar, durante todo o Inverno,
o lençol de flanela que serve para poupar os colchões,
porque o sabão é raro e muito fraco. O pai anda com umas
calças no fio e a gravata já está muito gasta. A cinta da
mãe rasgou-se-lhe, de velha, e a Margot usa um soutien
que lhe é apertado de mais. A mãe e a Margot, durante o
Inverno remediaram-se as duas com três camisas, e as minhas
estão-me curtas, dão-me pela anca. Isto agora ainda vai.
Mas assusta-me quando pergunto a mim mesma : será
possível que nós tão terrivelmente esfarrapados, com tudo
tão gasto, a começar pelas minhas solas e a acabar no
pincel de barbear do pai, voltemos algum dia à mesma
vida de outrora?
Hoje os aviões bombardearam a cidade terrivelmente,
sobretudo durante a noite. Estive resolvida a juntar o
indispensável e preparar uma "mala de fuga", mas a mãe
disse e muito bem:
-Para onde querias fugir?
Toda a Holanda está a ser castigada, por haver sabotagens por toda a parte. Foi declarado o
estado de sítio e tiraram uma ração de manteiga a cada pessoa. É assim
que se castigam as crianças mal comportadas!
Hoje, à tardinha, lavei a cabeça à mãe. Não é coisa
fácil. Temos de nos remediar com o sabão amarelo e pegajoso
e, além disso, custa muito pentear o cabelo forte da mãe
com o pente da família que já só tem dez dentes.
Tua Anne
Terça-feira, 18 de Maio de 1943
Querida Kitty:
Observámos um combate aéreo entre aviões alemães
e ingleses. Infelizmente a tripulação de dois ingleses teve
de abandonar os aparelhos, saltando em pára-quedas.
O nosso leiteiro que mora no caminho para Harlen, viu
quatro canadianos, dos quais um falava perfeitamente
holandês e que lhe pediu lume para o cigarro. Contou-lhe
que a sua tripulação se compunha de seis homens, mas que
o piloto, infelizmente, morrera no incêndio e o sexto
companheiro se tinha escondido não se sabia onde. Depois
veio a polícia verde e prendeu os quatro aviadores. é
admirável a calma e presença de espírito destes homens,
depois de um salto assim!
Embora já haja calor, precisamos de acender o fogão
para queimar os despojos da hortaliça e de outras porcarias.
Temos de ter cautela por causa do criado do armazém
e não podemos deitar nada no balde do lixo. Qualquer
pequeno desleixo podia traír-nos.
Todos os estudantes são obrigados a assinar uma declaração
de lealdade como sinal de simpatia para com os
ocupantes. Depois podem continuar os estudos. Oitenta
por cento, no entanto, não foram capazes de assinar contra
a sua convicção e de se vender. As consequências não se
fizeram demorar. Todos os estudantes que não assinaram
são obrigados a trabalhos forçados na Alemanha. O que
vai ser da juventude holandesa se as coisas continuarem
assim?
Hoje à noite a mãe fechou a janela porque o barulho
dos bombardeamentos tornava-se insuportável. Eu dormia
na cama do Pim. De repente ouvimos a sra. van Daan a
gritar. Saltou fora da cama como se uma tarântula a tivesse picado. Depois ouviu-se uma forte
explosão. Imaginei logo
que uma bomba incendiária tinha caído junto da cama
dela e gritei :
-Luz, luz!!!
Pim acendeu a luz e eu esperava que o quarto, dentro
de poucos minutos, fosse devorado pelo fogo. Mas tudo
ficou na mesma. Precipitámo-nos escada acima para ver
o que tinha acontecido. Os van Daans tinham visto um
clarão de fogo pela janela. Ele era de opinião que o incêndio
devia ser perto, em qualquer parte, mas ela na sua imaginação,
já estava a ver a nossa casa a arder. A explosão
fê-la saltar da cama. Mas como não se ouvia nem via
mais nada voltámos a deitar-nos. Depois de um quarto
de hora o barulho dos canhões recomeçou. A sra. van Daan
fugiu do quarto, desceu a escada e refugiou-se junto do
sr. Dussel. Pelos vistos o marido não a sabia proteger!
O sr. Dussel recebeu-a com estas palavras:
-Deita-te ao meu lado, minha filhinha!
Desatámos todos a rir e assim salvámos a situação.
Tua Anne