O Diário de Anne Frank - On line Parte 1


De 12 de Junho de 1942 a 1 de Agosto de 1944
A edição original desta obra foi publicada em
Amesterdão, pela editorial - Contact - com o
Título - Het Achterhuis. - Achteruis - significa atrás
ou por detrás, a "huis", casa. Nas velhas casas
de Amesterdão as dependências que dão para o
jardim ou para o pátio podem separar-se das
partes voltadas para a rua de modo a ficarem independentes, embora pertençam ao mesmo
prédio.
Por não haver expressão apropriada em português,
resolvemos chamar a esta parte da casa
"o anexo", apesar de não ser propriamente um anexo.
Utilizámos para a tradução do livro a edição
alemã e o original holandês.
PREFÁCIO
ANNE Frank pertencia a uma família judaica de Frankfort
que, em 1933, fugindo às perseguições do regime hitleriano,
se refugiou na Holanda, onde supunha encontrar a paz e a segurança. Mas, logo depois da
invasão da Holanda pelos alemães, as perseguições aos judeus continuaram ali com tal violência
que os Frank resolveram - mergulhar -, designação que então se dava ao desaparecimento
voluntário de pessoas perseguidas-ou por razões políticas ou por discriminações raciais-e que
passavam a ter uma existência ilegal ou clandestina. Durante dois anos, que abrangem o período
de guerra de 1942 a 1944,
não podem sair à rua e vivem sob a constante ameaça de serem
descobertos pela polícia.
Anne, rapariga em pleno período de desenvoLvimento físico,
esse período delicado e importante na vida de qualquer
adolescente, mas especialmente decisivo quando se tem uma
sensibilidade e uma inteligência como a dela, escrevia com
regularidade um diário, em forma de cartas, a uma amiga
imaginária. Este diário tornou-se não só um dos mais
comoventes depoimentos contra a guerra, contra a injustiça e a crueldade dos homens como,
também, um dos mais puros documentos psicológicos que todos, e sobretudo os que contactam
com gente nova, deviam ler.
Anne não escreveu o seu diário a pensar na publicidade, nem
porque fosse incitada a fazê-lo, mas única e simplesmente
porque tinha de o escrever-para si própria, para - aliviar - o coração, como ela diz várias vezes,
por essa forte necessidade íntima que caracteriza o artista e a que ela não se poderia furtar, nem
que quisesse.
"Quando escrevo sinto um alívio, a minha dor desaparece, a
coragem volta... Ao escrever sei esclarecer todos os meus
pensamentos, os meus ideais, as minhas fantasias".
,Não se trata, portanto-e isto é fundamental-, de uma dessas
produções de menino prodígio, lançado e explorado pela família
comercialmente, mas sim de uma autêntica obra de arte a que
um crítico suíço chamou - uma confissão clássica da
puberdade de hoje, que ultrapassa todos os limites do
circunstancial.
Como é que foi possível escrever-se uma obra destas entre os
treze e os quinze anos de idade? Tão extraordinário caso tem
a sua explicação: o isolamento, os sacrifícios diários, as
angústias, o medo e, principalmente, a morte, a pairar sobre
esta criança de uma inteligência e de um espírito de
observação invulgares, fizeram
com que ela amadurecesse prematuramente e fosse assim, pouco
a pouco, penetrando em regiões que, em circunstâncias normais,
só viria a explorar muito mais tarde. Ela própria sente isto e
explica-o: "Vim para o anexo quando tinha treze anos e, por
isso, fui obrigada a reflectir mais cedo sobre o Mundo e a
fazer a descoberta de mim mesma como de um ser humano que
deseja ser independente..No entanto é preciso notar: Anne não
perde a frescura infantil nem esses gostos próprios do
adolescente, como por exemplo coleccionar fotografias de
artistas de cinema ou fantasiar-se
com as roupas dos adultos. É que Anne não é um monstro, Anne
é apenas uma adolescente a quem quiseram roubar o direito de o ser.
.Nem a criança nem o adolescente sabem, em regra, compreender-se e analisar-se. É o adulto
que, com a distância dos anos, a experiência da vida, a cultura e a serenidade
indispensáveis, contempla e interpreta estes períodos passados
da sua vida. Por isso Anne Frank há-de ser um dos casos à
parte na literatura universal, com um significado denso e único.
Anne Frank vivia torturas que marcam qualquer indivíduo
de qualquer idade mas muito especialmente um indivíduo em
formação. Forçada a viver como um pássaro na gaiola Sinto-me
como um pássaro a quem cortaram as asas e que bate,
na escuridão, contra as grades da sua gaiola estreita -, afina
os sentidos, concentra-os sobre o pequeno espaÇo em que a sua
vida e a dos companheiros de destino se move, procura não só
desabafar a sua revolta de adolescente, de judia expulsa da
comunidade dos homens, vítima de uma guerra impiedosa, mas, também, encontrar as
explicações e as interpretaÇões de tudo isto.
Ao leitor atento não pode escapar o crescendo dos

apontamentos de Anne, tanto no que respeita ao seu espírito
analítico como à própria força emocional. Se as primeiras
páginas, escritas ainda
no período de liberdade, são puramente infantis e correspondem
à sua idade real, as últimas, que precedem a interrupção
definitiva do diário, são de uma tal maturidade que nos fazem
estremecer pelo seu profundo poder de introspecção e
compreensão.
- Vejo-me em todos os meus actos como se se tratasse de uma
pessoa estranha. Enfrento esta Anne com absoluta
imparcialidade, sem pretender desculpá-la e observo o que ela
faz de mal e de bem. Esta autocontempLação nunca me larga, e
não posso pronunciar uma palavra sem pensar logo em seguida:
"devia ter dito isto de outra maneira", ou: "foi bem dito...".
Os outros só nos podem dar conselhos ou indicar-nos o caminho
a seguir. Mas a formação definitiva do carácter está nas
próprias mãos de cada indivíduo.
Reencontramo-nos em Anne! Sentimos a verdade, nua e crua,
em cada uma das suas palavras. E é precisamente por isso, pela
identidade dos sentimentos humanos, independentes de latitudes
e de raças, que esta obra ganha cunho de universalidade, de
documento humano.
Eis a pergunta que nos surge: terá a morte, sempre à
espreita, dado a Anne um empurrão mais forte, obrigando-a
urgentemente a apanhar e exprimir a vida em flagrante, antes
de esta lhe fugir?
Ao considerar que Anne se limita quase exclusivamente a
apontar os acontecimentos diários da vida no esconderijo,
verificamos com espanto que nunca lhe falta assunto. Até uma
caneta, que por engano foi parar ao fogão e ardeu, lhe serve
para escrever uma "Ode à minha caneta". Num estilo simples,
cristalino, invulgar em pessoas da sua idade, que costumam
usar uma linguagem pretensiosamente - literária -, desenha,
com admirável facilidade, o ambientt e as pessoas.
Todas as figuras se tornam nossas conhecidas, familiares,
com as suas atitudes e os seus comportamentos tantas vezes
contraditórios e, justamente por isso, tão reais. Anne não vê
com sentimentalismo nem com ódio, e como no seu mundo não há
ninguém perfeito nem ninguém absolutamente imperfeito, todos são vivos, quase palpáveis.
É óbvio que as reacções de Anne dependem muito da sua disposição e que as suas personagens
surgem filtradas pelas suas dores, desânimos, alegrias, paixões e perspectivas, de modo que umas
vezes são mais aceitáveis do que outras. Mas não é assim, mesmo na vida, e não vemos nós, ao
fim e ao cabo, as
pessoas não apenas como são, mas também conforme a nossa
disposição do momento?
Não falta a Anne aquele raro dom que Thomas Mann considerava
indispensável para se seguir uma obra de arte:
o sentido do humor. Estudando-se sempre a si própria, ela
reconhece os seus defeitos e as suas quaLidades. E quanto ao
seu sentido do humor diz:
"...e mesmo nos momentos mais perigosos, vejo ainda o
cómico da situação e não posso deixar de me rir".,Se, por um
lado, o próprio Thomas Mann está presente nesta frase, está-o
talvez mais ainda Charlie Chaplin..Não vê ele nos momentos
mais trágicos, mais perigosos - e mesmo na sua balada judaica
"O Ditador" -o cómico das situações?
Assim, parece-nos verdadeiramente chaplinesca a descrição do
assaLto ao armazém, nessa terrível noite que ficará gravada na
memória de todos como a mais angustiosa das noites passadas
no - anexo -, onde se pressente, apesar do abalo forte que
Anne sofreu, o sorriso a brincar-lhe nos lábios quando ela,
por exemplo, conta como acordou com a cabeça da sra. van Daan
em cima dos seus pés. Chamamos também a atenção para cenas
como aquela em que o grupo - mergulhado - descasca as
batatas, ou aquelas em que a sra. van Daan desafia o marido
com as suas conversas políticas. Em meia dúzia de traços,
através de diálogos vivos
e sem que a autora intervenha a explicar as personagens, elas
são recortadas de modo que se nos revelam com todas as suas
virtudes, manhas e limitações.
Talvez haja momentos em que Anne possa parecer-nos demasiado
dura, sobretudo quando fala das suas relações com a mãe,
ou se queixa do pai, este admirável homem que ela, bem o sentimos, coloca acima de tudo e de
todos. Mas a dureza de Anne não é mais do que o resultado do conhecido conflito da
adolescência a que ela, por ser inteligente e incapaz de aceitar as coisas incondicionalmente, dá
expressão. O choque com a mãe, pouco atenta aos problemas íntimos da fiLha, é inevitável e
agrava-se devido às circunstâncias em que são obrigadas a conviver. Provavelmente, ter-se-ia
atenuado numa vida normaL, como aliás a própria Anne reconhece mais de uma vez.
Todos os - mergulhados - sofrem as consequências daqueLe
isolamento. Sentimos-lhes a tensão nervosa que, em grande
parte, provém da saturação de um convívio ininterrupto e
forçado, em espaço tão restrito. E Anne, vendo como a
mesquinhez se apodera daquela gente a que falta a liberdade,
põe-na em flagrante contraste com esses corajosos holandeses, os protectores do pequeno grupo,
que, sempre que entram em cena, trazem consigo a aragem fresca do mundo exterior.
Mas, apesar de tudo, dá-se no pequeno mundo de sofrimentos
do - anexo - o eterno milagre da vida: o despertar do amor
entre Anne e Peter. São de uma insuperável pureza as
descrições dos seus primeiros idílios. "Quando o Peter e eu
estamos sentados num caixote duro, no meio de ferros velhos e de pó, muito juntos, eu com um
braço em volta dos seus ombros, ele com um braço em volta dos meus ombros, quando ele
brinca com uma madeixa do meu cabelo, quando lá fora se ouve o chilrear dos pássaros, quando
se vêem as árvores a pintarem-se de verde, quando o Sol nos chama e o ar é todo ele azul, oh!,
então os meus desejos são infinitos". Mas sabemos desde logo que aquele rapaz bonito, bom, um
tanto simplório, não pode corresponder às ânsias e exigências de uma rapariga como Anne que,
em determinada altura, aponta no seu diário: "O melhor seria que ele, na maior parte das vezes,
estivesse acima de mim", e mais tarde: "O Peter e eu passamos
os dois anos mais importantes para a nossa formação aqui no
anexo, falamos muitas vezes sobre o passado, o presente e o
futuro, mas, como eu já disse, sinto a falta de qualquer coisa
de mais autêntico; e eu tenho a certeza de que essa coisa
existe". De resto, Anne, pela força e intensidade da sua vida interior, pela sua imensa sede de
penetrar nas profundidades da vida e ainda pelo que nela há de extraordinário, digamos mesmo
de maravilhoso, e, em certa medida, de inacessível para pessoas como o Peter van Daan, está,
desde logo, condenada àquela solidão de todas as pessoas que ultrapassam os limites das normas
gerais.
Por tudo o que neste livro está expresso: os problemas
comuns a todos nós - a nossa coragem, as nossas fraquezas e,
também, as nossas esperanças-, apercebemo-nos mais do que
nunca do absurdo
de todas as teorias de discriminação racial..Ninguém pode
deixar de sentir, ao ler as cartas de Anne Frank, como, ao fim
e ao cabo, as alegrias e as lágrimas humanas são as mesmas em
todos os seres humanos e em todas as partes do mundo.
Assim o sentiu, também, a juventude alemã de hoje, cuja
reacção perante esta obra talvez seja, desde há muito, o mais
luminoso clarão de esperança que temos visto brilhar.
Anne Frank, vítima de uma época de injustiças e de violências
desumanas, tornou-se um símbolo. As várias manifestações de
simpatia de que é objecto culminaram, em 1 de Março último,
com uma peregrinação de jovens alemães ao antigo campo de
concentração de Bergen-Belsen, onde o corpo de Anne foi
atirado, com centenas de milhares de outros corpos, para a vala comum. - Não queremos trilhar
os caminhos dos nossos pais -, é o lema desta nova juventude.
E vem-nos à mente esta frase que Anne escreveu pouco antes da sua deportação para as fábricas
da morte: "Creio no
que há de bom no homem" frase que define toda a força e
generosidade dessa pobre criança, radiante da sua mocidade,
que soube exprimir todo um mundo de problemas da juventude dos
nossos dias: "Eis a dificuldade do nosso tempo: mal começam a
germinar em nós ideais, sonhos, belas esperanças, logo a
realidade cruel se apodera de tudo isto para o destruir
totalmente".
Mas não conseguiram destruir a força de Anne Frank. A sua
obra, já traduzida em dezanove línguas e estudada nas classes
superiores dos liceus alemães, ergueu-se como implacável
libelo contra os seus assassinos. Anne Frank vive e continuará
a viver ainda por muito tempo. Em 4 de Abril de 1944 escreveu:
- Quero continuar a viver depois da minha morte -. Cumpriu-se
o seu desejo.
Para nossa orientação e para melhor podermos informar o
leitor, pusemo-nos em contacto com o sr. Otto Frank, pai de
Anne, o único sobrevivente das oito pessoas que viveram
escondidas no - anexo -. Eis os esclarecimentos que nos deu:
Os oito - mergulhados - foram primeiro encerrados no campo
de concentração de Westerbrok, na Holanda, e depois
transferidos para o campo de Auschwitz, na Alta Silésia, nos
princípios de Novembro de 1944. Anne e sua irmã foram levadas
para o campo de Bergen-Belsen, no norte da Alemanha, onde
ambas morreram.
.Nunca se pôde averiguar quem denunciou o esconderijo.
Os adultos falavam quase sempre em alemão, porém os adolescentes, que tinham frequentado a
escola de Amesterdão,
preferiam falar e escrever em holandês.
Salvaram-se e ainda existem alguns dos contos de fadas e
outras histórias que Anne escreveu. Dois deles estão
publicados em língua holandesa e alemã com os títulos - Wet
je nog - e - Weisst du noch -, respectivamente.
ILSE LOSa
Na sexta-feira acordei às cinco horas. Não era de
admirar, pois fazia anos; mas não queriam que eu me
levantasse tão cedo e tive de dominar a minha curiosidade
até às sete menos um quarto. Depois não pude mais.
Corri para a sala de jantar, onde o Mohrchen, o nosso
gatinho, me cumprimentou com grandes festas. Depois
das sete fui ter com meus pais e com eles entrei na sala
de estar, para desembrulhar e ver as minhas prendas.
Foi a ti, meu diário, que vi em primeiro lugar, e eras,
sem dúvida, a prenda mais bonita. Tive um ramo de rosas
um cacto, algumas begónias. Eram as primeiras prendas
de flores, mas, depois, recebi muitas mais. O pai e a mãe
deram-me muitas coisas e os amigos também me estragaram
com mimos. Assim recebi, entre outras prendas,
a - câmara escura -, um jogo, muitas guloseimas, um jogo de
paciência, um broche, - Os Mitos e Lendas Holandeses de Joseph Gohen, e ainda um livro
encantador - A viagem
de férias de Daisys à serra -, e dinheiro com que depois
comprei os - Mitos gregos e romanos -. Estupendo!
Depois veio Lies buscar-me e fomos para a escola.
Primeiro ofereci rebuçados aos professores (2) e aos
colegas e depois comeÇámos a trabalhar.
Por hoje vou terminar.
Estou tão contente De te ter a ti.
Segunda-feira, 15 de Junho de 1942
Sábado à tarde foi a festa dos meus anos. Passámos
um filme - O guarda do farol - com Rin-tin-tin), que
agradou muito às minhas amigas. Fartámo-nos de fazer
tolices e estivemos divertidíssimas. Vieram muitos rapazes
e raparigas. A mãe teima em querer saber com quem
eu mais tarde gostaria de casar. Julgo que ela ficaria
espantada se soubesse que gosto do Peter Wessel, pois
eu faço-me sempre desentendida quando se fala nele. Com
a Lies Goosens e a Sanne Houtman convivo há anos
e até agora tinham sido elas as minhas melhores amigas.
Ultimamente conheci Jopie van der Waal no Liceu judaico.
Estamos muitas vezes juntas, e hoje é ela a minha melhor
amiga. A Lies anda agora mais vezes com uma outra
amiga, e a Sanne frequenta outra escola onde arranjou
uma amiga.
Sábado, 20 de Junho de 1942
Durante uns dias não escrevi nada porque, primeiro
quis pensar seriamente na finalidade e no sentido de um
diário. Experimento uma sensação singular ao escrever
o meu diário. Não é só por nunca ter - escrito -, suponho
que, mais tarde, nem eu nem ninguém achará interesse
nos desabafos de uma rapariga de treze anos. Mas na
realidade tudo isso não importa. Apetece-me escrever e
quero aliviar o meu coração de todos os pesos.
- O papel é mais paciente do que os homens -. Era
nisso que eu pensava muitas vezes quando, nos meus dias
melancólicos, punha a cabeça entre as mãos e sem saber
o que havia de fazer comigo. Ora queria ficar em casa,
ora queria sair e, a maior parte das vezes, ficava-me a
cismar sem sair do sítio. Sim, o papel é paciente! E não
tenciono mostrar este caderno com o nome pomposo de
- Diário - seja a quem for, a não ser que venha a encontrar
na minha vida o tal - grande amigo - ou a tal - grande
amiga -.
De resto, a mais ninguém poderá interessar o que
vou escrever. E pronto!, cheguei ao ponto principal de
todas estas considerações: não tenho uma verdadeira amiga!,
vou-me explicar melhor, pois ninguém pode compreender
que uma rapariga de treze anos se sinta só. É, de facto,
coisa estranha. Tenho pais simpáticos e bons, tenho uma
irmã de dezasseis anos, ao todo, por aí uns trinta conhecidos
ou o que se chama geralmente - amigos -. Tenho
uma comitiva de admiradores que me fazem todas as
vontades. Mesmo na aula tentam ver-me o rosto com um
espelhinho de bolso e só se dão por satisfeitos quando
lhes sorrio. Tenho parentes, tias e tios, muito simpáticos,
uma casa bonita, e, pensando bem, não me falta nada,
senão uma amiga! Com todos os meus numerosos conhecidos,
só consigo fazer tolices ou falar sobre coisas banais.
Não me é possível abrir-me, sinto-me como que "abotoada".
Pode ser que esta falta de confiança seja defeito meu.
Mas não há nada a fazer e tenho pena de não poder
modificar as coisas.
Por tudo isto é que escrevo um diário. E para evocar na
minha fantasia a ideia da amiga há tanto tempo desejada,
não quero, como qualquer pessoa, assentar só factos. Este
diário é que há-de ser a minha amiga, e vou-lhe pôr um
nome. Essa amiga chama-se Kitty.
Seria incompreensível a minha conversa com a Kitty
se eu não contasse primeiro a história da minha vida,
embora sem grande vontade.
Quando meus pais casaram tinha o meu pai trinta e
seis anos e a minha mãe vinte e cinco. Minha irmã Margot
nasceu em 1926 em Frankfort sobre o Reno; em 12 de
Junho de 1929 vim eu. como somos judeus, emigrámos,
em 1933, para a Holanda, onde meu pai se tornou director
da Travis A-G. Esta firma trabalha em estreita ligação
com a Kolen 82 Go., no mesmo edifício.
A nossa vida decorria com as aflições do costume,
pois as pessoas de família que ficaram na Alemanha não
escaparam às perseguições de Hitler. Depois dos "progroms"
de 1938 os dois irmãos de minha mãe fugiram
para a América. Minha avó veio viver connosco. Tinha
nessa altura setenta e três anos. A partir de 1940 foram-se acabando os bons tempos. Primeiro
veio a guerra, depois
a capitulação, em seguida a entrada dos alemães. E então
começou a miséria. A uma lei ditatorial seguia-se outra;
e, em especial para os judeus, as coisas começaram a ficar
feias. Obrigaram-nos a usar a estrela e a entregar as bicicletas, não nos deixavam andar nos
carros eléctricos e muito menos de automóvel.
Os judeus só podiam fazer compras das 3 às 5 horas-e
só em lojas judaicas. Não podiam sair à rua depois das
oito da noite e nem sequer ficar no quintal ou na varanda.
Não podiam ir ao teatro nem ao cinema, nem frequentar
qualquer lugar de divertimentos. Também não podiam
nadar, nem jogar tenis. ou hóquei, nem praticar qualquer
outro desporto. Os judeus não podiam visitar os criStãos.
As crianças judaicas eram obrigadas a frequentar escolas judaicas. cada vez saíam mais
decretos... Toda a nossa
vida estava sujeita a enorme pressão. Jopie dizia a cada
passo: "Já nem tenho coragem para fazer seja o que for
porque tenho sempre medo de fazer qualquer coisa que
seja proibida".
Em Janeiro deste ano morreu a avózinha. Ninguém
imagina quanto eu gostava dela e que falta me tem feito.
Em 1939, mandaram-me para o jardim-escola - Montessori -.
Depois estudei ainda as primeiras classes primárias naquela
escola. No último ano, a directora, a sra. K., era chefe da
minha turma. No fim do ano despedimo-nos comovidas,
e ambas chorámos muito. Desde o ano passado a Margot
e eu frequentamos o Liceu judaico; ela está no quarto
ano e eu no primeiro.
Nós, os quatro da família, ainda não temos muito de
que nos queixar. Estamos bem. E assim cheguei ao presente,
à data de hoje.
Sábado, 20 de Junho de 1942
Querida Kitty:
Vou começar já. Está tudo tão calmo! O pai e a mãe
saíram e a Margot foi a casa de uma amiga jogar o pingue
pongue. Também me apaixonei ùltimamente por este jogo.
Como nós, os jogadores de pinguepongue, gostamos imenso
de tomar sorvetes, o jogo acaba quase sempre numa excursão
a qualquer das confeitarias onde os judeus ainda podem
entrar: "Delphi" ou "Oasis". Não importa se temos muito
ou pouco dinheiro no porta-moedas. As duas confeitarias
estão tão cheias que entre toda aquela gente sempre se
encontram rapazes das nossas relações ou até um ou outro
admirador. E tantos sorvetes nos querem oferecer que nem
numa semana seríamos capazes de os tomar todos.
Presumo que ficaste admirada por eu, apesar de tão
nova, já falar em admiradores. Infelizmente esta desgraça
é inevitável na nossa escola. Quando um dos rapazes
pergunta se pode acompanhar-me a casa de bicicleta é
certo e sabido que se apaixona logo por mim e que não me
perde de vista durante algum tempo. Depois, pouco a
pouco, vai acalmando, sobretudo porque eu faço de
; conta que não vejo os olhares apaixonados e continuo
alegremente a pedalar. Se, por vezes, aquilo passa das
marcas, ponho-me a fazer umas habilidades na bicicleta,
a minha pasta cai ao chão e, por amabilidade, o rapaz
; vê-se obrigado a descer. Apanha a pasta e até ma entregar
tem tempo para se acalmar. Estes ainda assim são os mais
inofensivos, mas há também alguns que nos atiram beijos
ou nos tocam no braço. Mas comigo a coisa não pega.
Quando isso sucede, desço da bicicleta e declaro que lhes
dispenso a companhia ou finjo-me ofendida e mando-os passear.
E pronto, Kitty, foi colocada a primeira pedra da
nossa amizade. Até amanhã!
Tua Anne
Domingo, 21 de Junho de 1942
Querida Kitty:
Toda a nossa turma treme: a Reunião de conselho dos
professores está à porta. Metade da turma passa o tempo
a apostar quem passa de classe e quem chumba. A Miep
de Jong e eu escangalhamo-nos a rir por causa das nossas
companheiras de carteira que já apostaram todo o seu
dinheiro de bolso. De manhã à noite andam a rezar: "Tu
passas, tu chumbas, sim, não..." Nem os olhares suplicantes
da Miep nem as minhas sérias tentativas para as meter
na ordem conseguem nada daquela gente. Há tantos
mandriões na minha turma que eu, se mandasse, reprovava
metade. Os professores são as pessoas mais caprichosas
do mundo, mas talvez sejam, neste caso, caprichosos no
bom sentido.
Dou-me razoavelmente com os professores e com as
professoras. Ao todo são nove, sete homens e duas senhoras.
O sr. Kepler, o velho professor de matemática, ao princípio
embirrava comigo, por eu palrar muito. Andava
constantemente a avisar-me, até que me marcou um
trabalho de castigo. Mandou-me fazer uma redacção sobre
o tema: "Uma tagarela." Uma tagarela! O que se poderia
escrever sobre isto? Mas não me afligi. Meti o caderno de
exercícios na pasta e esforcei-me por estar calada. à noite,
depois de acabados todos os outros deveres, lembrei-me da
redacção. Roí um bocadinho a pena e pensei no assunto:
escrever umas tretas e com as palavras tanto quanto possível
distanciadas, toda a gente sabe. Mas encontrar uma razão
evidente da necessidade de palrar, aí é que estava o grande
problema. Pensei e tornei a pensar. De repente as palavras
surgiram. Enchi as três folhas obrigatórias, rapidamente,
sem cessar. Aquilo saiu-me bem. Como argumento aleguei que palrar era próprio das mulheres e
que eu de bom
grado faria esforços para me emendar se a minha mãe
não falasse tanto como eu. E, como era sabido, contra
defeitos hereditários pouca coisa se podia fazer.
O sr. Kepler riu-se da minha explicação. Quando na
próxima aula palrei de novo, foi-me marcada outra redacção:
a "tagarela incurável". Lá a escrevi como pude e
durante duas aulas portei-me lindamente. Mas na terceira
aula já não sucedeu o mesmo, e o sr. Kepler achou que
o meu mau comportamento passava das marcas:
- Anne, como castigo por causa da tua tagarelice, vais
fazer uma redacção: cá, cá, cá, cá, a menina que cacareja.
A turma riu a bandeiras despregadas. Também ri, embora
me parecesse que tinha esgotado o meu espírito inventivo
para redacções sobre o palrar. Tinha de encontrar alguma
coisa de novo, de original. A minha amiga Sanne, poetisa
consumada, aconselhou-me a tratar o assunto em verso
e pôs o seu talento à minha disposição. Fiquei entusiasmada.
O Kepler queria fazer pouco de mim, mas eu podia pregar-lhe
uma partida ainda pior.
Fizemos um poema que foi um sucesso. Tratava de
uma mamã de patos e de um "pai cisne". com três patinhos
que, por causa de tanto cacarejar, foram mordidos pelo
pai até morrerem. Felizmente o Kepler compreendeu a
brincadeira e leu o poema em voz alta na nossa e nas
outras turmas. Desde então posso palrar sem que o Kepler
me mande fazer redacções de castigo, mas passou a dizer-me
a cada passo uma piadinha.
Tua Anne
Quarta-feira, 24 de Junho de 1942
Querida Kitty:
Está a escaldar. Todos bufam e transpiram, e por um
calor destes tenho de andar a pé. só agora compreendo
como é bom o carro eléctrico, sobretudo as carruagens
abertas. Mas é um prazer que já não existe para nós, os
judeus. Temos de nos contentar com "as irmãs perninhas".
Ontem,,à hora do almoço, tive de ir ao dentista na
Jan Luykenstraat. É uma caminhada longa desde a nossa
escola, que fica junto do jardim público. Na aula da tarde,
de cansada, por pouco, ia adormecendo. O que vale é que
ainda há pessoas amáveis que nos oferecem de beber
meSmo sem pedirmos nada. A "irmã" no dentista compreende
a nossa situação.
Só um meio de transporte nos é ainda permitido:
-a barca. No molhe de Joseph-Israel há um barquinho,
que a nosso pedido nos leva à outra margem. Em boa verdade,
não é por culpa dos holandeses que a vida é dura
para os judeus.
Ai, se não precisasse de ir para a escola! Durante
as férias da Páscoa roubaram-me a bicicleta, o pai pôs
a da mãe em segurança, em casa de gente conhecida!
Felizmente as férias estão à vista, mais uma semana e estou
livre disto!
Ontem, da parte da manhã, aconteceu-me uma coisa
engraçada. Quando passei por aquele sítio onde costumava
guardar a minha bicicleta, ouvi chamar. Virei-me. Atrás
de mim vinha um rapaz simpático que, na noite anterior,
tinha encontrado na casa da Eva, uma conhecida minha.
Um pouco tímido, disse-me o seu nome: Harry Goldberg.
Fiquei admirada, não sabia bem o que ele queria de mim.
Mas, num instante, fiquei a saber. Queria acompanhar-me
à escola.
Se tens o mesmo caminho, então está bem, disse eu
e caminhámos lado a lado. O Harryjá tem dezasseis anos
e sabe falar com graça sobre muitas coisas. Hoje, de manhã,
estava, de novo, à minha espera e, para já, penso que assim
há-de continuar algum tempo.
Tua Anne
Terça-feira, 30 de Junho de 1942
Querida Kitty:
Até hoje ainda não tive tempo para escrever. Quinta-feira
estive toda a tarde em casa de gente amiga. Sexta
tivemos visitas e assim por diante, até hoje. Harry e eu
conhecemo-nos melhor nesta semana. Contou-me muita
coisa dele. Veio cá para a Holanda com os avós. Os pais
estão na Bélgica.
Harry tem andado, até agora, com uma outra rapariga,
a Fanny. Ela é um modelo exemplar de meiguice e de
enfado. Desde que o Harry me conhece a mim, descobriu
que quase adormece ao lado de Fanny. Sou para ele uma
espécie de estimulante. Nunca a gente sabe para o que
é capaz de servir.
Sábado, a Jopie dormiu cá em casa. A tarde de domingo
passou-a com a Lies e eu aborreci-me de morte. à noite
devia vir o Harry, mas às seis telefonou-me:
-Aqui, Harry Goldberg. Por favor posso falar com
a Anne?
-Sou eu mesma.
-Boa noite Anne. Como estás?
-Bem, obrigada.
-Infelizmente não posso ir aí à noite. Mas queria
muito falar contigo. Podes descer, daqui a dez minutos?
-Está bem. Até já.
Mudei num instante de roupa e dei um jeito ao cabelo.
Depois pus-me à janela, toda nervosa. Finalmente, veio.
É espantoso, mas não me precipitei logo escada abaixo.
Esperei calmamente que ele tocasse à campainha. Depois
desci. Saímos e ele foi direito ao assunto.
- Ouve, Anne, minha avó acha que tu és nova de mais
para mim. Acha que eu devia virar-me de novo para a Fanny Lours. Se calhar soube que eu já
não quero saber
da Fanny para nada.
-Então, zangaste-te com ela?
-Não, pelo contrário. Eu disse-lhe que não ligamos
lá muito bem um com o outro e que, por isso, não vale
a pena encontrarmo-nos tantas vezes. Que pode continuar
a vir à nossa casa e que também eu continuarei a ir à dela.
Desconfiei que a Fanny andasse com outros rapazes, mas
afinal não anda. Meu tio achou que devia pedir-lhe desculpa,
mas não me apetece. Achei preferível acabar assim.
A avó insiste; quer que eu mantenha a amizade com a
Fanny e que não comece a andar contigo, mas eu quero
lá saber disso para nada. Gente velha tem por vezes ideias
à antiga, que me não podem interessar. Não há dúvida
de que dependo de minha avó, mas, em certa medida, ela
também depende de mim. às quartas estou sempre livre.
Os avós julgam que vou às aulas de trabalhos manuais
mas eu tenho ido quase sempre às reuniões dos sionistas.
Não somos sionistas, mas interessava-me conhecer aquilo.
Ultimamente não me sentia à vontade naquelas reuniões
e resolvi não tornar a ir. Assim podemos encontrar-nos
nas quartas e sábados, à tarde e à noite, e no domingo,
à tarde, e talvez mais vezes ainda.
-Mas os teus avós não estão de acordo. Não deves
fazer isso às escondidas.
-No amor ninguém manda.
Passámos pela livraria e dobrámos a esquina. E lá
estava o Peter Wessel com mais dois rapazes. Era a primeira
vez que o tornava a ver e fiquei cheia de alegria.
Harry e eu andámos e tornámos a andar em volta do bairro
e, por fim, combinámos que ele me esperasse na tardinha
seguinte às sete menos cinco, em frente da sua casa.
Tua Anne
Sexta-feira, 3 de Julho de 1942
Querida Kitty:
Ontem esteve cá o Harry. Quis conhecer os meus pais.
Eu tinha ido buscar torta, doces e bolachas e tomámos
chá. Ao Harry e a mim não nos apetecia nada ficar em casa
quietinhos. Saímos, demos um passeio e eram oito e dez
quando ele me deixou em casa.
O pai estava zangadíssimo por eu chegar tão tarde,
que era muito perigoso, para judeus, andar pelas ruas
depois das oito.
Prometi de hoje em diante estar sempre em casa,
pontualmente, às oito menos dez minutos. Amanhã estou
convidada para ir a casa do Harry. A minha amiga Jopie faz
troça de mim por causa dele. Mas não estou apaixonada. Então
não posso ter um amigo? Ninguém acha mal que tenha um
amigo ou-como costuma dizer a mãe-um cavalheiro.
Eva contou-me que o Harry esteve o outro dia em casa
dela e que ela lhe perguntou :
- Quem achas mais simpática,.a Fanny ou a Anne?
-Não tens nada com isso-respondeu ele.
Então não falaram mais no assunto, mas ao despedir-se
o Harry disse:
-A Anne é mais simpática, claro, mas não precisas de
falar nisso a ninguém.
As últimas palavras já foram ditas na rua.
Sinto que o Harry está apaixonado por mim e, para
variar, isto é engraçado. A Margot dizia :
- Um tipo simpático.
- Acho-o também simpático, mais até do que simpático.
A mãe anda encantada com ele.
-Um rapaz bonito, muito gentil e bem educado.
Ainda bem que o Harry agrada tanto a toda a família.
Ele também nos acha a todos muito simpáticos. Só acha
a minha amiga infantil e não deixa de ter razão.
Tua Anne
Domingo, 5 de Julho de 1942
Querida Kitty:
A festa do fim do período correu lindamente. As minhas
notas não são nada más. A pior nota é um cinco em Álgebra;
tenho dois seis, sete em quase tudo e dois
oitos.
Cá em casa ficaram satisfeitos. Não ligam grande
importância às notas boas ou más, dão mais valor ao bom
comportamento e querem acima de tudo que eu tenha
saúde e seja alegre. Dizem eles que havendo saúde e boa
disposição, o resto vem por si, mas eu gostava de ser uma
boa aluna a valer.
Só me admitiram no liceu condicionalmente por me
faltar ainda o último ano da Escola Montessori. A coisa
foi assim:
Quando todos os alunos judaicos tiveram de mudar-se
para escolas judaicas, o reitor, depois de muito palavriado,
admitiu-me a mim e à Lies, mas com muitas reservas.
E agora não quero desiludi-lo. Minha irmã Margot teve
notas brilhantes, como de costume. Se houvesse louvores
ela passaria - com distinção e louvor, a mais alta classificação, pois é muito inteligente.
O pai, desde que não pode ir ao escritório, passa muito
tempo em casa. Deve ser uma sensação horrível, isto de
uma pessoa se sentir, de repente, posta de parte. O sr.
Koophus tomou conta da - Travis - juntamente com o
sr. Kraler, da firma Kolen & C.o, de que o pai também
era sócio. Quando, há uns dias, andávamos a passear, o
pai disse-me que decerto teríamos de - mergulhar -. Disse que nos iria custar muito viver
isolados do mundo.
Perguntei porque é que falava assim.
-Bem sabes - disse ele - que há mais de um ano estamos
a levar o vestuário, a mobília e os comestíveis para
casa de outras pessoas. Não queremos deixar cair o que é
nosso nas unhas dos alemães. E ainda menos queremos,
nós próprios, cair-lhes nas mãos. Por isso não vamos esperar
até que nos venham buscar.
O rosto muito sério do meu pai inquietou-me.
-Então, quando, pai?
-Não te preocupes, minha filha. Sabê-lo-ás a tempo.
Goza a tua liberdade enquanto for possível.
Foi tudo. Oxalá que o tal dia ainda venha longe!
Tua Anne
Quarta-feira, 8 de Julho de 1942
Querida Kitty:
Entre domingo de manhã e hoje foi como se se tivessem
passado muitos anos. Aconteceram imensas coisas. É como
se a Terra estivesse toda ela transformada. Contudo, Kitty,
ainda estou viva, e isto é o principal. Sim, estou viva, mas
não queiras saber de que maneira. É possível que hoje
nem me entendesses, por isso, antes de mais nada, vou-te
contar o que se passou.
às três horas (Harry tinha saído naquele mesmo
momento e queria voltar mais tarde) tocou a campainha.
Eu não tinha ouvido nada porque estava, numa preguiça
agradável, estendida na cadeira de repouso, a ler. Nisto
entrou a Margot, toda excitada.
- Anne, recebemos uma convocação das SS para o
pai - cochichou. - A mãe já foi ter com o sr. van Daan.
Senti um medo horrível. Uma convocação para o pai...
Toda a gente sabe o que isto significa: campo de concentração... Vi surgir diante de mim celas
solitárias para onde queriam levar o meu pai!
- Não pode ser - disse Margot categòricamente quando
nos encontrámos as duas na sala de estar, à espera da mãe.
-A mãe foi a casa dos van Daans para combinar se não
seria melhor - mergulhar - já amanhã. Os van Daans vão
connosco, somos, ao todo, sete.
Um grande silêncio. Não fomos capazes de dizer mais
uma palavra. A ideia de que o pai andava em visita aos
seus protegidos no asilo dos velhos judeus, sem suspeitar
coisa alguma, a demora da mãe, o calor, a tensão... tudo
isso nos emudecia.
De repente, tocou a campainha.
-É o Harry - disse eu.
- Não abras!
A Margot quis deter-me, mas já não foi preciso. Ouvimos
a mãe e o sr. van Daan a falar com o Harry. Depois
de ele se ter ido embora, entraram e fecharam a porta.
A cada toque da campainha ou Margot ou eu tínhamos
de descer sem fazer o menor ruído, para ver se era o pai.
Não devíamos deixar entrar mais ninguém. Mandaram-nos,
às duas, sair do quarto. O van Daan queria falar a sós com
a mãe. Enquanto esperávamos no nosso quarto, a Margot
disse-me que a convocação não tinha sido para o pai mas
sim para ela. Apanhei, de novo, um susto horrível e desatei
a chorar desesperadamente. A Margot tem dezasseis anos.
E eles obrigam raparigas assim a partir sòzinhas. Felizmente
ela não se há-de separar de nós. A mãe já o tinha dito e
as palavras do pai, quando me falou em - mergulharmos -,
deviam querer dizer a mesma coisa.
- Mergulhar -! Onde havemos nós de - mergulhar -?
Na cidade, no campo, num edifício qualquer, numa cabana,
quando, como, onde? Estas perguntas não me era permitido
fazê-las em voz alta mas andavam-me constantemente
na cabeça.
Margot e eu começámos a meter nas pastas da escola
o que nos parecia mais necessário. A primeira coisa em que
peguei foi neste caderno, depois meti ao calhar: "bigondis",
lenços, livros escolares, um pente e cartas velhas. Ao
lembrar-me de que íamos - mergulhar -, meti ainda na pasta
coisas inconcebíveis mas não estou arrependida.
Recordações valem mais do que vestidos.
às cinco horas o pai chegou finalmente. Telefonou ao
sr. Koophuis e pediu-lhe que viesse à noite a nossa casa.
O sr. van Daan foi buscar a Miep que veio e meteu sapatos,
vestidos, casacos e roupas brancas numa malinha. Prometeu
voltar à tardinha. Depois disso reinou o silêncio na nossa
casa. Ninguém quis comer. O calor ainda apertava. Parecia-me
tudo tão estranho!
O quarto grande, no andar de cima, estava alugado
a um tal sr. Goudsmit, um homem divorciado, de mais
ou menos trinta anos. Como nesse domingo parecia não
ter nada que fazer, foi ficando conosco até às dez horas,
não conseguimos despedi-lo antes. às onze horas chegaram
a Miep e o Henk san Santen. A Miep trabalha, desde 1933, no escritório do pai e tinha-se
tornado uma nossa
amiga fiel, assim como o seu marido Henk, com quem
casou há pouco. Na mala de Miep desapareceram sapatos,
meias, livros e roupas brancas e também nos bolsos fundos
do Henk. às onze e meia saíram carregados. Eu, cheia
de sono, já não me aguentava em pé e, embora soubesse
que era aquela a última noite que passava na minha casa,
adormeci num instante. Na manhã seguinte a mãe acordou-me
às cinco e meia. Felizmente já não estava tanto
calor como no domingo. Uma chuvinha, miúda, quente,
caiu todo o dia. Vestimo-nos todos com tanta roupa como
se fôssemos meter-nos num frigorífico. Assim, foi-nos
possível trazer para cá uma data de roupas. Um judeu
na nossa situação não podia correr o risco de andar na rua
com uma grande mala. Eu trazia duas camisas, dois pares
de meias, três calcinhas e um vestido leve, com saia e
casaco por cima e ainda mais um casaco comprido de
verão. Calcei os meus melhores sapatos, pus cachecol, boina
e ainda mais coisas. Mesmo antes de sair de casa já me
sentia quase sufocada, mas ninguém quis saber disso.
A Margot meteu mais livros de estudo na pasta, foi
buscar a bicicleta e ia pedalando atrás da Miep, para
qualquer parte, que me era desconhecida. É que eu ainda
não sabia qual era o lugar misterioso onde nos havíamos
de abrigar... às sete e meia saímos e batemos a porta.
Só me despdi de Mohrchen, o meu querido gatinho, que
havia de encontrar um bom refúgio num dos vizinhos, se
o sr. Goudsmit cumprisse este nosso desejo que lhe deixámos
ficar escrito num papelinho.
Na mesa da cozinha ficou meio quilo de carne para
o gato, na mesa da sala ainda estava a louça do pequeno
almoço. As roupas das camas arejavam nas janelas. Tudo
isso dava a impressão de termos deixado a casa precipitadamente.
Mas era-nos indiferente o que os outros podiam
pensar. Queríamos desaparecer e chegar sãos e salvos ao
nosso destino.
Amanhã continuo!
Tua Anne